Dos Ex-Veganos
domingo, 1 de maio de 2011I. Introdução
Tido como um debate de menor importância, devido ao fato de incidir sobre raros casos, o tema dos “ex-veganos” tem sido levantado pelos fóruns de discussão sobre Direitos Animais, normalmente dentro de um contexto conflitante entre dois polos: aqueles que entendem que todos aqueles que já um dia foram veganos deixaram de sê-los são “ex-veganos”; e aqueles que entendem que aqueles que um dia foram veganos ao deixarem de sê-los nunca foram veganos para começo de conversa. Proponho, neste artigo, uma posição intermediária entre esses polos que, entendo, serem, com todo o respeito àqueles que assim entendem, simplistas.
Introdutoriamente, devo eu sintetizar o meu entendimento do que consiste o veganismo: trata-se de um estilo de vida com fundamento ético nos Direitos Animais. Isso implica na possibilidade de bipartição do veganismo: há o aspecto subjetivo (a fundamentação nos Direitos Animais; o fundamento ético) e o aspecto objetivo (o respeito, até onde for possível no contexto real, desses direitos; o estilo de vida). Para se ser vegano, em minha modesta compreensão, é necessário observar esses dois aspectos. A inobservância de qualquer um deles, de início, faz com que a pessoa não deva se considerar vegana.
II. Os ex-veganos e o aspecto subjetivo do veganismo
Como já defendi anteriormente, o aspecto subjetivo é, por sua própria natureza, primordial na minha conceituação de veganismo: sua estrutura rígida não comporta grandes flexibilidades, senão aquelas que as vertentes dos Direitos Animais comportam (por exemplo, o critério a ser adotado para inclusão de algum ser ou ente na comunidade moral e a estrutura do comando moral). Essa rigidez não tolera grandes acrobacias intelectuais, tornando, incrivelmente, o aspecto subjetivo objetivamente de mais fácil compreensão.
É nessa dimensão que aqueles que argumentam na impossibilidade de se haver ex-veganos assentam seus argumentos. Afinal, aquele que não adota como fundamento de seu estilo de vida nos Direitos Animais, desde logo, nunca fora vegano. Não objeto a isso. Portanto, aquele que não assenta seu estilo de vida nos Direitos Animais, que, por pura coincidência, objetivamente aparenta ser veganismo, não é vegano. É nesse sentido que se argumenta quem, por outros motivos senão éticos (religiosos, de saúde, econômicos, etc.), adote o vegetarianismo estrito, não é vegano.
Contudo, e aquele que uma vez adotou a ética dos Direitos Animais mas, por algum motivo (fundamentação fraca, contraargumentos fortes, incompatibilidade com ideologia superveniente, etc.) a renega? Pode-se dizer que é um ex-vegano no aspecto subjetivo? Creio que a resposta seria relativamente positiva. Isso dependeria da força que aquela concepção ética tinha na vida dessa pessoa. Se for algo fracamente assentada, tendo a crer que jamais fora vegano, mas sim que esteve “em transição” para o veganismo. Caso havia sido algo razoavelmente com fortes fundações, pode-se dizer que uma vez foi vegano e agora não mais o é.
III. Os ex-veganos e o aspecto objetivo do veganismo
O aspecto objetivo, por se tratar de uma manifestação no mundo concreto, pode ser o mais facilmente aferido, porém é o que mais comporta adequação ao contexto, e, por isso, é o que aceita maiores variações. Não obstante, é ainda corriqueiro o resumo do veganismo ao vegetarianismo estrito coligado com o boicote a peles, produtos testados em animais, lazer às custas dos animais, comercialização dos mesmos, etc.. Creio ser demasiadamente estanque essa definição objetiva e taxativa do que seria o veganismo na prática, vez que não comporta o contexto onde é praticado (no Brasil, por exemplo, muitos produtos são compulsoriamente testados em animais, não havendo nenhuma culpa por parte de quem compulsoriamente tem que realizar os testes).
É nesse critério que, majoritariamente, aqueles que pregam que todos os que deixam de ser veganos são ex-veganos. Ao deixar de por em prática os direitos animais, aquele que já fora objetivamente vegano não mais o é. Porém, levando em conta este aspecto, nunca se é vegano quando se pratica a creofilia, quando é plenamente possível não o ser. O mesmo ocorre em qualquer aspecto da violação dos direitos animais, quando esta violação é claramente evitável e, portanto, facultativa. Dessa forma, aquela pessoa que entende que os animais têm direito à vida, a integridade física, etc., mas que sistematicamente violam tais direitos em seu dia-a-dia, não é objetivamente vegano, apesar de subjetivamente ter uma consciência compatível com o aspecto subjetivo do veganismo. Normalmente são aqueles que, por medo social, por conveniência ou por puro comodismo, se colocam a favor dos Direitos Animais, mas que não querem ser os ditos aventureiros.
Naturalmente, a violação dos direitos animais tem-se que ser realizada conscientemente. Aquele que é enganado pelo fornecedor de algum produto, e não tem nenhum motivo relevante para desconfiar do ludibriamento, que é fruto inerente da violação dos direitos animais, não age conscientemente. Porém, aquele que nem sequer procura as mais fáceis informações, enquanto consumidor, assume o risco de compactuar e participar do especismo institucionalizado em nosso sistema.
IV. Os dois aspectos considerados
Esses aspectos, por integrarem a definição de Veganismo, como havia dito na introdução, devem ocorrer na mesma pessoa simultaneamente para que ela seja vegana. Aquele que não mais fundamenta seu estilo de vida nos direitos animais, passando a adotar como base argumento, por exemplo, da saúde, deixa de ser vegano quanto ao aspecto subjetivo. Aquele que, por exemplo, apesar de crer na validade dos Direitos Animais, não quer mais participar de uma batalha invencível contra o especismo e se rende a prática do mesmo, deixa de ser vegano quanto ao aspecto objetivo. Já aquele que nunca entendeu que Direitos Animais são cabíveis e pratica o especismo em qualquer uma de suas modalidades, por vontade própria e livre, nunca foi vegano. O mesmo ocorre, objetivamente, quando alguém crê na validade dos Direitos Animais mas assim mesmo pratica o especismo ou, subjetivamente, não crê na validade dos Direitos Animais, mas temendo os poderes de Gaia, não ousam importunar sua criação sensível.
V. Conclusão: a utilidade prática desta reflexão
A essa altura do texto o leitor pode estar se indagando, prestes a comentar este post: sim, e daí? Qual é a relevância prática dessa reflexão? Não importa, de qualquer forma, apenas para quem deixou ou nunca foi vegano pensar isso a respeito de si mesmo?
Creio que a resposta para a última pergunta seja negativo. A implicação de que aspecto do veganismo não mais está presente na mente ou nas ações de alguém não interessa apenas a ela, mas sim aos ativistas em geral. Diante disso, pode-se elaborar estratégias mais efetivas para o resgate dos ex-veganos e a conquista daqueles que, apesar de uma vez aparentemente veganos, jamais o foram. Além disso, sobretudo nos casos supervenientes, é cabível essa reflexão na elaboração de estratégias de educação ética para os Veganos, para que suas bases sejam sólidas.
