Opinião Vegana

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Do Alfascismo

quarta-feira, 8 de dezembro de 2010

Depois de muitas promessas, aqui está o artigo que discorro sobre o Alfascismo, uma tendência que tanto tem atrapalhado o progresso do movimento pelos Direitos Animais no Brasil e no mundo.

CC-BY-NC-SA Brocco Lee

1. Da origem do termo.

A palavra “Alfascista” surgiu no artigo E as plantas? de Bruno Müller, nesses termos: “Os pretensos defensores das plantas – que eu jocosamente chamo de “alfascistas” (conjunção de “alface” com “fascista”) – na verdade guardam parentesco com os relativistas e os realistas políticos.” Assim, originalmente alfascista é aquele que falsamente defende as plantas, em falsa analogia com os veganos (que defendem os direitos animais), de forma de revelar o absurdo prático de uma ética biocêntrica.

O alfascismo, enquanto sistema de ideias, tal como “fascismo” termina em ismo. Também vale notificar que é comum grifar-se alfacismo, sem o s, devido a maior aproximação com a palavra “alface” que é marca registrada dos alfascistas.

2. Do sentido que atualmente tem tido.

Eu, particularmente, tenho usando o termo alfascismo para todo tipo de militância creófila que seja desonesta, apelativa ou simplesmente ataca espantalho. Tenho verificado que essa significação tem sido usada por outros veganos, tanto em redes sociais quanto na blogsfera. Mas como o termo é novo, tendo apenas dois anos, é bem possível que mude um pouco de sentido, expandindo-se para alcançar outros tipos de militância antivegana que vemos por aí, e que virá a surgir.

3. Das modalidades.

Os argumentos alfascistas são bem variados, porém antigos conhecidos nossos. Minha exposição se dará dentro de uma divisão didática quanto ao objeto dos ataques e a natureza do argumento em questão.

3.1 Quanto ao objeto.

Os alfascistas aparentemente evitam atacar o aspecto nutricional do veganismo, ocorrendo raramente algumas investidas. Quando ocorre, normalmente procura-se descreditar o China Study e ignorar o relatório da ADA (quando não se ater em falsos erros, tal como “vegetarianos consomem pouco colesterol” que é correto, pois a ADA inclui os ovo-lacto na categoria “vegetarianos”).

O alvo favorito deles é a suposta incoerência que existe por parte dos veganos, ao defender os animais e consumir plantas. Entendem eles que somos biocêntricos (isto é, valoramos a vida simplesmente), e que portanto defendemos a vida no sentido mais amplo possível, incluindo logicamente os vegetais. Obviamente, qualquer um que tenha lido algo de Peter Singer, Tom Regan ou Gary Francione, sabe muito bem que isso não procede. Há sim veganos biocêntricos, e estes sim podem ser alvos das críticas alfascistas. Para que eles façam tal ataque ou eles realmente não entendem o que é ser senciente ou ser sujeito-de-uma-vida (para o reganianos) ou simplesmente atacam um espantalho, isto é, atacam como se biocentrismo fosse.

Outra questão muito levantada, ainda nesse aspecto da coerência, é a inviabilidade do veganismo verdadeiro, coisa que eu já argumentei neste blogue. É mais que óbvio que eles desconhecem diferença moral entre acidente e incidente, ou, em má-fé, fingem ignorância.

De outro lado, eles também têm atacado através do princípio do menor dano possível. O maior militante nessa área é o famoso Dr. Salada, que utilizando de argumentos já aniquilados no exterior, adaptou o discurso em prol do gado verde. Segundo o mestre, veganos matam mais do que um creófilo que se alimenta de gado verde. Basta ir no orkut que se encontrará os argumentos batidos dele. Mas que fique sabendo que se trata apenas de uma reedição do debate de Steven Davis, mas abrasileirado, que já foi superado por Gaverick Matheny e Andy Lamey.

O Saladismo acaba por ser um tipo de alfascismo não muito pelo seu conteúdo, mas sim pela forma que o Dr. realiza seu trabalho missionário. Ignora-se argumentos, utiliza uns pela metade, às vezes recorre ao espantalho.

3.2 Quanto a natureza do argumento.

Os argumentos alfascistas são comumente encontrados em cinco sabores: o argumento teológico, natural, antropocêntrico-emotivo, ecologista,  imediatista e polemista.

O argumento teológico é relativamente raro e já foi previsto por Tom Regan, que rebateu em Jaulas Vazias (ed. Lugano) o argumento dos animais desalmados e do domínio divino sobre os animais por parte dos humanos. Sinteticamente, quanto ao argumentos dos animais despossuídos de almas, Regan afirma: “A objeção ‘os animais não têm almas’, ao invés de minar as metas abolicionistas que todos os defensores dos direitos animais compartilham, tem implicações que na verdade colaboram com a realização dessas metas. O melhor modo de garantir que os animais tenham uma vida tão boa e longa quanto é da sua natureza ter é agir de forma a respeitar seus direitos.” (p. 84) Afirma ele, antes, que como os animais não possuem vida pós-morte. é dever nosso garantir-lhes uma boa vida aqui e agora. Já o argumento do domínio divino, assim é contestada: “Ser contemplado por Deus com o domínio sobre tudo não significa receber uma carta branca para atender às nossas necessidades ou saciar nossos desejos. Pelo contrário, significa ser incumbido da imensa responsabilidade de ser o o representante do criador na criação; (…)” (p. 84) E o criador, em questão tem amor e zelo com a criação, logo nós deveríamos agir em conformidade, zelando pelos Direitos Animais.

Consoante a isso, Rosen é categórico ao explica, sobre a mesma passagem bíblica que fomenta a ideia de domínio, que “(…) the original Hebrew for the word “dominion” is yirdu, and it connotes a sort of stewardship or guardianship. In other words, we are given the command to care for our more humbly endowed brothers and sisters – the animals – not to eat them.” (BERRY, Rynn. Food for the Gods. p. 111) Ou seja: “(…) no Hebraico a palavra que corresponde “domínio” é yirdu, e ela tem uma conotação de guarda e gestão. Em outras palavras, nos foi dado o comando de cuidar de nossos mais humildemente dotados irmãos e irmãs – os animais – não os comer.” (tradução livre)

Um argumento que me deixa fora do sério, é, sem dúvidas aquele que diz que é natural (e, portanto, certo) a creofilia. Pode vir em várias formas, tal como: 1. Nós podemos comer carne, logo temos o direito de matar os outros; 2. Há animais que matam outros para comer, logo temos o direito de fazer o mesmo; 3. Eles não respeitam nossos direitos, logo podemos desrespeitar os deles. Esses argumentos podem variar quanto a apresentação, podendo ser encontrado em algumas dessas formas: o 1 pode se apresentar como “somos o topo da cadeia alimentar”, “nós temos dentes caninos”; o 2 pode ser encontrado como “animal X mata outros animais para comer”; o 3, por fim, pode ser encontrado como “se um animal me lesar tenho que ficar inerte? Não.”, “se eles tivessem a mesma oportunidade, fariam a mesma coisa”. A conclusão sempre é a mesma: isso ou aquilo nos autoriza a fazer o que fazemos com os animais, pois é natural (e supostamente lógico).

Em 1 há o erro de confundir possibilidade (campo do ser) com moral (campo do dever-ser). Eu poderia muito bem difamar meu colega Robson Fernando aqui, logo eu farei isso? Não. Não há lógica nisso, tal como não faz lógica o fato de eu poder comer carne me autorizar a matar animais. Já no 2 a coisa é igualmente absurda, pois equivale a dizer “o que terceiro faz com outro terceiro me autoriza a fazer o mesmo com um outro terceiro ou aquele mesmo terceiro”. Na realidade, o que terceiro faz não tem nenhuma ligação com seus atos, exceto quando é para socorrer o outro terceiro que foi ou está sendo lesado. Com efeito, ninguém que usa esse argumento fala nesse sentido, de matar individualmente animais que ameaçaram a matar outro animal, para comer. A coisa é feita em grupo, agregando inocentes, ou seja, animais que estão fora do ato (para começar discussão, pouquíssimos animais carnívoros são consumidos pelos creófilos). Por fim, o 3, que já foi apontado por Regan, peca no nexo de atacar o espantalho (pois a autodefesa raramente é questionada por defensores dos direitos animais), por agir em antecipação (vou matar para comer o animal, pois ele talvez venha a me lesar, e vou fazer eles procriarem e… e… e… vou mantê-los, e tudo mais), por generalizar em um grupo absurdo que vai atingir, obviamente, quem não tem nada haver com a história.

Por fim, ainda há outro argumento que apela a natureza que deixei de fora, que é uma espécie de primitivismo anacrônico. Isto é, eles se portam como se estivessem na era das cavernas quanto aos animais, porém andam de carro e mascam chicletes. Normalmente tal argumento vem junto com a exaltação da caça primitiva, porém esquece que deixamos de ser nômades, praticamos a agricultura e tornamos, para todos os efeitos, a criação de animais para consumo virtualmente obsoleto. O consumo só não é obsoleto na prática por conta da conveniência dos próprios creófilos.

O argumento antropocêntrico-emotivo é muitíssimo comum. Está, normalmente, baseado num apelo a uma emoção de fundo especista. Isto é, normalmente assume que humanos sejam prioritários e utiliza de chantagem emocional para ir contra o veganismo (como se ser vegano implicasse em ser antropofóbico). Peter Singer já dizia, em Animal Liberation (ed. Harper Perennial) que “Among the factors that make it difficult to arouse public concern about animals perhaps the hardest o overcome is the assumption that “human beings come first” and that any problem about animals cannot be comparable, as a serious moral or political issue, to problems about humans.” (p. 219) ou seja, “Dentre os fatores que dificulta o atiçar a consideração do público em relação aos animais, talvez seja a mais difícil de superar, é a ideia que “humanos são prioridade” e que qualquer problema sobre animais é incomparável, enquanto problema moral sério ou questão política, aos problemas que envolvem humanos.” (tradução livre). Ora, o alfascista simplesmente usa essa crença especista contra o vegano desavisado, e provavelmente especista em seu interior. A culpa que o alfascista quer atingir encontra guarida nos resquícios do especismo. Se todos os animais, guardado suas diferenças, são iguais, não há erro na conduta vegana. Ainda digo mais: raramente quem usa esse argumento faz algo pelos outros seres humanos.

Por outro lado, há o argumento ecologista que praticamente se resume ao saladismo. Como já apresentei as refutações, através de links exteriores, aos argumentos de Davis (que são, mutatis mutandis, os mesmos que os do Dr. Salada), me furto de tratar novamente essa questão.

Já o argumento imediatista é, sem sombra de dúvidas, fantasioso. A premissa básica é  que a abolição animal se dará agora e imediatamente. Logo eles levantam a questão sobre o destino dos 54 bilhões de animais que eles deram causa para existirem. Ora, a abolição é um processo. Todos que no ENDA exclamou “Queremos a libertação animal e queremos agora!” estavam todos sendo alegóricos. Até que, e se, a abolição animal seja feita o número de animais será muitíssimo menor, pois não se dará da noite para o dia. O problema apocalíptico anunciado pelos imediatistas não se configurará, por simples questão de ordem prática.

O argumento polemista, que não é de fato argumento, mas o chamarei assim por mera questão de classificação, é também comum. Normalmente aparece inicialmente em segundo plano de alguns de cima, em um tom agressivo porém aberto a discussão. Conquistada a plateia, o polemismo vai para a linha de frente fazer o máximo de estrago. Bruno Müller, mais uma vez, fez um estupendo e completo artigo sobre essa tática retórica. Vale a pena, contudo, fazer uma síntese citando o que vejo como o mais importante na compreensão do que é o argumento polemista: “O “escritor”, inebriado pela fama, começa amaldiçoando a educação no país – seus leitores formam uma massa de analfabetos funcionais incapazes de captar seu humor “inteligente”. Se a maioria discorda de você, está óbvio que é porque não sabe ler nem interpretar. Polemistas em geral sempre respondem aos seus críticos com uma condescendente acusação de estupidez e semianalfabetismo que, claro, lhes exime completamente da necessidade de responder às tais críticas com argumentos plausíveis. E se os fatos desmentem o polemista – pior para os fatos. Ele simplesmente os ignora.” Também Bruno é taxativo em afirmar: “Seguem-se mais algumas piadas sobre o destino terrível das alfaces (…) Novos xingamentos, mais maldições (…). Os carnívoros, do alto de sua douta sabedoria, proclamam-se os únicos aprovados (com louvor, certamente) nas aulas de interpretação (mesmo que sua redação seja sofrível). E, claro, condenam a agressividade dos vegetarianos.” Por fim, diz Bruno que “(…) a crítica do polemista é sempre favorável aos poderosos. Sua independência jamais ataca os endinheirados. Sua inteligência enaltece os exploradores. Sua coragem nunca confronta os opressores.”

4. Considerações Finais

O Alfascimo é uma tendência que vejo como natural, uma reação dos que tem o que perder com a expansão do veganismo e daqueles que veem os Direitos Animais como uma ameaça a seus paradigmas éticos há muito tempo consolidados. Porém, como pode-se demonstrar, essa tendência é minada por uma falta de criatividade com seus argumentos, ou pseudoargumentos, já refutados inúmeras vezes e por muita gente.

Querido blogue…

sexta-feira, 18 de junho de 2010

Querido blogue,

Recentemente, algo muito curioso aconteceu comigo.

Fui almoçar, encontrei um conhecido, que encontrou outro conhecido. Esse meu conhecido me apresentou como vegano, eu disse “oi” e fui comer minha comida (que estava muito boa, por sinal). Logo depois disso, esse conhecido do meu conhecido (que simplesmente chamarei de “ele” para o restante do artigo) confessou algo: deixou de ser protovegetariano. No final das contas, ele descobriu que dá para ser saudável comendo peixe, de vez em quando.

Como ele nunca deu a mínima para os animais, pois é natural que os mate, visto que eles matam uns aos outros. Meu conhecido o rebateu argumentando que se fosse assim, homicídio, estupro, infanticídio (contribuição minha), por ser natural.

Depois ele começou a criticar os vegetarianos por se acharem bons, etc, etc.

No final, os dois entraram num consenso baseado na espiritualidade oriental.

Att.

Samory Santos.

Assim, eu queria compartilhar isso com vocês para apontar alguns problemas que podem ter causado a indignação prévia (pois, aparentemente, ele estava me criticando por associação).

Primeiramente, vemos a questão da saúde: “Seja vegano por você.”

Quem não estudou um pouco mais sobre, por exemplo, taxas de mortalidade de populações vegetarianas e creófilas pode ficar simplesmente colocando veganismo como uma panaceia para os problemas de saúde da contemporaneidade. Não é bem assim. Populações que se alimentam de peixe tendem a ser mais saudáveis do que veganos e outros creófilos. O apelo pela saúde pode funcionar com pessoas que se importam muito com sua saúde, mas não a todos. Prova disso é o tabagismo. Quem não sabe que fumo causa n doenças? Outro exemplo é o sedentarismo. Agora, não entrarei no debate que não buscar pela saúde eticamente viável seja uma obrigação moral do indivíduo para consigo mesmo (um pensamento que eu discordo). Porém, devo confessar que é um tipo de apelo egoísta que não serve de nada para os animais.

A segunda questão é da bondade: “Veganos são bons.”

Eu nunca vi alguém ostentar essa ideia. Talvez seja confusão do próprio argumento ético. que pode ser entendido nesse temo: quem explora os animais é ruim, logo quem não os explora é bom. É um equívoco. Quem não explora os animais não é bom. É indiferente. Mas quem os explora é “ruim”. Ser “bom” é fazer coisas boas, não deixar de fazer coisas ruins.

A terceira questão que vi nesse discurso é o naturismo: “O natural é bom!”

Esse é um argumento velho, surrado, usado para qualquer coisa que você puder imaginar. Homossexuais eram condenados moralmente por agirem contra a natureza. Isto é, o que não é natural é imoral. Esse discurso, se realmente fosse usado de forma sincera, iria inviabilizar a civilização (e a quem o faça), pois a civilização é antinatural. Contudo, o ponto fraco desse discurso é simples: o que natureza tem a ver com moralidade? Não tem nenhuma ligação.

E a quarta, e última, questão é a de agir como terceiros agiriam, e não como você mesmo agiria: “Faço como eles fazem entre si.”

Obviamente, tenho que distinguir em grupos artificias os humanos e os não-humanos, e homogeneizá-los para que isso faça sentido. A lógica é a seguinte: eu mato pois eles matam entre si. Problema desse discurso é que não faz o menor sentido (então vou mutilar as genitálias dos somalianos pois eles mutilam um dos outros?) e, pior, atinge quem não tem nada ver. Se fosse para justificar a matança de animais carnívoros e onívoros, teria uma lógica interna, mas quando se expande para os animais herbívoros (ovinos, galináceos, os mais cobiçados), qual é a lógica interna? O simples fato deles serem membros do grupo amorfo e abstrato chamado “animais”? Não, eles não matam outros de seus semelhantes para comerem.

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