
Uma refeição creófila com uma diversidade de espécies animais. Foto de lotusutol.
Primeiramente, gostaria de destacar o fato de não ser psicólogo ou psiquiatra. Os conceitos de sociopatia aqui trazidos não são de caráter técnico, mas sim impressões do senso-comum social, e assim será aplicado.
Em segundo lugar, aviso que esta postagem, como a maioria das minhas postagens, pode causar um desconforto para os creófilos. As comparações que se dará poderá ofender acima do comum os creófilos, visto que lida com a analogia do comportamento deles tido como normal com comportamento de outros tidos como monstros normais (“criminosos”). Naturalmente, não aceitarei comentários abusivos, como xingamentos e afins. Não vejo diferença ôntica (de espécie) entre o assassinato de um ser senciente e um ser sapiente. Tampouco vejo diferença ôntica na morte de um humano, não-humano, familiar meu ou do comentarista. O especismo, desde o princípio, não é norteador de meus artigos (tampouco de qualquer opinião que se diga vegana). Sua oposição que o é.
Diz-se do sociopata aquele que comete coisas moralmente extremamente reprováveis (normalmente tidas como crimes, apesar da matança de animais sencientes não o ser) e não sente nem um pouco de remorso. Irei me centrar em construções abstratas, não tratando de humanos específicos, e desconsiderando outros traços de sociopatia que não sejam esses.
Frente a opinião pública, muitos criminosos que matam a sangue frio suas numerosas vítimas (assassinos em série) ou uma vítima especialmente indefesa (normalmente, quem mata idoso ou infante), muitas vezes utilizando de meios cruéis e por motivos fúteis, sem demonstrar remorso, são tidos como sociopatas. Não é incomum a clamar pela eliminação física dos autores dessas atrocidades, especialmente no calor da indignação moral das pessoas que pedem mais uma morte. Algo corriqueiro, infelizmente. Porém, deixemos a questão legal e especista de lado. Vejamos casos similares a essas ocorrências, fora de nossa espécie.
Os caçadores, abatedores, pescadores e outros ditos cidadãos de bem têm hábito de matar corriqueiramente, muitas vezes com requintes de crueldade (atirando no ser indefeso e o deixando sofrer, degolando-o e deixando morrer afogado em seu sangue, quebrando seu pescoço, matando por lenta asfixia, etc) numerosos seres sencientes de outras espécies. Sem remorso, naturalmente. Não seriam esses especistas diretos sociopatas? Se fizermos uma analogia com o caso do infanticida, onde o agravante é o estado de debilidade defensiva do sujeito da agressão gravíssima, (que é o atendado a seu bem mais importante, que condiciona a existência dos outros bens morais) a perfeição será grande. A vítima do caçador, do abatedor, do pescador é indefeso, é senciente e não tem como escapar de forma justa de seu algoz. E, no caso especial do abatedor e do pescador, o seu motivo é estupidamente fútil: o paladar (fora situações de risco e extremos, de onde não é honesto tomar como regra). Já o caçador esportivo, utilizando de uma retórica ecológica, sorri diante de suas atrocidades “ecologicamente correta”. Mais sociopata que o caçador esportivo, talvez somente o creófilo-padrão.
O creófilo-padrão, aquele que é especista seletivo, que terceiriza sua crueldade talvez seja o mais cínico de todos os especistas. Ele não se reconhece como um agente ativo das atrocidades do qual é o corresponsável. Analogicamente, podemos vislumbrar o mandante de matança. Quem manda matar, pela lógica da irresponsabilidade do creófilo-padrão, não é responsável moralmente pela morte que mandou. Uma retórica tão falsa que soa simplesmente ridículo aos ouvidos treinados de um vegano. Há outro instrumento que creio que seja mais usado do que esse que é a afirmação de que a aquisição da carcaça não por encomenda (normalmente), mas sim ocorre depois da morte ter sido realizada. Uma franca desonestidade por parte dos creófilos, visto que sabemos que o produto existe para suprir as demandas que se tem por ele. Contudo, são os creófilos que se sentem os mais limpos e eticamente incontestáveis, ao mesmo passo que eles mesmos reconhecem os direitos que eles não respeitam dos animais. O cinismo e a falsidade, além da ausência de remorso, é bem manifestado neles. Não posso deixar de concluir que, nesse aspecto, eles são sociopatas.
Outro fenômeno que vejo como relevante é a autoafirmação especista. Os creófilos tendem a não só praticarem atos especistas, mas também de se orgulharem de fazer isso. O antropocentrismo pautado na autoafirmação especista da violência, a exemplo de toda ideologia que sustenta a tese da superioridade de nossa espécie baseada em nossa capacidade de eliminar a vida alheia (de forma racional ou “natural”). Se faz o que se faz pois se pode, não havendo ponderação ética a cerca disso, num ato tremendamente sociopata.
Assim, acredito que num futuro vegano (caso de fato ocorra), os poucos creófilos que restarão serão tratados tal como os infanticidas e homicidas em série o são hoje pela nossa sociedade. A sociopatia será a etiqueta que estará estampada nas testas deles, certamente, por motivos não menos justos quanto os que ditei acima.