Opinião Vegana

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O mundo sob uma ótica vegana.

B-12, o Calcanhar de Aquiles do Veganismo?

12 de março de 2011

Aviso: esse artigo não é médico, não é feito por médico, não devendo ser entendido com exercício ilegal da profissão de médico. Todas os dados de interesse médico são meras reproduções, com o devido crédito, de textos escritos por médicos ou nuticionistas sobre o assunto.

O tópico sobre a vitamina B-12, a cobalamina, talvez seja o mais persistente assunto tratado em revistas, fóruns, comunidades do Orkut, quando o tema é vegetarianismo. Não é a toa, vez que é amplamente conhecido o fato de que a B-12 é encontrada em abundância nos produtos de origem animal, especialmente nas vísceras de ruminantes, e nada é encontrado em fontes vegetais, exceto análogos, formas inativas da vitamina. Se alguém pegar a Revista dos Vegetarianos, por exemplo, e abrir em “fale com os especialistas”, não será raro ver alguém perguntar, mais uma vez, algo sobre a vitamina que assusta tanto os vegetarianos. Mas essa preocupação não vem sem motivo algum, pois, segundo Eric Slywitch, a deficiência nessa vitamina possui resultados terríveis, a saber, nas palavras do próprio médico: “De forma geral, a pessoa se sente cansada, com falta de apetite e, às vezes, com dores generalizadas. A língua fica lisa e brilhante, pois as papilas se atrofiam. A redução dos níveis de B12 provoca dois problemas principais: alterações sanguíneas (como a anemia ) e no sistema nervoso. [...] [O]corre alteração da sensibilidade nos pés, comprometimento da percepção vibratória e da propriocepção (autopercepção), irritabilidade, comprometimento da memória e agitação. [...] Em adultos, se relaciona com maior surgimento de demência [...], doença de Alzheimer [...], doenças cardiovasculares e osteoporose.” [1]

Naturalmente, tudo isso pode ser evitado com a suplementação, pois como o médico afirma na obra já mencionada: “[...] na dieta vegana, não é possível conseguir B12 por outra via (higienicamente adequada) que não seja o uso de suplementos.” [2] (grifado no original) Eric não se aventura em discorrer quais seriam essas formas, higienicamente inadequadas, de obter a vitamina B-12, porém já tive conhecimento de sugestões como: não lavar os vegetais, simplesmente, praticar coprofilia, entre outras coisas que podem resultar em doenças nada agradáveis. George Guimarães, conhecido empresário, ativista e nutricionista, consoante, também é categórico ao afirmar, em resposta a uma pergunta em “Perguntas e Respostas” na Revista Vegetarianos de número 48, em sua página 55: “A suplementação é a única forma segura de obter a vitamina B12 em uma dieta baseada em vegetais.” [3] Não obstante, agora redundante, posso mencionar a posição da American Dietetic Association, que também é assertiva: “For vegans, vitamin B-12 must be obtained from regular use of vitamin B-12-fortified foods, such as fortified soy and rice beverages, some breakfastcereals and meat analogs, or RedStar Vegetarian Support Formula nutritional yeast; otherwise a daily vitamin B-12 supplement is needed.” (Isto é, em tradução nossa: Quanto aos veganos, a vitamina B-12 precisa ser obtida através do consumo regular de alimentos enriquecidos com B-12, tal como bebidas fortificadas a base de soja e arroz, alguns cereais matinais e análogos de carne, ou a levedura nutricional  RedStar Vegetarian Support Formula; ao contrário um suplemento diário de vitamina B-12 é necessário.”)

Diante do fato de que não é possível ser um vegetariano estrito feliz e saudável sem suplementar esta vitamina, normalmente através de injeções ou pílulas, aparece o cidadão creófilo questionando se é adequado ou não a dieta vegetariana, usando como argumento norteador a sua suposta artificialidade. Diz o humano creófilo que sua dieta é natural e a vegana artificial. Obviamente, esse argumento está assentado numa visão equivocada e na falsidade dos fatos.

Segundo o nosso profissional de escolha, o Dr. Eric, na mesma obra: “Até o presente momento, não foi encontrada nenhuma dieta que não necessite de suplementação em pelo menos alguma fase da vida para torná-la mais segura. Crianças onívoras recebem vitamina K ao nascerem, É comum aos pediatras suplementarem com ferro, vitamina A e D as dietas das crianças onívoras. Muitos obstetras recomendam o uso de ácido fólico, ferro, multivitamínicos e minerais durante toda a gestação. A farinha de trigo é enriquecida com ferro e ácido fólico, assim como o sal recebe iodo.” [5] (grifos nossos) Diante de palavras tão sábias, é possível afirmar que o compatriota urbano que assim questionar a “naturalidade” da dieta vegana, não terá o que se chama de “moral”, isto é, não poderá senão usar duas medidas para duas coisas de igual natureza, no caso dietas. Será injusto, em seu próprio proveito, e em prejuízo dos animais não-humanos; sem mencionar o fato de que se constituiria num capricho diante das terríveis consequências para os animais não-humanos.

Porém, há quem, dentro do próprio movimento animalista, siga a isca do naturalismo creófilo, pleiteando que a dieta vegetariana seja não só autossuficiente, mas também, pasmem, a original e ideal da humanidade. Os colegas, se são dignos de tal palavra, sustentam que a ideia da suplementação tem como matriz as indústrias farmacêuticas que lucram milhões com propagandas falsas e alarmistas quanto a vitamina B-12. Alguns alegam que humanos produzem B-12 no intestino delgado, contradizendo os atuais conhecimentos, que apontam que a mesma é produzida no intestino grosso. Posto isto, ainda restam os que falam que a vitamina em questão não passa de um mito, de uma lenda, de uma mentira da indústria das vitaminas.

É claro que os naturalistas ignoram o destino daqueles que seguiram essa escol, que tanto atraso trouxe a causa abolicionista: a demência, a incapacidade motora, a mania, os síndromes psicóticos, entre outras tantas enfermidades provocadas pela deficiência da vitamina em questão. Não é incomum ex-veganos nessas condições, que seguiram a “onda”, dos que acreditaram que a Mãe Gaia (Natureza) havia posto como dieta outorgada da humanidade o vegetarianismo estrito. Ela, mais que claramente, não foi assim generosa conosco, nem com os animais.

Essas pessoas, que proclamam que veganos não devem suplementar, são, junto com a crença que a creofilia seja a dieta perfeitamente natural do brasileiro urbano, o Calcanhar de Aquiles do Veganismo. Um calcanhar que não tem para que ser, vez que não existe fundamento para uma fobia em relação a suplementação da vitamina B-12, como já alcançou várias mentes apaixonadas, nem mesmo espaço para caprichos irrazoáveis, às custas da vida alheia.

Referências:

[1] SLYWITCH, Eric. Alimentação sem Carne. São Paulo: Alaúde Editorial, 2010. p. 63.

[2] Idem, ibidem. p. 62

[3] Revista dos Vegetarianos. nº 48. São Paulo: Editora Europa, outubro de 2010. p. 55.

[4] http://www.eatright.org/WorkArea/linkit.aspx?LinkIdentifier=id&ItemID=8417 . p. 1269.

[5] SLYWITCH, EricAlimentação sem Carne. São Paulo: Alaúde Editorial, 2010. p. 62 – 63.

“Primeiro a Humanidade!”

12 de fevereiro de 2011

Um argumento recorrente, que já foi diversas vezes refutado (Peter Singer e Tom Regan trataram de forma extensa em suas respectivas obras), porém que continua a ser insistentimente posto, é não existe validade em promover Direitos Animais enquanto houver problemas humanos. Entende quem promove esse argumento que primeiro tem-se que resolver o próprio problema para que se preocupe com o do outro.

Não posso deixar de entender que essa ideia carece de sentido e que é absurda.

A falta de sentido está no próprio entendimento de que se tem que resolver os próprios problema para não causar problemas alheios (o que basicamente o que os abolicionistas animais querem é isso: que os humanos parem de causar problemas para os animais não-humanos).

Agora, para mostrar o quão absurda é essa ideia, convido o leitor a fazer um exercício mental, abstraindo o paradigma ético antropocêntrico vigente.

Inicialmente gostaria de deixar claro três termos que usarei nos enunciados do exercício mental proposto: 1. O termo “benéfico”, em aspas, corresponde a qualquer coisa que agrade o sujeito moral do enunciado, até mesmo as mais mesquinhas e frívolas trivialidades; 2. Bem-estar corresponde ao estado de satisfação máximo com a vida, não apenas se tratando do mínimo para a vivência; 3. Obliteração e ruína corresponde a, no primeiro caso, extinção total do paciente moral e, no segundo caso, a lesão que tenha repercussões irreparáveis e terríveis para o paciente moral.

Começamos trazendo este argumento para o círculo pessoal, isto é, colocando no topo das considerações morais o dito “eu”. Primeiro eu. O enunciado que teremos será: Não se deixará de fazer nada que, apesar de ser “benéfico” ao meu próprio bem-estar, leve a obliteração e a ruína de ser alheio, isto pois a prioridade em alcançar o bem-estar sou eu. Acho que ninguém, honestamente, até sendo o produto mais egoísta de nossa sociedade, crê que o enunciado seja válido.

Alargando um pouco, tratando o círculo afetivo seguinte, podemos tratar da “família”, trazendo o argumento para o círculo de pessoas com ligações sanguíneas com o “eu”. Primeiro minha família. Não se deixará de fazer nada que, apesar de ser “benéfico” ao bem-estar da família, leve a obliteração e a ruína de ser alheio, isto pois a prioridade em alcançar o bem-estar é de minha família. Os cidadãos de bem podem achar isso válido, porém, salvo em se tratando de grave ameaça contra ente familiar, acho difícil alguém achar nobre obliterar ou arruinar outro em nome do benefício do bem-estar da família (ex.: cometer latrocínio só para aumentar o patrimônio familiar.)

Pois bem, posso falar do bairrismo, provincialismo, classismo, além de uma “ética das amizades”, onde a prioridade é dos amigos, mas creio que seja mais interessante tratar do nacionalismo e do etnocentrismo, nesse contexto. Tratando da nação, o argumento ficaria mais ou menos assim: Não se deixará de fazer nada que, apesar de ser “benéfico” ao bem-estar da nação, leve a obliteração e a ruína de povos estrangeiros, isto pois a prioridade em alcançar o bem-estar é da nação. Engraçado que esse pensamento é o norteador, ao contrário dos outros exercícios que tratei, do imperialismo. Quando uma nação invade outra, apenas com o fim de escravizar seu povo, usar suas economias, em benefício próprio, ela está praticando o enunciado em itálico.

O etnocentrismo dá quase no mesmo, mas trata-se de etnias em vez de nações. O enunciado correspondente pode ser encontrado em discursos racistas, que utilizam de uma retórica da “necessidade” de expansão às custas da obliteração e ruína de etnias alheias. Creio que o cidadão racista (o mais próximo do etnocentrista que podemos encontrar no Brasil) compreenderá que não é de qualquer forma absurda oblitera e arruinar os outros em nome de sua etnia, mas como a expressão do racismo entre nós já chegou a ser criminalizada, acho que socialmente esse posicionamento seja indefensável.

Agora  vamos sair o exercício mental e ir ao enunciado que corresponde ao pensamento que interessa ao tema central deste blogue: Não se deixará de fazer nada que, apesar de ser “benéfico” ao bem-estar da humanidade, leve a obliteração e a ruína de povos estrangeiros, isto pois a prioridade em alcançar o bem-estar é da humanidade. As consequências deste pensamento sem pé, nem cabeça, são evidentes, e se resumem à obliteração e ruína de 55 bilhões de animais terrestre e aves, sem contar com os marinhos.

Concluindo, não existe nenhum cabimento submeter o não-causar-dano aos outros a maximização do próprio bem-estar. É flagrantemente imoral, e sua variante especista tem que ser superada como foi nas outras esferas de exclusão moral que lhe são mais exclusivas.

Do Alfascismo

8 de dezembro de 2010

Depois de muitas promessas, aqui está o artigo que discorro sobre o Alfascismo, uma tendência que tanto tem atrapalhado o progresso do movimento pelos Direitos Animais no Brasil e no mundo.

CC-BY-NC-SA Brocco Lee

1. Da origem do termo.

A palavra “Alfascista” surgiu no artigo E as plantas? de Bruno Müller, nesses termos: “Os pretensos defensores das plantas – que eu jocosamente chamo de “alfascistas” (conjunção de “alface” com “fascista”) – na verdade guardam parentesco com os relativistas e os realistas políticos.” Assim, originalmente alfascista é aquele que falsamente defende as plantas, em falsa analogia com os veganos (que defendem os direitos animais), de forma de revelar o absurdo prático de uma ética biocêntrica.

O alfascismo, enquanto sistema de ideias, tal como “fascismo” termina em ismo. Também vale notificar que é comum grifar-se alfacismo, sem o s, devido a maior aproximação com a palavra “alface” que é marca registrada dos alfascistas.

2. Do sentido que atualmente tem tido.

Eu, particularmente, tenho usando o termo alfascismo para todo tipo de militância creófila que seja desonesta, apelativa ou simplesmente ataca espantalho. Tenho verificado que essa significação tem sido usada por outros veganos, tanto em redes sociais quanto na blogsfera. Mas como o termo é novo, tendo apenas dois anos, é bem possível que mude um pouco de sentido, expandindo-se para alcançar outros tipos de militância antivegana que vemos por aí, e que virá a surgir.

3. Das modalidades.

Os argumentos alfascistas são bem variados, porém antigos conhecidos nossos. Minha exposição se dará dentro de uma divisão didática quanto ao objeto dos ataques e a natureza do argumento em questão.

3.1 Quanto ao objeto.

Os alfascistas aparentemente evitam atacar o aspecto nutricional do veganismo, ocorrendo raramente algumas investidas. Quando ocorre, normalmente procura-se descreditar o China Study e ignorar o relatório da ADA (quando não se ater em falsos erros, tal como “vegetarianos consomem pouco colesterol” que é correto, pois a ADA inclui os ovo-lacto na categoria “vegetarianos”).

O alvo favorito deles é a suposta incoerência que existe por parte dos veganos, ao defender os animais e consumir plantas. Entendem eles que somos biocêntricos (isto é, valoramos a vida simplesmente), e que portanto defendemos a vida no sentido mais amplo possível, incluindo logicamente os vegetais. Obviamente, qualquer um que tenha lido algo de Peter Singer, Tom Regan ou Gary Francione, sabe muito bem que isso não procede. Há sim veganos biocêntricos, e estes sim podem ser alvos das críticas alfascistas. Para que eles façam tal ataque ou eles realmente não entendem o que é ser senciente ou ser sujeito-de-uma-vida (para o reganianos) ou simplesmente atacam um espantalho, isto é, atacam como se biocentrismo fosse.

Outra questão muito levantada, ainda nesse aspecto da coerência, é a inviabilidade do veganismo verdadeiro, coisa que eu já argumentei neste blogue. É mais que óbvio que eles desconhecem diferença moral entre acidente e incidente, ou, em má-fé, fingem ignorância.

De outro lado, eles também têm atacado através do princípio do menor dano possível. O maior militante nessa área é o famoso Dr. Salada, que utilizando de argumentos já aniquilados no exterior, adaptou o discurso em prol do gado verde. Segundo o mestre, veganos matam mais do que um creófilo que se alimenta de gado verde. Basta ir no orkut que se encontrará os argumentos batidos dele. Mas que fique sabendo que se trata apenas de uma reedição do debate de Steven Davis, mas abrasileirado, que já foi superado por Gaverick Matheny e Andy Lamey.

O Saladismo acaba por ser um tipo de alfascismo não muito pelo seu conteúdo, mas sim pela forma que o Dr. realiza seu trabalho missionário. Ignora-se argumentos, utiliza uns pela metade, às vezes recorre ao espantalho.

3.2 Quanto a natureza do argumento.

Os argumentos alfascistas são comumente encontrados em cinco sabores: o argumento teológico, natural, antropocêntrico-emotivo, ecologista,  imediatista e polemista.

O argumento teológico é relativamente raro e já foi previsto por Tom Regan, que rebateu em Jaulas Vazias (ed. Lugano) o argumento dos animais desalmados e do domínio divino sobre os animais por parte dos humanos. Sinteticamente, quanto ao argumentos dos animais despossuídos de almas, Regan afirma: “A objeção ‘os animais não têm almas’, ao invés de minar as metas abolicionistas que todos os defensores dos direitos animais compartilham, tem implicações que na verdade colaboram com a realização dessas metas. O melhor modo de garantir que os animais tenham uma vida tão boa e longa quanto é da sua natureza ter é agir de forma a respeitar seus direitos.” (p. 84) Afirma ele, antes, que como os animais não possuem vida pós-morte. é dever nosso garantir-lhes uma boa vida aqui e agora. Já o argumento do domínio divino, assim é contestada: “Ser contemplado por Deus com o domínio sobre tudo não significa receber uma carta branca para atender às nossas necessidades ou saciar nossos desejos. Pelo contrário, significa ser incumbido da imensa responsabilidade de ser o o representante do criador na criação; (…)” (p. 84) E o criador, em questão tem amor e zelo com a criação, logo nós deveríamos agir em conformidade, zelando pelos Direitos Animais.

Consoante a isso, Rosen é categórico ao explica, sobre a mesma passagem bíblica que fomenta a ideia de domínio, que “(…) the original Hebrew for the word “dominion” is yirdu, and it connotes a sort of stewardship or guardianship. In other words, we are given the command to care for our more humbly endowed brothers and sisters – the animals – not to eat them.” (BERRY, Rynn. Food for the Gods. p. 111) Ou seja: “(…) no Hebraico a palavra que corresponde “domínio” é yirdu, e ela tem uma conotação de guarda e gestão. Em outras palavras, nos foi dado o comando de cuidar de nossos mais humildemente dotados irmãos e irmãs – os animais – não os comer.” (tradução livre)

Um argumento que me deixa fora do sério, é, sem dúvidas aquele que diz que é natural (e, portanto, certo) a creofilia. Pode vir em várias formas, tal como: 1. Nós podemos comer carne, logo temos o direito de matar os outros; 2. Há animais que matam outros para comer, logo temos o direito de fazer o mesmo; 3. Eles não respeitam nossos direitos, logo podemos desrespeitar os deles. Esses argumentos podem variar quanto a apresentação, podendo ser encontrado em algumas dessas formas: o 1 pode se apresentar como “somos o topo da cadeia alimentar”, “nós temos dentes caninos”; o 2 pode ser encontrado como “animal X mata outros animais para comer”; o 3, por fim, pode ser encontrado como “se um animal me lesar tenho que ficar inerte? Não.”, “se eles tivessem a mesma oportunidade, fariam a mesma coisa”. A conclusão sempre é a mesma: isso ou aquilo nos autoriza a fazer o que fazemos com os animais, pois é natural (e supostamente lógico).

Em 1 há o erro de confundir possibilidade (campo do ser) com moral (campo do dever-ser). Eu poderia muito bem difamar meu colega Robson Fernando aqui, logo eu farei isso? Não. Não há lógica nisso, tal como não faz lógica o fato de eu poder comer carne me autorizar a matar animais. Já no 2 a coisa é igualmente absurda, pois equivale a dizer “o que terceiro faz com outro terceiro me autoriza a fazer o mesmo com um outro terceiro ou aquele mesmo terceiro”. Na realidade, o que terceiro faz não tem nenhuma ligação com seus atos, exceto quando é para socorrer o outro terceiro que foi ou está sendo lesado. Com efeito, ninguém que usa esse argumento fala nesse sentido, de matar individualmente animais que ameaçaram a matar outro animal, para comer. A coisa é feita em grupo, agregando inocentes, ou seja, animais que estão fora do ato (para começar discussão, pouquíssimos animais carnívoros são consumidos pelos creófilos). Por fim, o 3, que já foi apontado por Regan, peca no nexo de atacar o espantalho (pois a autodefesa raramente é questionada por defensores dos direitos animais), por agir em antecipação (vou matar para comer o animal, pois ele talvez venha a me lesar, e vou fazer eles procriarem e… e… e… vou mantê-los, e tudo mais), por generalizar em um grupo absurdo que vai atingir, obviamente, quem não tem nada haver com a história.

Por fim, ainda há outro argumento que apela a natureza que deixei de fora, que é uma espécie de primitivismo anacrônico. Isto é, eles se portam como se estivessem na era das cavernas quanto aos animais, porém andam de carro e mascam chicletes. Normalmente tal argumento vem junto com a exaltação da caça primitiva, porém esquece que deixamos de ser nômades, praticamos a agricultura e tornamos, para todos os efeitos, a criação de animais para consumo virtualmente obsoleto. O consumo só não é obsoleto na prática por conta da conveniência dos próprios creófilos.

O argumento antropocêntrico-emotivo é muitíssimo comum. Está, normalmente, baseado num apelo a uma emoção de fundo especista. Isto é, normalmente assume que humanos sejam prioritários e utiliza de chantagem emocional para ir contra o veganismo (como se ser vegano implicasse em ser antropofóbico). Peter Singer já dizia, em Animal Liberation (ed. Harper Perennial) que “Among the factors that make it difficult to arouse public concern about animals perhaps the hardest o overcome is the assumption that “human beings come first” and that any problem about animals cannot be comparable, as a serious moral or political issue, to problems about humans.” (p. 219) ou seja, “Dentre os fatores que dificulta o atiçar a consideração do público em relação aos animais, talvez seja a mais difícil de superar, é a ideia que “humanos são prioridade” e que qualquer problema sobre animais é incomparável, enquanto problema moral sério ou questão política, aos problemas que envolvem humanos.” (tradução livre). Ora, o alfascista simplesmente usa essa crença especista contra o vegano desavisado, e provavelmente especista em seu interior. A culpa que o alfascista quer atingir encontra guarida nos resquícios do especismo. Se todos os animais, guardado suas diferenças, são iguais, não há erro na conduta vegana. Ainda digo mais: raramente quem usa esse argumento faz algo pelos outros seres humanos.

Por outro lado, há o argumento ecologista que praticamente se resume ao saladismo. Como já apresentei as refutações, através de links exteriores, aos argumentos de Davis (que são, mutatis mutandis, os mesmos que os do Dr. Salada), me furto de tratar novamente essa questão.

Já o argumento imediatista é, sem sombra de dúvidas, fantasioso. A premissa básica é  que a abolição animal se dará agora e imediatamente. Logo eles levantam a questão sobre o destino dos 54 bilhões de animais que eles deram causa para existirem. Ora, a abolição é um processo. Todos que no ENDA exclamou “Queremos a libertação animal e queremos agora!” estavam todos sendo alegóricos. Até que, e se, a abolição animal seja feita o número de animais será muitíssimo menor, pois não se dará da noite para o dia. O problema apocalíptico anunciado pelos imediatistas não se configurará, por simples questão de ordem prática.

O argumento polemista, que não é de fato argumento, mas o chamarei assim por mera questão de classificação, é também comum. Normalmente aparece inicialmente em segundo plano de alguns de cima, em um tom agressivo porém aberto a discussão. Conquistada a plateia, o polemismo vai para a linha de frente fazer o máximo de estrago. Bruno Müller, mais uma vez, fez um estupendo e completo artigo sobre essa tática retórica. Vale a pena, contudo, fazer uma síntese citando o que vejo como o mais importante na compreensão do que é o argumento polemista: “O “escritor”, inebriado pela fama, começa amaldiçoando a educação no país – seus leitores formam uma massa de analfabetos funcionais incapazes de captar seu humor “inteligente”. Se a maioria discorda de você, está óbvio que é porque não sabe ler nem interpretar. Polemistas em geral sempre respondem aos seus críticos com uma condescendente acusação de estupidez e semianalfabetismo que, claro, lhes exime completamente da necessidade de responder às tais críticas com argumentos plausíveis. E se os fatos desmentem o polemista – pior para os fatos. Ele simplesmente os ignora.” Também Bruno é taxativo em afirmar: “Seguem-se mais algumas piadas sobre o destino terrível das alfaces (…) Novos xingamentos, mais maldições (…). Os carnívoros, do alto de sua douta sabedoria, proclamam-se os únicos aprovados (com louvor, certamente) nas aulas de interpretação (mesmo que sua redação seja sofrível). E, claro, condenam a agressividade dos vegetarianos.” Por fim, diz Bruno que “(…) a crítica do polemista é sempre favorável aos poderosos. Sua independência jamais ataca os endinheirados. Sua inteligência enaltece os exploradores. Sua coragem nunca confronta os opressores.”

4. Considerações Finais

O Alfascimo é uma tendência que vejo como natural, uma reação dos que tem o que perder com a expansão do veganismo e daqueles que veem os Direitos Animais como uma ameaça a seus paradigmas éticos há muito tempo consolidados. Porém, como pode-se demonstrar, essa tendência é minada por uma falta de criatividade com seus argumentos, ou pseudoargumentos, já refutados inúmeras vezes e por muita gente.

O quê veganismo não é

2 de novembro de 2010

Dedico este textos aos veganos que acabaram de conhecer o veganismo e, por vários motivos, acabam por confundir algumas coisas. Não tenho pretensões de esgotar o assunto, uma vez que a quantidade de equívocos que há quanto ao veganismo são tão vastos quanto a criatividade humana. Porém, o dano que esses equívocos podem causar não são desprezíveis. Alguns podem mesmo frustrar o recém-vegano, que desiludido volta ao especismo.

Para melhor exposição do meu pensamento, irei seguir o familiar caminho da enumeração.

1. Veganismo não é heroísmo.

Um pensamento perigoso que é achado com frequência na cabeça daqueles que acabaram de se tornar veganos é o de que ser vegano é ser herói. Talvez as dificuldades de ordem ideológica, social e econômica na prática do abolicionismo animal fomentam essa ideia equivocada, de que ser vegano é lutar contra o mal, salvar os animais da morte certa e ajudar o mundo ser um lugar melhor para todos que nele vivem.

Ser vegano é apenas, per si, estar andando nos ditames da ética abolicionista (ou libertária) animal. Nada mais. Ser ativista, cuidar de animais domésticos, afundar navios baleeiros no caís… isto pode ser heroísmo (não digo taxativamente que o seja, pois não acredito em heróis). Porém fazer apenas o que é possível não é ser heróico. É apenas fazer o que é certo ou, na maioria dos casos, não fazer o que é errado.

2. Veganismo não é puritanismo.

Ora uma autocrítica, ora uma crítica exterior, a ideia do vegano enquanto ser puro deve ser desmistificada pois, além de falsa, é impossível. Parte da ideia do vegano enquanto ser puro está baseada na ideia do verdadeiro vegano, isto é, que o vegano de verdade não possui nenhum vínculo de ajuda junto a qualquer forma de especismo. Sabemos que isso é impossível devido ao contexto histórico em que vivemos, tal como eu expus em O verdadeiro, possível e falso veganismo.

O resultado prático dessa crença é o fácil abalo do recém-vegano, que aspira ser uma santidade perante os animais, quando revelado que até mesmo sendo vegano está sendo um explorador dos animais. O alfacismo, em suas mais variadas formas, nutre desse equívoco e dessa aspiração impossível, procurando frustrar os que infelizmente se sentem moralmente irrepreensíveis.

O que se tem que perseguir não é a pureza ética, mas sim a realização do que é possível para erradicar o problema: o especismo.

3. Veganismo não é panaceia.

Quando alguém adquire a consciência dos efeitos do especismo no mundo (a saber: a matança de 56 bilhões ao ano, desmatamento, obesidade, atraso do progresso científico, coisificação dos animais, caça, pesca, apenas para listar aqueles que me vieram a cabeça no momento) é relativamente fácil começar a ter a ideia de que o veganismo vai salvar o mundo, a humanidade e os animais. Passa-se a vender a ideia de que num mundo vegano não haveria problemas, pois todos os problemas têm como fundamento o especismo.

Ledo engano, um erro de visualização.

Talvez o especismo atual seja mero sintoma do problema, sendo que o veganismo apenas ataque um elemento de um sistema maior (ora o capitalismo, para os marxistas, ora o Estado, para os anarquistas, ora o consumismo, para os ecologistas). Ou mesmo esse veganismo vendido como solução dos problemas seja um futuro problema, por ser limitado, incompleto para uma transformação social que tenha pretensão de resolver todos os problemas do mundo… como se isso fosse possível.

4. Veganismo não é separatismo.

Um lugar sem cheiro de cadáver alheio carbonizado, com rios de melado, onde haja frutos por tudo que é lado, e não se tenha que perguntar se vai manteiga no bolo, se o shampoo não foi testado em animais, ou mesmo ter que ler todos os rótulos que vierem pela frente (me lembrou o ENDA 2010 essa descrição). Eis o paraíso vegano.

Se você é vegano, há 99,99% de chances que você já tenha sonhado num lugar assim ou pelo menos pensado na possibilidade. É também provável que você esteja engajado no planejamento da construção de uma comunidade vegana, a exemplo do projeto Ecovila Vegana. Se você faz parte do 00,01%, é mera questão de tempo para que você fique querendo ir prum lugar onde não tenha que explicar toda hora que animais possuem direitos básicos, e por isso que você não vai dar uma mordida na coxinha.

Não vejo nada de ruim nesse pensamento, eu mesmo faço parte dos 99,99%. Porém, existe outra face que é sim prejudicial para a causa.

Ao nutrir-se esse ideário se torna tentador começar a pensar que o restante da sociedade não passa de um bando de criminosos especistas, sem vergonhas, que não devemos nos relacionar. Ideia esta que se confunde, inclusive, com o verdadeiro veganismo ou o puritanismo do item 2).

Mas é isso que queremos? O objetivo não é tornar os creófilos veganos? Como fazer isso se isolando? Creio ser impossível. Por isso que é melhor para a causa a convivência com os creófilos, para que eles saibam que além de ser possível não ser creófago, existem quem respeita os direitos animais.

No mais, antes que alguém objete, uma ecovila possui sim sua serventia para a causa: a demonstração da viabilidade de uma comunidade vegana. De fato, serve como exemplo.

5. Veganismo não é uma tribo urbana.

Talvez a ideia mais equivocada de todas. Inicialmente gostaria de esclarecer que entendimento de tribo urbana que irei adotar neste item é aquele forjado por Maffesoli, através da síntese de Frehse, a saber: “Seriam essencialmente “micro-grupos” que, forjados em meio à massificação das relações sociais baseadas no individualismo e marcados pela “unissexualização” da aparência física, dos usos do corpo e do vestuário, acabariam, mediante sua sociabilidade, por contestar o próprio individualismo vigente no mundo contemporâneo.” Naturalmente, nem mesmo a Comunidade Vegana possui alguma identidade com tal definição. Nenhuma.

Para ser um pouco mais flexível, trarei o pensamento de Magnani, muito mais simples e abrangente “a pequenos grupos delimitados, com regras particulares.” De fato, nós possuímos regras particulares, apesar de não exclusivas, (“não comerás o que de animal foi feito”…)  e somos numericamente poucos (já ouvi falar que somos 100,000 no mundo). Agora, a comunidade vegana não é delimitada, não estando presa a uma classe social, nem a grupo étnico, religioso, cultural, nacional, etc… se configura num grupo ético, talvez em um caso sui generis.

6. Veganismo não é meramente uma questão de consumo.

Alguns não veganos, e ditos veganos recentes, confundem um conceito pragmático de vegano (aquele vegetariano que se abstém de produtos testados, vestuário feito de animais, etc) com a própria essência do veganismo, o resumindo a aquele a esse.

É equivocado, uma vez que veganismo pressupõe toda uma carga subjetiva-ideológica que envolve um claro compromisso com alguma das modalidades da ética animal, sobretudo em sua vertente abolicionista (creio que seja possível ser bem-estarista e vegano). Assim, o veganismo não se resume ao mero consumo consciente que é atualmente sua principal definição e efetivação. O consumo consciente é meramente a expressão concreta (dentre várias outras) do compromisso ético dum vegano (que é a essência do veganismo).

7. Veganismo não é essencialmente um apêndice de um programa político, religioso ou civilizatório.

Devo frisar o termo “apêndice”, isto pois veganismo pode sim ser parte dum programa político ou mesmo que haja uma religião vegana (Jainismo é um exemplo), ou mesmo que alguém faça uma proposta civilizatória que tenha como base o veganismo. Porém, o veganismo não se confunde como estes, os prescinde.

Veganismo é apenas uma proposta ética que possui sim seus efeitos nas mais variadas esferas de atuação humana, tal como a política e a religião. Mas não há conditio sine qua non, isto é, não há uma condição indispensável para que seja vegano, exceto sê-lo (desculpe a redundância).

Talvez isso implique em que determinadas religiões sejam incompatíveis com o veganismo, sendo, portanto, uma condição não ser membro destas religiões, porém não creio que tal pensamento seja útil, ao subordinar o veganismo ao não-ser-de-n-religiões (por exemplo).

8. Veganismo não é ascetismo.

Há uma tendência natural entre os creófilos em entender que uma vida sem exploração animal significa uma vida sem os prazeres da vida, ou os prazeres da carne (que prefiro dizer “os prazeres da morte alheia”). Hão de estar enganados.  Vegano algum renuncia os prazeres da vida, exceto aqueles que são ascéticos independentemente do veganismo, sobretudo do paladar. Não é a toa que nossa literatura culinária é efervescente e crescente, sempre inovando e procurando trazer novos sabores, numa tentativa hedonista de fazer nossas felizes melhores.

9. Veganismo não é ser politicamente correto.

Quem um dia pensou que ser vegano é ser politicamente correto, provavelmente não conheceu o movimento Grosseria Vegana, de Rafael Jacobsen.

A ideia equivocada de que veganismo é um tipo de modalidade do movimento politicamente correto possui como base provável o fato de usarmos “animais não-humanos” para falar dos bichos, dos animais, das bestas, daqueles que não são humanos. Ledo engano crer que isso seja mero eufemismo para não ofender (os animais?). É mera questão política, de lembrar que somos animais (portanto, cabe dizer que há animais humanos e não-humanos, tal como somos animais não-felinos), e que os direitos animais também possuem serventia aos humanos, vez que são também animais.

10. Veganismo não é ambientalismo.

A crença que todo vegano é ambientalista, que o movimento ambientalista e dos Direitos Animais andam juntos e tudo mais é muitíssima equivocada. Como comprovado por Marcio de Almeida Bueno, “(…) há uma cisão aparentemente irremediável entre o movimento ambientalista e os defensores dos direitos animais.”

O paradigma atual reinante na Teoria dos Direitos Animais no Brasil, e no exterior, é individualista negativista. O que importa são os animais enquanto indivíduos, e o que importa é que você não faça mal a eles. O meio ambiente é mera consequência disso, merecendo, portanto, menor preocupação direta que os animais indivíduos.

Confesso que considero tal paradigma limitador, resultado de uma visão de Direitos Humanos que é essencialmente o mesmo. Temos que o mudar, abrangendo também a visão ecossistêmica… coisa que esse artigo que, pretendia ser sintético, não fará.

Encontro Nacional de Direitos Animais 2010

17 de outubro de 2010

Quem não soube que fique sabendo agora: no último feriadão, do dia 9 ao 12 de outubro, ocorreu a segunda edição do Encontro Nacional de Direitos Animais. Num semestre em que houveram três grandes eventos de Direitos Animais (o Congresso aqui em Salvador, o Congresso Vegetariano de Porto Alegre e o próprio ENDA) não pude deixar de ir ao que me parecia mais interessante. E não vou mentir: valeu a pena ter saído da Bahia para me meter no interior de São Paulo, especificamente Porongaba.

Tentar descrever como foi o ENDA é meio pretensioso por  qualquer um que aspire a tanto, pois as experiências foram muitas (não só as proveitosas palestras, as discussões, debates, trocas de experiência, vivência, etc) e muitas vezes únicas (não posso lembrar de uma oportunidade a não ser esta de estar no que mais se aproxima do ideal pretendido pelo movimento).

Do Acre ao Rio Grande do Norte, do Rio Grande do Sul ao Pará, houveram participantes de todas as regiões do país (apesar da grande presença do pessoal de São Paulo e Paraná, especialmente Ponta Grossa). E mais: alguns palestrantes nem do Brasil eram. De fato foi um encontro bilíngue.

Dificilmente alguém que esteve no Parque Ecológico Visão Futuro naqueles dias saiu de lá intacto. Houve ganho por parte de todos, ou em conhecimento, experiência, crítica ou pelo menos o próprio aumento do rol de contatos de outros ativistas da causa.

Enfim, acredito que o seguinte vídeo (que infelizmente quase não apareço) ilustra um pouco o que foi o ENDA 2010:

Sobre o voto vegano

13 de outubro de 2010

Agência Brasil CC-BY

Um assunto que talvez soa velho, uma vez que já saímos do calor do primeiro turno das eleições gerais, mas que ainda terá serventia nesse segundo turno, e para todas as eleições subsequentes, é a reflexão sobre a relação entre veganismo e o voto. Nisso inclui a relação entre veganismo e ir a urna. Não prometo ser pragmático, pois isso limitaria a abrangência desse texto, pretendendo iniciar a discussão num maior nível de abstração. Inicialmente tratarei sobre a legitimidade do voto, enquanto vegano (e não dos veganos) em nosso país e qualquer outro em que o especismo faça parte das bases do Estado “democrático”.

A defesa dos direitos animais se encontra não só a nível das escolhas pessoais negativas (o não comer carne, não tomar leite, não comprar casacos de pele, couro, e toda as bugigangas maculadas pela exploração animal), mas também nos atos políticos positivos (o próprio ativismo social, perante a sua comunidade, que constitui num fazer político). Não é ser pretensioso afirmar que o voto, que é uma ação política positiva, não possa ser incluído dentro das considerações de um defensor dos direitos animais.

Há de se perguntar então, qual seria o voto moralmente satisfatório para um defensor dos direitos animais? Logicamente, a resposta não poderia ser outra senão o voto em que os direitos animais sejam contemplados. Porém, como tratar disso em um cenário comum: o em que todos os candidatos, todos os partidos, toda a estrutura política-estatal da nação está voltada para a violação institucionalizada dos direitos animais? Votar em qualquer um seria, em tese, legitimar esse cenário infeliz.

É nesse momento em que podem surgir as figuras do menos pior ou mesmo do candidato vegano. O primeiro promete causar menos dano aos direitos animais e o segundo promete fazer ativismo ou no legislativo ou no executivo. Mas observa-se: no caso do primeiro o candidato ainda é um especista, ainda pretende manter o Estado desta forma e não possui nenhum compromisso com o abolicionismo animal, já o segundo, apesar de ter compromisso com o abolicionismo, acha legítimo o Estado especista. Creio que seria mais pragmático optar pelo candidato vegano, seguido pelo menos pior, do que optar por nenhum. Contudo, e a legitimidade de um Estado especista?

O problema da legitimidade do Estado especista é maior do que parece ser, é um problema que envolve a submissão política dos veganos ao especismo, podendo mesmo representar a sua própria desmoralização enquanto entidade política pela simples falta de vontade de representação. A culpa, nesse cenário, de não haver candidatos veganos seria, em tese, dos próprios veganos (apesar de, no caso dos candidatos de cargos majoritários, poder argumentar que há uma patrulha ideológica que impeça que haja representantes veganos… ou mesmo a falta de veganos para criação de um partido abolicionista). Reconhecer a legitimidade do Estado seria, num pensamento extremamente obtuso (em minha opinião), mas corrente, o reconhecimento da legitimidade do especismo. E isso nenhum vegano quer, pois sua própria demanda redundaria na negação dos próprios direitos animais.

Agora, partindo para um nível menos abstrato e mais pragmático: a realidade que o Estado impõe a sociedade, a de sua existência e pretensa monopolização da violência lícita, obriga os veganos a decidirem a votar ou no menos pior ou no candidato vegano. O voto nulo ou em branco corresponderia ao reconhecimento da igual falta de compromisso aos direitos animais, por parte de todos os candidatos, perante a questão animalista. Não posso falar no reconhecimento da falta de legitimidade do Estado pelo simples fato de que a adesão ao sistema eleitoral já corresponde a um reconhecimento de legitimidade do Estado, até se decorrente do mero temor da sanção.

Nas atuais circunstâncias, não vejo variação do nível de compromisso aos direitos animais por parte dos dois candidatos a presidência da República do Brasil. Ambos estão totalmente descompromissados, merecendo ambos não serem eleitos levando em consideração o “critério vegano”.

Porém, hei de argumentar que uma pessoa compromissada com os direitos animais não vai, nem deve, resumir seu voto ao critério vegano. O eleitor, que é vegano, também vai, e deve, eleger outros critérios para escolha de seu candidato. Portanto, não estou defendendo que os veganos votem em branco ou nulo simplesmente pelo fato de que os candidatos a presidência serem dois creófilos especistas (sic). Outros fatores devem ser considerados, para uma escolha mais feliz do candidato. Isso pois não há alguém que seja simplesmente vegano, há uma diversidade de considerações que devem influenciar a decisão da pessoa.

Uma crítica a Tríade Argumentativa Vegetariana

30 de setembro de 2010

Usado praticamente como um mantra, a tríade argumentativa vegetariana (que se aplica integralmente ao veganismo) pode ser sintetizado pela seguinte frase: seja vegetariano (ou vegano) por você, pelo mundo e pelos animais. Dependendo da agenda de que a diga, há uma prioridade de um dos lados a exemplo de: seja vegano por você, pelo mundo e, sobretudo, pelos animais.

Para quem não esteja familiarizado com a tríade, o primeiro componente do mesmo se refere a questão da saúde. Isto é, seja vegetariano para ser mais saudável. O alcance dessa preposição é questionável, uma vez que se limita a quem deseja ser saudável (a exemplo daqueles que priorizam coisas que causam danos a saúde). Já o segundo componente se refere a questão ambiental, isto é, sendo vegetariano há-se uma menor pegada de carbono e menor consumo hídrico (uma vez que a pecuária é a segunda maior responsável pelas emissões de gases estufa e é um dos maiores consumidores dos recursos hídricos). E o terceiro, finalmente, é a questão dos animais (que não merece mais falas, pois é o assunto principal deste blogue).

Confesso, inicialmente que essa tríade abrange a maioria das questões que impulsionam as pessoas ao vegetarianismo. Três questões urgentes. Porém, dependendo de quem faça leitura destes, pode tratar de três valores inerentemente contraditórios. Eu não entendo que sejam, mas compreendo que alguém possa entender desta forma.

Começo pela questão da saúde, que pode ser entendida de forma egoísta, a questão ambiental de forma antropocêntrica e a questão animal estritamente individualista negativa.

Afinal, se for entendido que a saúde é o primeiro valor e sua maximização (traduzida no aumento da longevidade ou na facilidade da manutenção do padrão de beleza), não há nenhum vínculo entre este valor e vegetarianismo. E mais: o respeito pelos animais poderá ser impedimento para a manutenção da saúde desejada, uma vez que entraria, em tese, em contradição com a ideia de não experimentação. No mais, vendo de um ponto estritamente egoísta, de pouco importa que a saúde do sujeito seja condicionada a destruição do meio-ambiente. Que o meio-ambiente se exploda, preferencialmente de forma literal, caso seja o sacrifício para o bem da saúde do sujeito que assim pensa.

Já a questão ambiental, quando tratada no sentido de “conservação” para as “futuras gerações” e “nossos filhos”, além de não ter nenhuma ligação com os animais ou a saúde, é a mais corrente concepção ético-ambietal em voga, que possui um conteúdo pesadamente antropocêntrico. A caça a animais “estranhos” desrespeita os animais enquanto indivíduos, sendo revestida de uma argumentação ecológica por trás de seus propagadores. Já o conservacionismo não enxerga os animais enquanto indivíduos dotados de uma sensibilidade, mas sim apenas enquanto números que se somam na contabilidade da biodiversidade. Biodiversidade essa que, diante de um contexto ecocapitalista, seria mero instrumento econômico para proveito humano.

Por outro lado, não posso deixar de relevar as limitações impostas no argumento puramente animalista. Não os consumir, sem uma real reavaliação nutricional poderá ter consequências desastrosas (a exemplo do sujeito que vive de batata-frita, hambúrguer, alface, tomate e pão, que não terá mais sua principal fonte de proteínas, caso não aumente a porção dos outros componentes de sua “dieta”). Consequências essas que podem ser mesmo desastrosas para a causa (recordando do famoso caso dos país veganos infanticidas). Também vale dizer que a visão estritamente individualista negativa, que a maioria dos veganos urbanos têm adossado, levanta a questão: é vegano depredar o meio ambiente dos outros (humanos e não humanos)? É vegano deixar um animal ser abusado e mau-tratado? É vegano não ser ativista? São respostas que a visão individualista negativa dos Direitos Animais, de forma um tanto insatisfatória, responde com indiferença.

A tríade, portanto, se completa, porém apenas quando entendida de forma integrada. O isolamento de um de seus argumentos ou a supremacia de um sobre o outro conduz a uma leitura incompleta e infeliz da proposta que entendo como coerente: de um vegetarianismo/veganismo que, respeitando os animais, agride no mínimo possível o meio-ambiente e melhora o máximo possível a saúde de quem a ele adere. Resta questionar-se o que é “agredir no mínimo possível o meio-ambiente”, uma vez que o limite do melhoramento da saúde é o próprio meio-ambiente e as vidas animais, sendo de grande relevância a questão estratégica abordada por Bruno Müller anteriormente.

Carne: uma palavra mascaradora

4 de setembro de 2010

Este artigo será sintético, uma vez que o tema não requer maiores delongas para atingir meu objetivo.

Carne, palavra plurissignificativa que é tão comum em nosso cotidiano, até mesmo dos veganos que delas não se alimentam. Carne significa desde “Tecido muscular, animal ou (sic) humano.” a “Sensualismo, concupiscência.” (Definições extraídas do Dicionário Aurélio). É um signo que possui, salvo raras contextualizadas exceções (como no discurso vegano ou num (neo)platônico), um valor definitivamente positivo. Para o creófilo ou erotomaníaco, é seu alvo de desejo e para a pessoa de família, é seu agrupamento familiar. Mas, no caso do creófilo, acaba por ocultar também a realidade escancarada que o vocábulo representa, realidade esta que possui um valor normalmente oposto ao que a carne apresenta.

Diante do fato de que, para efeitos quase universalizantes, carne implica num tecido muscular animal, de um animal cuja vida foi findada para este fim, não é abuso dizer que carne é o fruto de um assassinato. (Ah, o leitor creófilo deve estar se sentindo ofendido. Não se ofenda, apenas és um dos mandantes do assassinato já consumado.) Carne, de fato, é o tecido muscular dum animal morto. De um cadáver.

A mascaração do termo explica o motivo que pessoas que não ousam degolar os animais que comem fazerem o que fazem, uma vez que carne torna uma ideia comumente negativa (parte de um cadáver) positiva.

O verdadeiro, possível e falso veganismo

26 de agosto de 2010

Provavelmente uma das mais incômodas questões que envolvem a prática dos direitos animais é o grau de veracidade que as pessoas ditas veganas tem para com a ideologia que professam. Não trata de um policialismo ideológico, como algumas pessoas colocam. Trata-se da manutenção de um mínimo ético na práxis, que envolve terceiros (os animais).

Há quem diga que seja 100% vegano. Há quem diga que ser 100% vegano é impossível. Há quem acuse o outro de ser um vegano de borracha (aquele vegano que, por desleixo, acaba consumindo produtos antieticos), e também há quem duvide da sinceridade alheia. Picuinha a parte, esse é um problema real para quem é vegano em sociedade, sendo até tema de conversa com não-veganos que conhecem o conceito.

Quanto ao primeiro caso, devemos nos perguntar: o que é ser 100% vegano? O que seria ser um vegano pela metade? Ser vegano, atualmente, é adotar um estilo de vida em que não envolva a utilização de animais. Então, não daria para ser meio vegano. “Explorar os animais pela metade”, ou metade do que um creófilo faria… não, isso não é veganismo. Mas, realmente é possível viver sem meter nenhum animal na berlinda, atualmente no Brasil? Creio que seja impossível. Até o mais antissocial dentre os veganos acabará tendo que beneficiar um especista (por exemplo, indo até o supermercado, ou comprando sementes, ou vendendo hortaliças, ou alguma outra transação comercial com alguém que é declaradamente não-vegano). E aí é que o veganismo, nessa definição hermética e ahistórica, morre.

De fato, ser vegano atualmente no Brasil, não é simplesmente ter esse estilo de vida. É aspirá-lo e mover-se para que ocorra, e um desses movimentos é aproximar-se ao máximo desse modelo ético. Com efeito, todo vegano acaba sendo ativista, até o mais calado e “conformado” de todos eles. Ser ativista é uma exigência do contexto.

Então, ser verdadeiramente vegano, no seu sentido mais puro e abstrato, é tão possível quanto respeitar os Direitos Humanos no capitalismo (ou no socialismo): não é possível, por conta do contexto. Tem-se de aspirar atingir isso, lutar por isso e se aproximar ao máximo do modelo pretendido. Esse é o veganismo possível.

Mas, então o que seria o falso veganismo? Seria o vegano de borracha, aquele desleixado que não procura se informar sobre as coisas, vá de uma boa-fé questionável e acaba contribuindo para o especismo? Ou seria aquele protovegetariano que se diz vegano? Eu realmente não acho que seja nenhum dos dois. O vegano de borracha é vegano, só é desleixado… e o protovegetariano é um mentiroso. O falso veganismo é algo mais complicado que isso, e mais interno. Também justifica alguns tipos de ex-veganos que surgem por aí.

Considero falso vegano aquele vegetariano estrito que não compra produtos testados, nem couro, lã, seda, mel, etc. Isto é, uma pessoa que na prática é vegana (para nossos padrões éticos atuais). Mas pessoa esta que é especista. Um vegano especista é paradoxal, mas é possível em planos diferentes: ser vegano na prática e especista na mentalidade. Isso que considero um falso vegano, tal como o creófilo antiespecista é paradoxal e um falso creófilo… além de outras coisas mais.

Isso pode soar meio inverossímil, porém ao observar o discurso de alguns supostos veganos, dá para encher um balde de especismo. E não digo especismo nas formas mais bobas dele, tal como aquelas velhas e surradas expressões como pé de porco. Estou me referindo a uma visão antropocêntrica de mundo, mesmo.

Liberdade de expressão à moda baiana

9 de agosto de 2010

Não estranhe o conteúdo deste post. Liberdade de expressão integra Direitos Humanos, que é uma subdivisão especializada de Direitos Animais. Afinal, Homo sapiens sapiens é um animal.

Hoje presenciei uma imagem um tanto corriqueira, mas assim mesmo não menos chocante do que de fato é. Gostaria de relatar o caso para você, leitor.

Estive num prédio do judiciário baiano, e ao sair do mesmo, vi um senhor, provavelmente da classe E, protestando em voz alta. Ele falava algumas verdades inconvenientes sobre a classe dos advogados, juízes, policias e outros operadores do Direito em geral. Mas, apenas gritava lá na praça em que esse prédio fica em frente. Passei por ele, e fui para o ponto de ônibus pois tinha que ir a outro prédio no mesmo dia.

Não demorou muito até que um agente do estado da Bahia (não irei determinar a qual poder ou órgão do mesmo, pois pouco importa) começou a ir em direção ao protestante. O protestante recuou, mas não se calou. E o agente continuou a segui-lo. Logo, ambos estavam próximos a um carrinho de pipoca, no ponto, quando o protestante recuou virando-se de costas para o agente, que, na oportunidade, o agrediu. Continuou agredindo-lhe até que o protestante correu para o outro lado da rua, deixando cair seus óculos e seu boné. Diante dos dois, o agente destruiu o primeiro e colocou o segundo debaixo de um ônibus, que em seguida passou por cima dele.

O agente do estado da Bahia retornou ao prédio, e o protestante foi tentar recuperar seu boné, logo após o incidente.

Não entrarei no mérito de se o protestante era ou não um vadio, um morto civil (que legalmente não existe, mas de fato existe), um estrangeiro, um criminoso (se fosse, deveria ter sido apenas preso e não agredido). Seu direito de expressar-se foi violado na frente do estado da Bahia, que o agrediu no ato. Será que podemos falar de liberdade de expressão no estado da Bahia? Tenho minhas dúvidas.

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