Creofilia: uma imposição aos animais
segunda-feira, 22 de março de 2010Já dizia um certo Logan, no Arauto da Consciência que:
Quer comer seu mato, coma. Mas à partir do momento em que tentas IMPÔR tua condição alimentícia aos outros, te tornas o reacionário que tanto condenas. (Grifo meu)
Um colega meu, quando fui fazer meu seminário sobre Direitos Animais na Faculdade de Direito da Bahia (FDUFBa), também expôs uma opinião um tanto similar, apesar de forma um tanto mais acadêmica do que Logan (a citação não é perfeita, pois já faz tempo que o seminário aconteceu):
Não se pode impor às pessoas o vegetarianismo.
Apesar de discordar a princípio sobre a opinião deles (pois não vejo imposição alguma), eu discordo ainda mais: pode-se sim impor o vegetarianismo às pessoas, e mais, é um dever moral fazê-lo quando você reconhece os Direitos Animais.
Obviamente, eu não quero dizer que devemos sair aí coagindo as pessoas a serem vegetarianas. Não é o caso, nem temos poder e legitimidade jurídica para fazê-lo. O que temos que fazer é veganizar o Estado que, para quem não é anarquista, possui legitimidade de impor as pessoas (quando democrático). Isso só se dará quando a maior parte da população de uma nação se tornar vegana e utilizar dos meios estatais para criar leis que verdadeiramente respeitam os animais como seres sencientes e sujeitos-de-uma-vida que o são.
Deixando as considerações inciais e partindo ao assunto do artigo:
Os creófilos acusam os veganos de quererem impor suas opções alimentícias, além de outras questões morais inerentes aos veganos, aos creófilos. Isso se daria através de uma intransigente pregação. (Onde entra a coerção, eu não sei… mas pelo visto conversar é bem coercitivo para esses creófilos sensíveis a questionamentos de sua moralidade). As pessoas têm direito a escolherem o que comer, ao que vestir, a de matarem os animais que quiserem (ou não, pois a maioria desses creófilos ficaram chocados com a ideia de matar um cachorro para comê-lo).
Porém, isso tudo é construído a partir de uma premissa um tanto absurda: de que apenas os humanos têm direito à vida. Tanto que nunca vi um bom creófilo aceitando de bom grado canibalismo. Essa premissa desconhece o princípio de igual considerações de interesses e carece de boa fundamentação (veja qualquer bom livro de Ética Animal, como Jaulas Vazias de Regan e Libertação Animal de Singer, ambos tratam sobre isso com maior propriedade do que eu poderia num artigozinho como esse).
Ao considerar que animais sencientes têm direito à vida (sem contar outros tantos que eles possuem por sua natureza sensível), é a creofilia que está de fato fazendo uma imposição. Imposição esta aos animais. A liberdade alimentícia dos humanos começa quando a vida do outro acaba ou é explorada.
Naturalmente, os creófilos têm carência de alteridade. Eles simplesmente não veem que aquele leitinho, aquele cosmético testado no coelho felpudo, tornou a vida de alguém miserável. Eles cobriram uma realidade e não querem vê-lo, por isso, talvez, eles sejam tão agressivos e hostis contra os defensores dos direitos animais e tudo que a eles é associado.
No final, os impositores são eles, que além de imporem suas preferências de consumo (além de caprichos culturais banais, como rodeios e vaquejadas), querem impor uma censura voluntária contra nossas manifestações de opinião. O diálogo não é o forte daquele que impõe, os creófilos são um belo exemplo disso.
(Fora essa questão animalesca, a creofilia também impõe situações perigosos a outros humanos. Quem fala lucidamente sobre o assunto é Allan Menegassi Zocolotto, em artigo publicado na Pensata Animal).