Educação Vegana no Brasil: sem efeito
sábado, 27 de março de 2010Como eu coloquei no artigo anterior, cerca de 83% dos entrevistados em minha pesquisa afirmaram que os animais têm direito à vida. O interessante, desse número, é que 66% dos entrevistados comem cadáver alheio, provavelmente pagando pela morte prematura de seus então proprietários (ou seja, são creófilos). Existe alguma coisa errada nessas figuras, uma certa incoerência entre um dito e o ato que se é feito. Talvez essa incoerência tenha como resposta a própria questão do que é Direitos Animais e sobre o especismo para essas pessoas.
Dos veganos, somente um não se afirmou anti-especista. A maioria dos outros vegetarianos também se consideraram anti-especistas. Já, dentre os creófilos, a maioria nem sequer sabe o que é especismo (e poucos admitiram que especismo é algo inato ao ser humano, sendo que a maioria reconheceram-se como bem-estaristas “morte digna” ou seletivos).
Já “Direitos Animais”, para os creófilos e vegetarianos em geral, é sinônimo de Proteção Animal. Os veganos, devido a influência do trabalho de Gary Francione e Tom Regan, reconhecem os Direitos Animais como A Abolição do uso deles, tal como os Direitos Humanos implicou na abolição da escravatura por quem os reconhecessem.
Esse fenômeno pode ser observado melhor quando visualizado a quantidade de veganos que os creófilos conhecem. Creófilos que conhecem mais veganos tendem a reconhecer um menor leque de direitos animais e a saberem o que é especismo. Alguns, inclusive, se consideram anti-especistas. Talvez sejam futuros veganos, como os vegetarianos em geral que se consideram anti-especistas. Ou simplesmente pessoas que não sabem que podem viver sem a morte “desnecessária” dos animais não-humanos. Nenhum creófilo anti-especista reconheceu que o direito humano à vida seja relativizada, portanto ou eles estão esperando alguma coisa para serem veganos, ou simplesmente não entenderam muito bem o que é ser anti-especista.
Fato é que a educação vegana, no sentido de explanar os conceitos básicos do movimento dos Direitos Animais, não está tendo resultados satisfatório. Pelo menos no Nordeste de nosso país, no recorte o qual a minha pesquisa teve, esse foi o resultado o qual a minha pesquisa chegou.
Nosso trabalho em sensibilizar os creófilos diante de seus terríveis atos é, obviamente, louvável e deve ser conduzido progressivamente. Porém, devemos nos concentrar também em educar os creófilos. Mostrar para eles as implicações de coisas como “os animais têm direito à vida” nos hábitos deles, denunciar o especismo deles para que possam refletir da injustiça que esse fenômeno representa. Entre outros fatos pertinente ao assunto.
Ao menos, eles poderão ser então sinceros consigo mesmos, deixando de afirmar que os animais não-humanos possuem direito à vida, à liberdade, à integridade física, assumindo suas respectivas atitudes especistas e minimamente cruéis. Já aqueles que realmente concordam que os animais têm aqueles direitos inerentes poderão ser conduzidos ao mínimo moral que essa realidade moral requer: o veganismo. Isso tudo sem o desgaste natural que o nosso tradicional trabalho de sensibilização, através da remoção do manto mental que as pessoas têm do processo de objetivação dos não-humanos.