Opinião Vegana

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O mundo sob uma ótica vegana.

Arquivo da Categoria ‘Ética’

Abolicionismo, Bem-Estarismo e Socorrismos: notas sucintas

segunda-feira, 16 de janeiro de 2012
Quem me conhecia há alguns anos atrás sabe que eu entrei nesse movimento de paraquedas. Lá em 2008, quando comecei minha jornada como vegetariano num mundo creófilo, fiz a coisa mais sensata a se fazer naqueles anos: procurar uma comunidade do orkut de vegetarianismo. O primeiro que achei era “Vegetarianos”, com dezenas de milhares de membros. Na época já existiam as enquetes, e uma das primeiras que me deparei era: “Abolicionista ou Bem-Estarista”. Como neófito no meio, aquilo me era grego… porém com aquela ritmo de vestibulando, que “precisa ter opinião formada de tudo” fiz uma escolha: Bem-Estarista. Afinal, bem estar é algo muito melhor do que abolir, não?
Obviamente, eu fiz a “escolha” de forma equivocada, sem saber o que diabos eu estava escolhendo. Nos comentários da enquete, havia muita gente perguntando, ninguém respondendo. Este texto é dedicado a todos que não tiveram resposta em 2008, com quatro anos de atraso. Por ser um post estritamente conceitual, tentarei ser o mais breve possível.
Obs.: não faço elucidação a Peter Singer por não concluir, pessoalmente, que ele pertença a alguma determinada corrente.

Abolicionismo

O Abolicionismo Animal pode ser definido como uma corrente de pensamento ético que possui como meta a abolição de uso dos animais. É, sem dúvidas, a corrente de pensamento definidora do veganismo, que prescreve o veganismo como meio, pessoalmente possível de ser adotado a nível individual, para atingir a abolição do especismo.

Seus principais pensadores contemporâneos são Tom Regan e Gary Francione; o último tem tido grande influência no pensamento abolicionista não acadêmico atualmente.

Bem-Estarismo

O Bem-Estarismo Animal é um conjunto de pensamentos que buscam promover o bem-estar dos animais quando usados pelos humanos, em benefício dos humanos. É, portanto, uma ideologia que busca legitimar o especismo, revestindo-o de caráter humanitário através de práticas economicamente sustentáveis e/ou uma grossa camada de retórica.

A WSPA é uma organização notoriamente bem-estarista, tendo seu lobby influenciado a pecuária aqui no Brasil e em outras partes do mundo. Deve-se muito a ela o fato de termos conhecimento do abate humanitário.

Gary Francione afirma que existe algo chamado Neo-Bem-Estarismo, que seria um Bem-Estarismo que se “vende” como meio para atingir o Abolicionismo. Creio que esse termo apenas cria confusão. Se é Bem-Estarismo é Bem-Estarismo, apesar de se estar o vendendo como Abolicionismo. Simples assim.

Socorrismo e as Protetoras

Socorrismo, uma palavra nova que não consta na maioria dos “dicionários animalistas”, foi cunhado por Sônia Felipe para designar um conjunto de práticas que visam socorrer animais que foram lesados. A maioria das protetoras (protetoras, em vez de protetor, pois a maioria esmagadora desse pessoal é mulher) de animais são socorristas.

Veja-se, portanto, que o socorrismo não é incompatível com o Abolicionismo ou o Bem-Estarismo.

O Naturalismo contra e a favor dos animais

quarta-feira, 14 de dezembro de 2011

O Naturalismo, no sentido que será discutido neste artigo, é uma corrente filosófica moral que entende que tudo que seja natural é bom, e portanto deve ser seguida. É uma corrente que, apesar de muitíssimo refutada, está presente no pensamento contemporâneo, sobretudo quando a questão animal está em jogo. Tal fenômeno pode ser explicado por uma diversidade de fatores, quais sejam (apesar de não somente):

  • Os animais não-humanos são tidos como parte da “natureza”.
  • A interação entre animais não-humanos e humanos deve se pautar pelas regras da dita “natureza”.
  • A forma como se dá essa interação é limitada pela “natureza” humana e animal.

Mas, afinal, o que é natureza?

Natureza pode ter diversos sentidos, isso Stuart Mill, em On Nature, já explanava, em 1874. Basicamente, para ele, natureza pode ser compreendido como: o tudo; aquilo que não é produto do trabalho humano; a essência de uma coisa. Natureza, quando na primeira frase, tem o sentido de “tudo”. Animais não-humanos fazem parte da natureza, posto que são coisas no mundo. Nós também fazemos parte da natureza nesse sentido. Já na segunda frase, há o sentido mais aproximado de “aquilo que não é produto do trabalho humano”, posto que a interação entre os humanos deve ser pautadas em regras humanas, tal como a moral, os costumes, o Direito, etc., e não “as leis da natureza”. E, em derradeiro, a última frase possui o sentido de “essência da coisa em si”.

Stuart Mill, na obra já citada, é pretório em afirmar que “Man necessarily obeys the laws of nature, or in other words the properties of things, but he does no necessarily guide himself by them.” [1] (p. 16 – 17, tradução: O homem necessariamente obedece às leis da natureza, ou, em outras palavras, a propriedade das coisas, mas ele não necessariamente se guia por elas.) Tal afirmação, apesar de centenária, não necessita de emendas nem rasuras. A única tarefa que se resta é observar a sabedoria e razão contida nessa lição, e medir suas consequências práticas.

Ora, a razão está ao lado de Mill, pois não há de se falar em regras morais, sociais ou jurídicas que desobedecem às leis naturais. Imagine só, um dispositivo que tivesse a seguinte redação: “Art. X. Depois de ressuscitado, o antigo defunto deverá flutuar perante perito técnico, para a averbação do milagre em sua certidão de óbito.” Sabemos, exceto talvez aqueles que creiam que tais leis sejam superados por seres sobrenaturais, que seres humanos, depois de mortos, permanecem inertes, não sendo possíveis eles ressuscitarem nem flutuarem por aí. Posto este exemplo ilustrativo, e indo ao caso animal: não é possível estabelecer que há uma norma moral no sentido de vedar o consumo de animais, caso seres humanos não podem viver sem nutrirem-se às custas deles. Seria ir contra a natureza humana, no sentido de ir contra as propriedades fisiológicas humanas. Felizmente, para nós e para os animais não-humanos, não é esse o caso, sendo perfeitamente possível vivermos sem sacrificar a vida animal [2].

O autor oitocentista afirma que os humanos não necessariamente se guiam através da natureza. Essa afirmativa, pode, desconstituída do contexto, soar como se o autor entendesse que a moral baseada na natureza pode, em algum momento, fazer sentido. Não é esse o conteúdo de seu posicionamento. Ele compreende que há algumas ações, amorais, que em que os humanos são guiados pelas suas propriedades. Exemplo disso, posso colocar, é beber água. Beber água, fora de contextos específicos, é um ato amoral, guiado pela natureza. Não se bebe água pois é certo ou errado (moral), legal ou ilegal (jurídico), belo ou feio (estético), mas sim por ser fisiologicamente necessário (é natural). É nesse sentido que muitos especistas afirmam que a alimentação humana é destituída de conteúdo moral, pois tudo que comemos é necessário para o nosso funcionamento. Como já disse anteriormente, no final do parágrafo anterior, com base na nutrição contemporânea, essa opinião não converge com a verdade.

Mas, ainda, resta o posicionamento de que os animais não-humanos são parte da natureza e, portanto, estão fora do ambiente moral. Esse pensamento é curioso, pois incorre num erro crasso: fora todos aqueles seres cuja existência só poderia ser concebida através da arte humana, todos os outros são parte da natureza enquanto aquilo que não é produto do engenho sapiente, incluindo a grande maioria dos seres humanos, são parte da “natureza”. Ora, se os seres humanos naturalmente construídos não são pacientes morais, quem seria então?

Apesar de ausente o caráter dominante da moralidade naturalista, que requer que algo seja necessário para que se torne bom, há posicionamentos cada vez mais comuns no discurso leigo. Esses posicionamentos são: o que é natural, no sentido de propriedade das coisas, é bom; o que é comum, apesar de não absoluto, entre as coisas, é sua natureza. Exemplo, no contexto deste blogue, dos dois, respectivamente: nós podemos comer carne, logo comer carne é moralmente aprovado; a maioria das pessoas comem carne, logo é da natureza humana comer carne. (Esse posicionamento é evidente em discursos homofóbicos, tais como: relações homossexuais são inaturais, logo são ruins; a maioria dos seres humanos têm relações heterossexuais, logo heterossexualidade é natural ao ser humano.)

O primeiro posicionamento não pode prosperar, pois confunde duas coisas diferentes: o campo da moral, como o dos outros campos normativos, não é o mesmo da “natureza”, que é descritiva. Quando algo deve-ser, ela necessariamente é. Não faz sentido haver moralidade quando algo não é. Imagine uma norma moral que diga que se deve fumar, pois humanos podem fumar. O simples fato de que podemos fazer algo não significa que devemos, mas sim que está ao nosso alcance a possibilidade de fazer uma escolha entre fazer ou não fazer. Apenas porque podemos fazer algo, ela não se torna um dever (no sentido de ser algo moralmente correto). Podemos fumar, mas ninguém cogita em dizer que fumar é moralmente bom (normalmente é tido como moralmente errado, quando feito na presença de outros).

O segundo posicionamento também não pode prosperar, pois tenta generalizar algo que é da maior para o que é de todos. Voltemos ao exemplo do fumo. Na Rússia, 70% dos homens fumam [3]. Sendo que a grande maioria dos russos fumam, seria correto dizer que faz parte das propriedades do russo fumar? Claro que não. Russos podem fumar, 70% deles fumam. Mas isso não torna uma propriedade do russo (a propriedade do russo, em verdade, é ser um homem nacional da Federação Russa).

Ainda, apenas a título de comentário, o argumento “o ser humano desenvolveu seu cérebro graças ao consumo de carne, logo devemos comer carne”, não faz parte desta temática. É um caso de apelo a tradição, extrema, misturada com resquícios de lamarckianismo.

Estando os posicionamentos anti-animais devidamente refutados, passamos a visualizar a inversão do naturalismo na questão animal. Um naturalismo muito comum dentre os ativistas e defensores dos direitos animais, sobretudo aqueles estranhos aos debates filosóficos contemporâneos. Os argumentos naturalísticos mais comuns são:

  • A natureza humana é contrária ao consumo de animais.
  • A natureza é harmônica e não tem espaço para interações nocivas.

O primeiro é pautado na ideia, errônea, de que os seres humanos são herbívoros. Há uma má concepção leiga, aparentemente desatenta a diversidade dietética no reino animal, de que os animais podem ser ou herbívoros ou carnívoros. É nesse sentido que ganha uma predominância do uso casual do termo onívoro, como sinônimo de creófago (comedor de carne). Eu, especialmente, uso o termo creófilo (que gosta de carne), em vez de onívoro. Superando esse erro, é sabido que os seres humanos são onívoros [4]. A capacidade humana de se alimentar de diversas fontes de nutrientes permitiu que nossa espécie se adaptasse a diversos ambientes. No mais, prova maior disto é que, a despeito da epidemia de doenças relacionadas a dieta, os seres humanos normalmente convivem razoavelmente bem consumindo animais.

Esse argumento atinge a possibilidade, mas, como a sua versão anti-animais, não tem fundamento fático.

O segundo argumento, por outro lado, é outro que confunde o ser com o dever-ser. Se a natureza é harmônica, e não tem espaço para interações nocivas, todas as interações que existem são benéficas: pois a natureza é o todo, e as interações existentes fazem parte desse todo. Normalmente esse discurso imprime às pessoas o dever de expurgar o mundo do que é antinatural. Porém, com todo respeito, quem argumenta nesse sentido confunde natureza com a moralidade.

Concluindo, o naturalismo moral não possui motivo para ser usado em debate algum. É uma visão ética ultrapassada, superada há muito tempo, não devendo ser cogitada nem para defender o especismo nem o anti-especismo (nem a homofobia e o tabagismo russo). É uma visão que confunde conceitos, ontologicamente separados, imprimindo obrigações morais ilógicas e desnecessárias (tal como a de ser o que é).

Referências

[1] MILL, J. S. Nature, the Utility of religion, and Theism. Londres: Longmans, Green, Reader, and Dyer, 1874.

[2] http://www.eatright.org/WorkArea/linkit.aspx?LinkIdentifier=id&ItemID=8417

[3] http://www.who.int/tobacco/mpower/mpower_report_prevalence_data_2008.pdf , p. 274.

[4] http://www.pensataanimal.net/index.php?option=com_content&view=article&id=356:o-homem-evoluiu-como-um-animal-carnivoro-ou-vegetariano&catid=43

Dos Ex-Veganos

domingo, 1 de maio de 2011

I. Introdução

Tido como um debate de menor importância, devido ao fato de incidir sobre raros casos, o tema dos “ex-veganos” tem sido levantado pelos fóruns de discussão sobre Direitos Animais, normalmente dentro de um contexto conflitante entre dois polos: aqueles que entendem que todos aqueles que já um dia foram veganos deixaram de sê-los são “ex-veganos”; e aqueles que entendem que aqueles que um dia foram veganos ao deixarem de sê-los nunca foram veganos para começo de conversa. Proponho, neste artigo, uma posição intermediária entre esses polos que, entendo, serem, com todo o respeito àqueles que assim entendem, simplistas.

Introdutoriamente, devo eu sintetizar o meu entendimento do que consiste o veganismo: trata-se de um estilo de vida com fundamento ético nos Direitos Animais. Isso implica na possibilidade de bipartição do veganismo: há o aspecto subjetivo (a fundamentação nos Direitos Animais; o fundamento ético) e o aspecto objetivo (o respeito, até onde for possível no contexto real, desses direitos; o estilo de vida). Para se ser vegano, em minha modesta compreensão, é necessário observar esses dois aspectos. A inobservância de qualquer um deles, de início, faz com que a pessoa não deva se considerar vegana.

II. Os ex-veganos e o aspecto subjetivo do veganismo

Como já defendi anteriormente, o aspecto subjetivo é, por sua própria natureza, primordial na minha conceituação de veganismo: sua estrutura rígida não comporta grandes flexibilidades, senão aquelas que as vertentes dos Direitos Animais comportam (por exemplo, o critério a ser adotado para inclusão de algum ser ou ente na comunidade moral e a estrutura do comando moral). Essa rigidez não tolera grandes acrobacias intelectuais, tornando, incrivelmente, o aspecto subjetivo objetivamente de mais fácil compreensão.

É nessa dimensão que aqueles que argumentam na impossibilidade de se haver ex-veganos assentam seus argumentos. Afinal, aquele que não adota como fundamento de seu estilo de vida nos Direitos Animais, desde logo, nunca fora vegano. Não objeto a isso. Portanto, aquele que não assenta seu estilo de vida nos Direitos Animais, que, por pura coincidência, objetivamente aparenta ser veganismo, não é vegano. É nesse sentido que se argumenta quem, por outros motivos senão éticos (religiosos, de saúde, econômicos, etc.), adote o vegetarianismo estrito, não é vegano.

Contudo, e aquele que uma vez adotou a ética dos Direitos Animais mas, por algum motivo (fundamentação fraca, contraargumentos fortes, incompatibilidade com ideologia superveniente, etc.) a renega? Pode-se dizer que é um ex-vegano no aspecto subjetivo? Creio que a resposta seria relativamente positiva. Isso dependeria da força que aquela concepção ética tinha na vida dessa pessoa. Se for algo fracamente assentada, tendo a crer que jamais fora vegano, mas sim que esteve “em transição” para o veganismo. Caso havia sido algo razoavelmente com fortes fundações, pode-se dizer que uma vez foi vegano e agora não mais o é.

III. Os ex-veganos e o aspecto objetivo do veganismo

O aspecto objetivo, por se tratar de uma manifestação no mundo concreto, pode ser o mais facilmente aferido, porém é o que mais comporta adequação ao contexto, e, por isso, é o que aceita maiores variações. Não obstante, é ainda corriqueiro o resumo do veganismo ao vegetarianismo estrito coligado com o boicote a peles, produtos testados em animais, lazer às custas dos animais, comercialização dos mesmos, etc.. Creio ser demasiadamente estanque essa definição objetiva e taxativa do que seria o veganismo na prática, vez que não comporta o contexto onde é praticado (no Brasil, por exemplo, muitos produtos são compulsoriamente testados em animais, não havendo nenhuma culpa por parte de quem compulsoriamente tem que realizar os testes).

É nesse critério que, majoritariamente, aqueles que pregam que todos os que deixam de ser veganos são ex-veganos. Ao deixar de por em prática os direitos animais, aquele que já fora objetivamente vegano não mais o é. Porém, levando em conta este aspecto, nunca se é vegano quando se pratica a creofilia, quando é plenamente possível não o ser. O mesmo ocorre em qualquer aspecto da violação dos direitos animais, quando esta violação é claramente evitável e, portanto, facultativa. Dessa forma, aquela pessoa que entende que os animais têm direito à vida, a integridade física, etc., mas que sistematicamente violam tais direitos em seu dia-a-dia, não é objetivamente vegano, apesar de subjetivamente ter uma consciência compatível com o aspecto subjetivo do veganismo. Normalmente são aqueles que, por medo social, por conveniência ou por puro comodismo, se colocam a favor dos Direitos Animais, mas que não querem ser os ditos aventureiros.

Naturalmente, a violação dos direitos animais tem-se que ser realizada conscientemente. Aquele que é enganado pelo fornecedor de algum produto, e não tem nenhum motivo relevante para desconfiar do ludibriamento, que é fruto inerente da violação dos direitos animais, não age conscientemente. Porém, aquele que nem sequer procura as mais fáceis informações, enquanto consumidor, assume o risco de compactuar e participar do especismo institucionalizado em nosso sistema.

IV. Os dois aspectos considerados

Esses aspectos, por integrarem a definição de Veganismo, como havia dito na introdução, devem ocorrer na mesma pessoa simultaneamente para que ela seja vegana. Aquele que não mais fundamenta seu estilo de vida nos direitos animais, passando a adotar como base argumento, por exemplo, da saúde, deixa de ser vegano quanto ao aspecto subjetivo. Aquele que, por exemplo, apesar de crer na validade dos Direitos Animais, não quer mais participar de uma batalha invencível contra o especismo e se rende a prática do mesmo, deixa de ser vegano quanto ao aspecto objetivo. Já aquele que nunca entendeu que Direitos Animais são cabíveis e pratica o especismo em qualquer uma de suas modalidades, por vontade própria e livre, nunca foi vegano. O mesmo ocorre, objetivamente, quando alguém crê na validade dos Direitos Animais mas assim mesmo pratica o especismo ou, subjetivamente, não crê na validade dos Direitos Animais, mas temendo os poderes de Gaia, não ousam importunar sua criação sensível.

V. Conclusão: a utilidade prática desta reflexão

A essa altura do texto o leitor pode estar se indagando, prestes a comentar este post: sim, e daí? Qual é a relevância prática dessa reflexão? Não importa, de qualquer forma, apenas para quem deixou ou nunca foi vegano pensar isso a respeito de si mesmo?

Creio que a resposta para a última pergunta seja negativo. A implicação de que aspecto do veganismo não mais está presente na mente ou nas ações de alguém não interessa apenas a ela, mas sim aos ativistas em geral. Diante disso, pode-se elaborar estratégias mais efetivas para o resgate dos ex-veganos e a conquista daqueles que, apesar de uma vez aparentemente veganos, jamais o foram. Além disso, sobretudo nos casos supervenientes, é cabível essa reflexão na elaboração de estratégias de educação ética para os Veganos, para que suas bases sejam sólidas.

O quê veganismo não é

terça-feira, 2 de novembro de 2010

Dedico este textos aos veganos que acabaram de conhecer o veganismo e, por vários motivos, acabam por confundir algumas coisas. Não tenho pretensões de esgotar o assunto, uma vez que a quantidade de equívocos que há quanto ao veganismo são tão vastos quanto a criatividade humana. Porém, o dano que esses equívocos podem causar não são desprezíveis. Alguns podem mesmo frustrar o recém-vegano, que desiludido volta ao especismo.

Para melhor exposição do meu pensamento, irei seguir o familiar caminho da enumeração.

1. Veganismo não é heroísmo.

Um pensamento perigoso que é achado com frequência na cabeça daqueles que acabaram de se tornar veganos é o de que ser vegano é ser herói. Talvez as dificuldades de ordem ideológica, social e econômica na prática do abolicionismo animal fomentam essa ideia equivocada, de que ser vegano é lutar contra o mal, salvar os animais da morte certa e ajudar o mundo ser um lugar melhor para todos que nele vivem.

Ser vegano é apenas, per si, estar andando nos ditames da ética abolicionista (ou libertária) animal. Nada mais. Ser ativista, cuidar de animais domésticos, afundar navios baleeiros no caís… isto pode ser heroísmo (não digo taxativamente que o seja, pois não acredito em heróis). Porém fazer apenas o que é possível não é ser heróico. É apenas fazer o que é certo ou, na maioria dos casos, não fazer o que é errado.

2. Veganismo não é puritanismo.

Ora uma autocrítica, ora uma crítica exterior, a ideia do vegano enquanto ser puro deve ser desmistificada pois, além de falsa, é impossível. Parte da ideia do vegano enquanto ser puro está baseada na ideia do verdadeiro vegano, isto é, que o vegano de verdade não possui nenhum vínculo de ajuda junto a qualquer forma de especismo. Sabemos que isso é impossível devido ao contexto histórico em que vivemos, tal como eu expus em O verdadeiro, possível e falso veganismo.

O resultado prático dessa crença é o fácil abalo do recém-vegano, que aspira ser uma santidade perante os animais, quando revelado que até mesmo sendo vegano está sendo um explorador dos animais. O alfacismo, em suas mais variadas formas, nutre desse equívoco e dessa aspiração impossível, procurando frustrar os que infelizmente se sentem moralmente irrepreensíveis.

O que se tem que perseguir não é a pureza ética, mas sim a realização do que é possível para erradicar o problema: o especismo.

3. Veganismo não é panaceia.

Quando alguém adquire a consciência dos efeitos do especismo no mundo (a saber: a matança de 56 bilhões ao ano, desmatamento, obesidade, atraso do progresso científico, coisificação dos animais, caça, pesca, apenas para listar aqueles que me vieram a cabeça no momento) é relativamente fácil começar a ter a ideia de que o veganismo vai salvar o mundo, a humanidade e os animais. Passa-se a vender a ideia de que num mundo vegano não haveria problemas, pois todos os problemas têm como fundamento o especismo.

Ledo engano, um erro de visualização.

Talvez o especismo atual seja mero sintoma do problema, sendo que o veganismo apenas ataque um elemento de um sistema maior (ora o capitalismo, para os marxistas, ora o Estado, para os anarquistas, ora o consumismo, para os ecologistas). Ou mesmo esse veganismo vendido como solução dos problemas seja um futuro problema, por ser limitado, incompleto para uma transformação social que tenha pretensão de resolver todos os problemas do mundo… como se isso fosse possível.

4. Veganismo não é separatismo.

Um lugar sem cheiro de cadáver alheio carbonizado, com rios de melado, onde haja frutos por tudo que é lado, e não se tenha que perguntar se vai manteiga no bolo, se o shampoo não foi testado em animais, ou mesmo ter que ler todos os rótulos que vierem pela frente (me lembrou o ENDA 2010 essa descrição). Eis o paraíso vegano.

Se você é vegano, há 99,99% de chances que você já tenha sonhado num lugar assim ou pelo menos pensado na possibilidade. É também provável que você esteja engajado no planejamento da construção de uma comunidade vegana, a exemplo do projeto Ecovila Vegana. Se você faz parte do 00,01%, é mera questão de tempo para que você fique querendo ir prum lugar onde não tenha que explicar toda hora que animais possuem direitos básicos, e por isso que você não vai dar uma mordida na coxinha.

Não vejo nada de ruim nesse pensamento, eu mesmo faço parte dos 99,99%. Porém, existe outra face que é sim prejudicial para a causa.

Ao nutrir-se esse ideário se torna tentador começar a pensar que o restante da sociedade não passa de um bando de criminosos especistas, sem vergonhas, que não devemos nos relacionar. Ideia esta que se confunde, inclusive, com o verdadeiro veganismo ou o puritanismo do item 2).

Mas é isso que queremos? O objetivo não é tornar os creófilos veganos? Como fazer isso se isolando? Creio ser impossível. Por isso que é melhor para a causa a convivência com os creófilos, para que eles saibam que além de ser possível não ser creófago, existem quem respeita os direitos animais.

No mais, antes que alguém objete, uma ecovila possui sim sua serventia para a causa: a demonstração da viabilidade de uma comunidade vegana. De fato, serve como exemplo.

5. Veganismo não é uma tribo urbana.

Talvez a ideia mais equivocada de todas. Inicialmente gostaria de esclarecer que entendimento de tribo urbana que irei adotar neste item é aquele forjado por Maffesoli, através da síntese de Frehse, a saber: “Seriam essencialmente “micro-grupos” que, forjados em meio à massificação das relações sociais baseadas no individualismo e marcados pela “unissexualização” da aparência física, dos usos do corpo e do vestuário, acabariam, mediante sua sociabilidade, por contestar o próprio individualismo vigente no mundo contemporâneo.” Naturalmente, nem mesmo a Comunidade Vegana possui alguma identidade com tal definição. Nenhuma.

Para ser um pouco mais flexível, trarei o pensamento de Magnani, muito mais simples e abrangente “a pequenos grupos delimitados, com regras particulares.” De fato, nós possuímos regras particulares, apesar de não exclusivas, (“não comerás o que de animal foi feito”…)  e somos numericamente poucos (já ouvi falar que somos 100,000 no mundo). Agora, a comunidade vegana não é delimitada, não estando presa a uma classe social, nem a grupo étnico, religioso, cultural, nacional, etc… se configura num grupo ético, talvez em um caso sui generis.

6. Veganismo não é meramente uma questão de consumo.

Alguns não veganos, e ditos veganos recentes, confundem um conceito pragmático de vegano (aquele vegetariano que se abstém de produtos testados, vestuário feito de animais, etc) com a própria essência do veganismo, o resumindo a aquele a esse.

É equivocado, uma vez que veganismo pressupõe toda uma carga subjetiva-ideológica que envolve um claro compromisso com alguma das modalidades da ética animal, sobretudo em sua vertente abolicionista (creio que seja possível ser bem-estarista e vegano). Assim, o veganismo não se resume ao mero consumo consciente que é atualmente sua principal definição e efetivação. O consumo consciente é meramente a expressão concreta (dentre várias outras) do compromisso ético dum vegano (que é a essência do veganismo).

7. Veganismo não é essencialmente um apêndice de um programa político, religioso ou civilizatório.

Devo frisar o termo “apêndice”, isto pois veganismo pode sim ser parte dum programa político ou mesmo que haja uma religião vegana (Jainismo é um exemplo), ou mesmo que alguém faça uma proposta civilizatória que tenha como base o veganismo. Porém, o veganismo não se confunde como estes, os prescinde.

Veganismo é apenas uma proposta ética que possui sim seus efeitos nas mais variadas esferas de atuação humana, tal como a política e a religião. Mas não há conditio sine qua non, isto é, não há uma condição indispensável para que seja vegano, exceto sê-lo (desculpe a redundância).

Talvez isso implique em que determinadas religiões sejam incompatíveis com o veganismo, sendo, portanto, uma condição não ser membro destas religiões, porém não creio que tal pensamento seja útil, ao subordinar o veganismo ao não-ser-de-n-religiões (por exemplo).

8. Veganismo não é ascetismo.

Há uma tendência natural entre os creófilos em entender que uma vida sem exploração animal significa uma vida sem os prazeres da vida, ou os prazeres da carne (que prefiro dizer “os prazeres da morte alheia”). Hão de estar enganados.  Vegano algum renuncia os prazeres da vida, exceto aqueles que são ascéticos independentemente do veganismo, sobretudo do paladar. Não é a toa que nossa literatura culinária é efervescente e crescente, sempre inovando e procurando trazer novos sabores, numa tentativa hedonista de fazer nossas felizes melhores.

9. Veganismo não é ser politicamente correto.

Quem um dia pensou que ser vegano é ser politicamente correto, provavelmente não conheceu o movimento Grosseria Vegana, de Rafael Jacobsen.

A ideia equivocada de que veganismo é um tipo de modalidade do movimento politicamente correto possui como base provável o fato de usarmos “animais não-humanos” para falar dos bichos, dos animais, das bestas, daqueles que não são humanos. Ledo engano crer que isso seja mero eufemismo para não ofender (os animais?). É mera questão política, de lembrar que somos animais (portanto, cabe dizer que há animais humanos e não-humanos, tal como somos animais não-felinos), e que os direitos animais também possuem serventia aos humanos, vez que são também animais.

10. Veganismo não é ambientalismo.

A crença que todo vegano é ambientalista, que o movimento ambientalista e dos Direitos Animais andam juntos e tudo mais é muitíssima equivocada. Como comprovado por Marcio de Almeida Bueno, “(…) há uma cisão aparentemente irremediável entre o movimento ambientalista e os defensores dos direitos animais.”

O paradigma atual reinante na Teoria dos Direitos Animais no Brasil, e no exterior, é individualista negativista. O que importa são os animais enquanto indivíduos, e o que importa é que você não faça mal a eles. O meio ambiente é mera consequência disso, merecendo, portanto, menor preocupação direta que os animais indivíduos.

Confesso que considero tal paradigma limitador, resultado de uma visão de Direitos Humanos que é essencialmente o mesmo. Temos que o mudar, abrangendo também a visão ecossistêmica… coisa que esse artigo que, pretendia ser sintético, não fará.

Uma crítica a Tríade Argumentativa Vegetariana

quinta-feira, 30 de setembro de 2010

Usado praticamente como um mantra, a tríade argumentativa vegetariana (que se aplica integralmente ao veganismo) pode ser sintetizado pela seguinte frase: seja vegetariano (ou vegano) por você, pelo mundo e pelos animais. Dependendo da agenda de que a diga, há uma prioridade de um dos lados a exemplo de: seja vegano por você, pelo mundo e, sobretudo, pelos animais.

Para quem não esteja familiarizado com a tríade, o primeiro componente do mesmo se refere a questão da saúde. Isto é, seja vegetariano para ser mais saudável. O alcance dessa preposição é questionável, uma vez que se limita a quem deseja ser saudável (a exemplo daqueles que priorizam coisas que causam danos a saúde). Já o segundo componente se refere a questão ambiental, isto é, sendo vegetariano há-se uma menor pegada de carbono e menor consumo hídrico (uma vez que a pecuária é a segunda maior responsável pelas emissões de gases estufa e é um dos maiores consumidores dos recursos hídricos). E o terceiro, finalmente, é a questão dos animais (que não merece mais falas, pois é o assunto principal deste blogue).

Confesso, inicialmente que essa tríade abrange a maioria das questões que impulsionam as pessoas ao vegetarianismo. Três questões urgentes. Porém, dependendo de quem faça leitura destes, pode tratar de três valores inerentemente contraditórios. Eu não entendo que sejam, mas compreendo que alguém possa entender desta forma.

Começo pela questão da saúde, que pode ser entendida de forma egoísta, a questão ambiental de forma antropocêntrica e a questão animal estritamente individualista negativa.

Afinal, se for entendido que a saúde é o primeiro valor e sua maximização (traduzida no aumento da longevidade ou na facilidade da manutenção do padrão de beleza), não há nenhum vínculo entre este valor e vegetarianismo. E mais: o respeito pelos animais poderá ser impedimento para a manutenção da saúde desejada, uma vez que entraria, em tese, em contradição com a ideia de não experimentação. No mais, vendo de um ponto estritamente egoísta, de pouco importa que a saúde do sujeito seja condicionada a destruição do meio-ambiente. Que o meio-ambiente se exploda, preferencialmente de forma literal, caso seja o sacrifício para o bem da saúde do sujeito que assim pensa.

Já a questão ambiental, quando tratada no sentido de “conservação” para as “futuras gerações” e “nossos filhos”, além de não ter nenhuma ligação com os animais ou a saúde, é a mais corrente concepção ético-ambietal em voga, que possui um conteúdo pesadamente antropocêntrico. A caça a animais “estranhos” desrespeita os animais enquanto indivíduos, sendo revestida de uma argumentação ecológica por trás de seus propagadores. Já o conservacionismo não enxerga os animais enquanto indivíduos dotados de uma sensibilidade, mas sim apenas enquanto números que se somam na contabilidade da biodiversidade. Biodiversidade essa que, diante de um contexto ecocapitalista, seria mero instrumento econômico para proveito humano.

Por outro lado, não posso deixar de relevar as limitações impostas no argumento puramente animalista. Não os consumir, sem uma real reavaliação nutricional poderá ter consequências desastrosas (a exemplo do sujeito que vive de batata-frita, hambúrguer, alface, tomate e pão, que não terá mais sua principal fonte de proteínas, caso não aumente a porção dos outros componentes de sua “dieta”). Consequências essas que podem ser mesmo desastrosas para a causa (recordando do famoso caso dos país veganos infanticidas). Também vale dizer que a visão estritamente individualista negativa, que a maioria dos veganos urbanos têm adossado, levanta a questão: é vegano depredar o meio ambiente dos outros (humanos e não humanos)? É vegano deixar um animal ser abusado e mau-tratado? É vegano não ser ativista? São respostas que a visão individualista negativa dos Direitos Animais, de forma um tanto insatisfatória, responde com indiferença.

A tríade, portanto, se completa, porém apenas quando entendida de forma integrada. O isolamento de um de seus argumentos ou a supremacia de um sobre o outro conduz a uma leitura incompleta e infeliz da proposta que entendo como coerente: de um vegetarianismo/veganismo que, respeitando os animais, agride no mínimo possível o meio-ambiente e melhora o máximo possível a saúde de quem a ele adere. Resta questionar-se o que é “agredir no mínimo possível o meio-ambiente”, uma vez que o limite do melhoramento da saúde é o próprio meio-ambiente e as vidas animais, sendo de grande relevância a questão estratégica abordada por Bruno Müller anteriormente.

Protovegetarianismo e vegetusianismo

terça-feira, 20 de julho de 2010

O tradicional pão-de-queijo mineiro faz parte da dieta vegetusiana e protovegetariana. Foto de minha autoria.

Nos últimos meses pude acompanhar o desenvolvimento de dois novos termos para denominar os vegetaristas, ou ovo-lacto-vegetarianos: o vegetusiano, de Sônia T. Felipe, e o protovegetariano, da Sociedade Vegana. Apesar de convergir em designar praticamente o mesmo grupo de pessoas, ambos não possuem necessariamente o mesmo valor semântico.

O Vegetusiano felipense tem um vínculo, bem explícito, com a palavra latina vegetus. Para melhor esclarecimento, eu cito a própria eticista que cunhou o termo: “Se fosse verdade que a palavra inglesa vegetarian derivasse do latim, conforme querem os “ovo-lacto-api-vegetarianos” conservadores, a palavra não poderia ter sido escrita desse modo, deveria ser: vegetusian. Em português deveria ser, então, vegetusiano.”. Como ela discute em Ética, dietas e conceitos, é muito propagado pela mídia vegetarista (e mesmo vegana) que a origem do termo vegetariano não é vegetal, mas sim vegetus. Vegetus é vigoroso, saudável, em latim. Assim não há de nada estranhar “vegetarianos” consumirem coisas além de vegetais (tais como leite e ovos). Como a eticista colocou em seu artigo, essa tese é um tanto quanto minada pela própria natureza da língua, que teria conduzido ao termo vegetusiano.

Vegetusiano seria, portanto, o vegetarista cuja motivação pela dieta é a manutenção de sua saúde, nada mais além do que isso.

Já o protovegetariano da Sociedade Vegana trata da mesma problemática. Contudo, como bem explica o artigo homônimo, o novo termo tem uma ligação com o vegetarianismo ético. Trata-se de uma concepção de uma dieta que tende conceitualmente ao vegetarianismo ético e a abordagem abolicionista do animalismo. Portanto, é um termo que concebe o vegetarismo enquanto momento de transição, havendo perspectiva de ser um antecedente para o vegetarianismo de verdade.

O vegetusianismo de Sônia não acabou ganhando popularidade: numa rápida pesquisa no Google, constatei que o termo apenas tinha 149 referências. Enquanto isso, o mais recente protovegetariano já goza de 1,700 achados. Talvez o otimismo semântico do primeiro quanto a abolição do uso dos animais seja o motivo de tal popularidade. Mas apenas o tempo dirá quando protovegetarianismo se tornará o termo corrente para denominar os ovo-lactos, que gozam de quase 70 mil achados no Google (sem contar a palavra “vegetariano” isoladamente).

“Mas você gosta dos animalzinhos!”

domingo, 11 de julho de 2010

Uma amante de animais. BY-NC-SA Hop-Frog.

Há algo no pensamento especista comum que acho peculiar, e até mesmo uma barreira para a causa: o pensamento de que ter uma afeição para com os animais não-humanos é pré-requisito para adotar-se uma postura anti-especista.

Naturalmente, o especista que crê nisso acredita não ser sua obrigação moral adotar uma postura anti-especista. É mera questão de gosto, de afinidade, sendo uma obrigação moral apenas para os tais amantes de animais, os protetores de animais, etc. Qualquer discurso que não trate sobre essa questão será interpretado como não dirigido a ele, mas sim aos famosos amantes de animais “hipócritas”.

Mas, afinal, quantos anti-especistas foram categorizados como amantes de animais somente por não os danar? Acredito que todos eles já foram, não só pelos especistas mas também por alguns anti-especistas que realmente amam os animais. Eu particularmente sou assim categorizado regularmente, provavelmente pelo menos duas vezes por mês.

Então, qual seria o pensamento atrás desse equívoco de tanta gente?

Creio que seja a ideologia da “Ética do Afeto”. Ética do Afeto, seria, nesse contexto, a ideia de que a moralidade se fundamenta nos laços de afeição entre os sujeitos morais. Em outras palavras: há obrigação de se adotar um atitude ética apenas para com aqueles com quem se tem afeição. Aos outros não há essa obrigação, podendo fazer-se o que quiser sem ser injusto. Afinal, a medida de justiça apenas existe para com os afetos. Há, também, quem diga que a boa ação aos outros é apenas um lucro, não havendo ônus para aquele que causa dano.

Uma boa representação dessa ideologia é a hierarquia moral que algumas pessoas criam, em que elas próprias são o topo da pirâmide e as plantas, animais “de criação” e matéria insensível é a base. Pode variar. Por exemplo, se for um nacionalista, a nação talvez seja o topo da pirâmide. Contudo, a ideia é praticamente a mesma.

Esse pensamento pode ser “justo” em casos extremos, como a alegoria da ilha deserta (“Se você tivesse sozinho numa ilha deserta com X, você mataria e comeria X? Se essa fosse sua única opção para sobreviver?”). Porém, para a situação normal, em que há opções mais justas em uma ótica de uma Ética do Respeito, não é justo de forma alguma fundamentar sua moral na afeição que tem por outrem.

Na teoria, esse pensamento possuiria resultados temíveis: se um especista padrão é indiferente aos animais não-humanos e os obliteram indiretamente, mas conscientemente regularmente, qual seria a previsão de seu comportamento diante de um inimigo? Algumas soluções são a “reserva de afeição” (“Até o pior inimigo humano é afetivamente superior ao mais querido não-humano domesticado.”) e outras tantas soluções demasiadamente especistas que acabam por ainda não solucionar o problema.

Eu não simpatizo de forma alguma com essa linha de raciocínio que, digo mais uma vez, me parece equivocada. Uma ética tem de ser fundamentada na alteridade, no respeito e na consequência de suas ações. Mas isso é assunto para outro post.

Creofilia e sociopatia

quarta-feira, 21 de abril de 2010

Uma refeição creófila com uma diversidade de espécies animais. Foto de lotusutol.

Primeiramente, gostaria de destacar o fato de não ser psicólogo ou psiquiatra. Os conceitos de sociopatia aqui trazidos não são de caráter técnico, mas sim impressões do senso-comum social, e assim será aplicado.

Em segundo lugar, aviso que esta postagem, como a maioria das minhas postagens, pode causar um desconforto para os creófilos. As comparações que se dará poderá ofender acima do comum os creófilos, visto que lida com a analogia do comportamento deles tido como normal com comportamento de outros tidos como monstros normais (“criminosos”). Naturalmente, não aceitarei comentários abusivos, como xingamentos e afins. Não vejo diferença ôntica (de espécie) entre o assassinato de um ser senciente e um ser sapiente. Tampouco vejo diferença ôntica na morte de um humano, não-humano, familiar meu ou do comentarista. O especismo, desde o princípio, não é norteador de meus artigos (tampouco de qualquer opinião que se diga vegana). Sua oposição que o é.

Diz-se do sociopata aquele que comete coisas moralmente extremamente reprováveis (normalmente tidas como crimes, apesar da matança de animais sencientes não o ser) e não sente nem um pouco de remorso. Irei me centrar em construções abstratas, não tratando de humanos específicos, e desconsiderando outros traços de sociopatia que não sejam esses.

Frente a opinião pública, muitos criminosos que matam a sangue frio suas numerosas vítimas (assassinos em série) ou uma vítima especialmente indefesa (normalmente, quem mata idoso ou infante), muitas vezes utilizando de meios cruéis e por motivos fúteis, sem demonstrar remorso, são tidos como sociopatas. Não é incomum a clamar pela eliminação física dos autores dessas atrocidades, especialmente no calor da indignação moral das pessoas que pedem mais uma morte. Algo corriqueiro, infelizmente. Porém, deixemos a questão legal e especista de lado. Vejamos casos similares a essas ocorrências, fora de nossa espécie.

Os caçadores, abatedores, pescadores e outros ditos cidadãos de bem têm hábito de matar corriqueiramente, muitas vezes com requintes de crueldade (atirando no ser indefeso e o deixando sofrer, degolando-o e deixando morrer afogado em seu sangue, quebrando seu pescoço, matando por lenta asfixia, etc) numerosos seres sencientes de outras espécies. Sem remorso, naturalmente. Não seriam esses especistas diretos sociopatas? Se fizermos uma analogia com o caso do infanticida, onde o agravante é o estado de debilidade defensiva do sujeito da agressão gravíssima, (que é o atendado a seu bem mais importante, que condiciona a existência dos outros bens morais) a perfeição será grande. A vítima do caçador, do abatedor, do pescador é indefeso, é senciente e não tem como escapar de forma justa de seu algoz. E, no caso especial do abatedor e do pescador, o seu motivo é estupidamente fútil: o paladar (fora situações de risco e extremos, de onde não é honesto tomar como regra). Já o caçador esportivo, utilizando de uma retórica ecológica, sorri diante de suas atrocidades “ecologicamente correta”. Mais sociopata que o caçador esportivo, talvez somente o creófilo-padrão.

O creófilo-padrão, aquele que é especista seletivo, que terceiriza sua crueldade talvez seja o mais cínico de todos os especistas. Ele não se reconhece como um agente ativo das atrocidades do qual é o corresponsável. Analogicamente, podemos vislumbrar o mandante de matança. Quem manda matar, pela lógica da irresponsabilidade do creófilo-padrão, não é responsável moralmente pela morte que mandou. Uma retórica tão falsa que soa simplesmente ridículo aos ouvidos treinados de um vegano. Há outro instrumento que creio que seja mais usado do que esse que é a afirmação de que a aquisição da carcaça não por encomenda (normalmente), mas sim ocorre depois da morte ter sido realizada. Uma franca desonestidade por parte dos creófilos, visto que sabemos que o produto existe para suprir as demandas que se tem por ele. Contudo, são os creófilos que se sentem os mais limpos e eticamente incontestáveis, ao mesmo passo que eles mesmos reconhecem os direitos que eles não respeitam dos animais. O cinismo e a falsidade, além da ausência de remorso, é bem manifestado neles. Não posso deixar de concluir que, nesse aspecto, eles são sociopatas.

Outro fenômeno que vejo como relevante é a autoafirmação especista. Os creófilos tendem a não só praticarem atos especistas, mas também de se orgulharem de fazer isso. O antropocentrismo pautado na autoafirmação especista da violência, a exemplo de toda ideologia que sustenta a tese da superioridade de nossa espécie baseada em nossa capacidade de eliminar a vida alheia (de forma racional ou “natural”). Se faz o que se faz pois se pode, não havendo ponderação ética a cerca disso, num ato tremendamente sociopata.

Assim, acredito que num futuro vegano (caso de fato ocorra), os poucos creófilos que restarão serão tratados tal como os infanticidas e homicidas em série o são hoje pela nossa sociedade. A sociopatia será a etiqueta que estará estampada nas testas deles, certamente, por motivos não menos justos quanto os que ditei acima.

O que é Veganismo?

terça-feira, 6 de abril de 2010

Uma filosofia? Uma religião? Um estilo de vida? Um clube social? Uma seita? Um time esportivo?

Pinchação "Vegen"

Pinchação "Vegen": "Seja um vegen. Ame e reze." CC-BY-ND Mr. T in DC

Essa é uma pergunta bem comum, normalmente respondida com o que um vegano faz (ou não faz): participar ativamente da exploração de animais caso seja evitável, ou seja, não consumir carne, leite, ovos, mel, carmim, peles de animais (isso inclui couro), produtos testados em animais, etc. Mas, afinal, o quê realmente é o Veganismo?

Diz Gary Francione:

O veganismo não é uma mera questão de dieta; é um compromisso moral e político com a abolição, no nível individual, e não se estende só à comida, mas também à roupa, a outros produtos, e a outras ações e escolhas pessoais. [...] se “direitos animais” tiver algum significado, é o de que não podemos justificar o consumo de carnes (incluindo pescado), laticínios, ovos e outros produtos de origem animal.

Já o autor de Vegan.com.br coloca:

No entanto, veganismo não é somente uma dieta; é um modo de vida. A pessoa que se diz vegan pretende reduzir ao máximo a exploração animal em sua vida e, não somente adota uma dieta vegetariana estrita, mas também boicota empresas que testam em animais, não utiliza roupas de origem animal, não frequenta circos, rodeios etc.

Robson Fernando nos trouxe um texto de autoria desconhecida que vai no mesmo ritmo:

Veganismo é a aplicação da teoria dos direitos animais à nossa vida. Ou seja, é o modo de vida de quem reconhece que os animais não-humanos possuem o direito moral de não serem considerados propriedade dos humanos.

O madrilenho Luis Tovar, em seu blogue, coloca seu ponto de vista nesses termos:

[...] Ser vegano signfica comprender que todos los animales tenemos el mismo derecho a la vida, y merecemos un respeto igual por ello. [...]

[...]

Ser vegano es proponer un estilo de vida libre de cualquier tipo de explotación animal. [...] El veganismo es una forma de vivir que exige respeto a todos los animales sin discriminación de especie. [...]

O nutricionista vegano Eduardo Fraccarolli Buriola respondeu à pergunta da seguinte forma:

A palavra Vegano (usada pela primeira vez em 1940 na Inglaterra – Vegan) é uma variação da palavra Vegetariano, que no enfoque nutricional significa a pessoa que não consome nenhum alimento de origem animal em sua alimentação, ou seja, seus habitos alimentares são baseados 100% em produtos de origem vegetal.

Por falar nessa referência histórica, a primeira edição da revista Vegan News explica o termo:

We should all consider carefully what our Group, and our magazine, and ourselves, shall be called. ‘Non-dairy’ has become established as a generally understood colloquialism, but like ‘non-lacto’ it is too negative. Moreover it does not imply that we are opposed to the use of eggs as food. [...] As this first issue of our periodical had to be named, I have used the title “The Vegan News”. Should we adopt this, our diet will soon become known as a VEGAN diet, and we should aspire to the rank of VEGANS. Members’ suggestions will be welcomed. [...]

[...]

The object of our Group is to state a case for a reform that we think is moral, safe and logical. In doing so we shall, of course, say strongly why we condemn the use of dairy produce and eggs. In return we shall expect to be criticised. [...]

Em português, tradução minha:

Nós todos temos que levar em consideração o nome o qual nosso grupo, de nossa revista e de nós mesmos, deverá ser chamados. “Sem-laticínios” se tornou conhecido como um coloquialismo geral entendido, mas como “não-lacto”, é muito negativo. Nem mesmo implica que somos contra o uso de ovos como comida. [...] a primeira edição de nosso periódico tinha que receber um nome, eu resolvi dar o nome de “As Notícias Veganas”. Caso nós adotemos esse termo, nossa dieta logo será conhecida como dieta VEGANA, e nós poderemos aspirar às fileiras VEGANAS. Sugestões dos membros serão bem-vindas. [...]

O objetivo do nosso grupo é mostrar a necessidade de uma reforma que nós cremos ser moral, seguro e lógico. Ao fazer isso, nós devemos, é claro, afirmar fortemente o motivo o qual nós condenamos o uso de ovos e de laticínios. Em resposta, esperamos sermos criticados. [...]

Obviamente, isso tudo quem disse foram veganos (excetuando o autor do artigo primogênito, pois o entendimento de veganismo da época era mais precária do que a da atualidade). Vejamos como os creófilos, especificamente a grande mídia brasileira, nos explica:

A Globo, através do Extra, noticiando uma palestra do Bruno Müller:

Você sabe o que Gwyneth Paltrow, Drew Barrymore, Paul McCartney, Prince, Martina Navratilova e Xuxa têm em comum? Além de famosos, todos são adeptos do veganismo, cujos seguidores não comem nada que seja derivado de animais. O movimento também propõe alternativas para acabar com a matança de bichos para serem transformados em alimentos ou outros tipos de produto, além de ser contra a utilização de animais em laboratório e em circos.

[Não, não me perguntem se a Xuxa realmente é vegana...]

A mesma rede de comunicação, através de um infame artigo na Época assim afirma:

A opção mais radical de vegetarianismo é o veganismo, uma filosofia que vem crescendo em todo o mundo e que proíbe seus seguidores de comer e usar qualquer produto de origem animal.

[Não falei que era infame? Opção que proíbe é nova.]

A Folha Online, repetindo a BBC:

Uma pesquisa de um instituto sueco sugere que as pessoas que sofrem de artrite reumatóide podem reduzir o risco de ataques cardíacos e derrames se seguirem uma dieta vegan –nome dado à dieta vegetariana radical, em que não há consumo de carne, leite e seus derivados– e sem glúten.

Como pode-se ler, as definições são bem similares. Basicamente todos, exceto as fontes creófilas ou específicas na questão nutricional, apontam o veganismo como algo que vai além em não ingerir animais e seus derivados. Porém, a questão toda fica nessa variação: veganismo é um modo/estilo/forma de vida/viver, é uma filosofia ou ambos?

Vejamos então o que é “Filosofia”, no seu sentido mais amplo:

Para o professor Dr. Delamar José Volpato Dutra da UFSC, “A Filosofia é um ramo do conhecimento [...]“.

Segundo a Wikipédia lusófona, “Filosofia (do grego ?????????: philos – que ama + sophia – sabedoria, « que ama a sabedoria ») é a investigação crítica e racional dos princípios fundamentais relacionados ao mundo e ao homem.”

Já, estilo de vida é definida de tal forma:

A Wikipédia lusófona, em verbete, coloca que “Estilo de vida é a forma pela qual uma pessoa ou um grupo de pessoas vivenciam o mundo e, em consequência, se comportam e fazem escolhas.”

Sua versão anglófona define dessa forma: “Lifestyle is a term to describe the way a person lives [...]” (Estilo de vida é um termo usado para descrever a forma a qual uma pessoa vive [...], tradução minha.)

Levando em consideração essas definições, facilmente podemos ver que veganismo não é filosofia. Veganismo está vinculado, imperativo ético, aos Direitos Animais e a Ética Animal em sua formulação abolicionista ou libertacionista. Mas não se confunde com a filosofia que o fundamenta. Veganismo, contudo, é sim um estilo, uma forma, um modo de vida e de viver.

Assim, minha definição de veganismo se dá nesses termos:

Veganismo é um estilo de vida, que consiste na não-participação das violações dos Direitos Animais, entendendo esses direitos como o direito à vida, à liberdade, à integridade física e a não ser tratado como propriedade. Os animais em questão são apenas aqueles que são sencientes.

Ecotarianismo, Veganismo e Ecoveganismo

domingo, 7 de março de 2010

Recentemente fiquei sabendo da existência do termo ecotariano. Fiz uma rápida pesquisa e já pude constatar uma definição, que aqui reproduzo:

O ecotarianismo é a palavra do momento no Hemisfério Norte, especialmente na Inglaterra, onde o termo foi cunhado em 2005 por um grupo de universitários de Oxford. Dá nome a um movimento alimentar que visa, antes mesmo da preferência de cada um pelo sabor de uma comida ou outra, à preservação do meio ambiente.

Retirando o tom de religiosidade oriental e de moda que a revista IstoÉ, nos dedos de Claudia Jordão, imprimiu na matéria, é uma definição satisfatória. Portanto, sinteticamente posso afirmar que Ecotariano é um cidadão que possui uma dieta alimentar baseada na ética ambiental em termos ecossistêmicos preservacionista.

Um ecotariano, segundo Cláudia Sílvia, não necessariamente seria um vegetariano estrito (apesar da carne ser extremamente danosa ao meio-ambiente):

Além, é claro, da questão da carne: os ecotarianos não são contra seu consumo, desde que ele seja feito dentro de determinados parâmetros (sem exageros, de produtores locais e a partir de animais criados em condições dignas).

Mais bem-estarista que isso, só com os parâmetros bem estabelecidos e eufêmicos. Porém, não irei adentrar no mérito do Bem-Estarismo agora, pois não é o tema central dessa postagem.

O Ecotariano é apegado ao meio ambiente, a visão ecossistêmica, porém ignora (ou é bem-estarista) na questão individual para com os animais. Veganos, por outro lado, tem uma visão individualista muito mais desenvolvida que os ecotarianos, considerando as implicações do dano causado a um indivíduo isoladamente de forma positiva, e não negativa como uma visão ecossistemática requer.

Dennis Bluwol, em Ampliando a prática vegana: um processo libertário, aponta um alargamento das considerações veganas, atingindo a consideração ecológica. Assim, ele define ecoveganismo e suas considerações, a saber:

[...] É pensar o veganismo não apenas como uma opção de consumo – o que apenas possui poder transformador até certo nível –, mas, principalmente, como a construção de outros modos de viver e se relacionar; a construção de outras culturas, de outra forma de estar inserido no todo, na natureza.

Respeitar os ecossistemas é tão fundamental quanto respeitar os indivíduos. A própria oposição entre os dois já é problemática. Não há respeito a um sem respeito ao outro, pois são a mesma coisa. [...]

É preciso pensar, então, naquilo que é, certamente, altamente prejudicial – ou melhor, destrutivo – aos ecossistemas e toda vida que há nele. [...]

Cabe ao vegano, então, além de não consumir produtos advindos da exploração direta de animais, preocupar-se também com os danos ecológicos e ecossistêmicos de seus atos. [...]

Dennis, de certa forma, consegue suprir teoricamente o distanciamento que os veganos possuem para com a visão ecossistemática, como apontado em Continuidade Humano Animal.

O ecotarianismo é, portanto, um reflexo do ecologismo. Já o veganismo é o mínimo ético que os Direitos Animais pedem. Por sua vez, o ecoveganismo é uma saudável simbiose dos dois, levando em consideração uma visão ecossistemática e uma visão individual da problemática animal e ambiental.

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