Sobre o voto vegano
quarta-feira, 13 de outubro de 2010Um assunto que talvez soa velho, uma vez que já saímos do calor do primeiro turno das eleições gerais, mas que ainda terá serventia nesse segundo turno, e para todas as eleições subsequentes, é a reflexão sobre a relação entre veganismo e o voto. Nisso inclui a relação entre veganismo e ir a urna. Não prometo ser pragmático, pois isso limitaria a abrangência desse texto, pretendendo iniciar a discussão num maior nível de abstração. Inicialmente tratarei sobre a legitimidade do voto, enquanto vegano (e não dos veganos) em nosso país e qualquer outro em que o especismo faça parte das bases do Estado “democrático”.
A defesa dos direitos animais se encontra não só a nível das escolhas pessoais negativas (o não comer carne, não tomar leite, não comprar casacos de pele, couro, e toda as bugigangas maculadas pela exploração animal), mas também nos atos políticos positivos (o próprio ativismo social, perante a sua comunidade, que constitui num fazer político). Não é ser pretensioso afirmar que o voto, que é uma ação política positiva, não possa ser incluído dentro das considerações de um defensor dos direitos animais.
Há de se perguntar então, qual seria o voto moralmente satisfatório para um defensor dos direitos animais? Logicamente, a resposta não poderia ser outra senão o voto em que os direitos animais sejam contemplados. Porém, como tratar disso em um cenário comum: o em que todos os candidatos, todos os partidos, toda a estrutura política-estatal da nação está voltada para a violação institucionalizada dos direitos animais? Votar em qualquer um seria, em tese, legitimar esse cenário infeliz.
É nesse momento em que podem surgir as figuras do menos pior ou mesmo do candidato vegano. O primeiro promete causar menos dano aos direitos animais e o segundo promete fazer ativismo ou no legislativo ou no executivo. Mas observa-se: no caso do primeiro o candidato ainda é um especista, ainda pretende manter o Estado desta forma e não possui nenhum compromisso com o abolicionismo animal, já o segundo, apesar de ter compromisso com o abolicionismo, acha legítimo o Estado especista. Creio que seria mais pragmático optar pelo candidato vegano, seguido pelo menos pior, do que optar por nenhum. Contudo, e a legitimidade de um Estado especista?
O problema da legitimidade do Estado especista é maior do que parece ser, é um problema que envolve a submissão política dos veganos ao especismo, podendo mesmo representar a sua própria desmoralização enquanto entidade política pela simples falta de vontade de representação. A culpa, nesse cenário, de não haver candidatos veganos seria, em tese, dos próprios veganos (apesar de, no caso dos candidatos de cargos majoritários, poder argumentar que há uma patrulha ideológica que impeça que haja representantes veganos… ou mesmo a falta de veganos para criação de um partido abolicionista). Reconhecer a legitimidade do Estado seria, num pensamento extremamente obtuso (em minha opinião), mas corrente, o reconhecimento da legitimidade do especismo. E isso nenhum vegano quer, pois sua própria demanda redundaria na negação dos próprios direitos animais.
Agora, partindo para um nível menos abstrato e mais pragmático: a realidade que o Estado impõe a sociedade, a de sua existência e pretensa monopolização da violência lícita, obriga os veganos a decidirem a votar ou no menos pior ou no candidato vegano. O voto nulo ou em branco corresponderia ao reconhecimento da igual falta de compromisso aos direitos animais, por parte de todos os candidatos, perante a questão animalista. Não posso falar no reconhecimento da falta de legitimidade do Estado pelo simples fato de que a adesão ao sistema eleitoral já corresponde a um reconhecimento de legitimidade do Estado, até se decorrente do mero temor da sanção.
Nas atuais circunstâncias, não vejo variação do nível de compromisso aos direitos animais por parte dos dois candidatos a presidência da República do Brasil. Ambos estão totalmente descompromissados, merecendo ambos não serem eleitos levando em consideração o “critério vegano”.
Porém, hei de argumentar que uma pessoa compromissada com os direitos animais não vai, nem deve, resumir seu voto ao critério vegano. O eleitor, que é vegano, também vai, e deve, eleger outros critérios para escolha de seu candidato. Portanto, não estou defendendo que os veganos votem em branco ou nulo simplesmente pelo fato de que os candidatos a presidência serem dois creófilos especistas (sic). Outros fatores devem ser considerados, para uma escolha mais feliz do candidato. Isso pois não há alguém que seja simplesmente vegano, há uma diversidade de considerações que devem influenciar a decisão da pessoa.


