(Poema) Dois veganos e a pena de morte, num país vegano
sábado, 17 de abril de 2010
CIDADÃO
Tem que matar!
Matar e torturar,
até o último que
restar em nosso
país de cidadão
e cidadã de bem.
Gente como essa
não merece nada,
não mudam nem,
são incorrigíveis.
Dura lex, sed lex.
Para eles nada, pois
para suas vítimas
só desprezo houve.
CIDADÃ
Mas, meu compatriota,
veja bem para nós,
fruto de uma sociedade
criminosa e insana,
agora sabemos como
respeitar aqueles que
tem de ser respeitados
por serem quem são.
CIDADÃO
Naqueles tempos tristes,
eles eram objeto, coisas,
que só para poucos
cabiam-lhes o mínimo
do respeito de não fazer
o maior mal imaginado.
Hoje somos quem dita
a lei em nosso terra, não
os assassinos e estupradores.
Há de defendê-los, irmã?
CIDADÃ
Não os defendo mais
que aos meus e aos seus
próprios antepassados e
aos seus próprios. Fora
nossos irmãos de além.
CIDADÃO
Então?
Diz que eles têm solução,
e que essa sua solução não
é o fio da faca enferrujada
ou o prino da pistola cromada
no sangue do abate?
Fale do traficante de corpos,
como Bruninho da Lagoa,
além dos açougueiros
profissionais que rondam
as favelas e os bairros nobres
de nossas cidades.
Não, não são recuperáveis.
Merecem a morte, mais cruel que
a que dispensaram a suas vítimas.
CIDADÃ
E essa morte trará
as vítimas de volta
para seus corpos digeridos?
CIDADÃO
Mas justiça será feita.
CIDADÃ
E mais sangue
será derramado
e mais carne será
perfurada e retalhada.
CIDADÃO
Para molhar quem o suga
e saciar a fome de quem
tem tanta ânsia por ela.
CIDADÃ
Como se adiantar isso iria.
CIDADÃO
Pelo menos sentiria
que algo está sendo
feito para acabar
com a delinquência.
O medo de se igualar
às vítimas de suas
mãos irá paralisar
os possíveis autores
dos crimes mais odiosos
que é o biocídio, contra
uma vida indefesa.
