Opinião Vegana

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O mundo sob uma ótica vegana.

Arquivo da Categoria ‘Direitos Animais’

A tempestade e a “traição” felina

quinta-feira, 20 de outubro de 2011

Grande murmurinho tem sido feito por conta da declaração do Padre Marcelo Rossi, de que o sarcedote pessoalmente nutri desgosto por gatos, pois eles seriam “traiçoeiros”.

Conheço gatos, convivo com uma, sei que tal crítica não procede, ao menos aqueles que tive contato. Traição só existe quando existe uma deliberada quebra de confiança. Quem é traído por gato não sabe interpretar sua comunicação. Mas, normalmente tal posição advém da cultura popular, fonte de boa parte dos preconceitos contra não-humanos e humanos. Gerardo Furtado, em brilhante artigo sobre os preconceitos que a humanidade tem preservado contra os pequenos felinos, esclarece esse fenômeno de forma maestral.

Esclarecido que o que o padre falou é inverdade, que é comum, e que não defendo seu preconceito, parto para o que tem sido feito em relação a tal infelicidade.

Como se pode ver, Luiz Fernando Pegorer, através da ANDA, convocou os leitores a protestar contra o que ele chamou de  ”atitude grosseira e anticristã do Padre Marcelo.” Sem entrar no mérito da cristandade do Padre, por não ter conhecimento de causa para tanto, que grosseria tamanha foi feita para que seja merecido chamar a horda de “protetoras” e “defensores(as) dos Direitos Animais” ao ataque? O simples fato dele ter chamado os pequenos felinos de traiçoeiros, reproduzindo acriticamente uma concepção popular comum? Talvez a suposta (pois não vi o caso, tomei conhecimento através de Luiz) careta com a língua de fora tenha sido repugnante suficientemente para atiçar a raiva do ativista. Nada contra a pessoa de Pegorer, pois não o conheço, mas não acho que andou bem no gesto convocatório.

Fora a repercussão que essa nota, por si só, tomou (nada menos que 402 comentários até às 8:39 do dia 20 de outubro de 2011), criou-se uma petição para que o sacerdote se retrate! Tal petição está disponível na Petição Pública, para aqueles que queiram assiná-la, possui já 6161 assinaturas (até as 11:09 de 20 de outubro de 2011). Tem menos gente no grupo Veganismo do Facebook do que os assinantes desta petição (afinal, condenar um Padre por ter dito asneira é menos grave do que viver a base de “seres inofensivos”). Segue o texto da petição:

Nós, abaixo assinados, aguardamos a retratação pública do Padre Marcelo Rossi sobre sua declaração de repúdio a gatos na última missa de S. Francisco de Assis e em programas de rádio. Entendemos que mais do que um ser humano como qualquer um de nós, o padre é um representante da Igreja e uma figura pública que atinge milhares de pessoas com suas palavras e com isso pode gerar uma onda de ódio contra os felinos, que ao contrário do que o padre declarou, não tem nada de traiçoeiros. Não podemos deixar estes seres inofensivos serem atacados sejam com palavras ou por atos de pessoas que podem se influenciar pelas palavras deste padre que decepcionou inclusive a muitos de nós.

No momento em que afirmar que gatos são traiçoeiros, no Brasil, tiver potencialidade para “gerar uma onda de ódio” com os carnívoros domésticos, eu estarei morto, pois se tem figura pública e representante de instituições (tal como a Igreja) que fala coisa pior de ateus, afrobrasileiros, etc., é sem número. Gatos traiçoeiros já fazem parte do arsenal de preconceitos que o brasileiro médio tem. Declarar publicamente isso é apenas reforçar essa ideia equivocoda, tendo apenas como potencial manter o status quo contra felis catus, não “causar o ódio contra os gatos”.

Em resumo: todo esse murmurinho não passa de uma tempestade no copo d’água, que acaba por desviar de coisas mais sérias, tal como ir contra o preconceito popular contra os gatos (e não o preconceito de uma determinada figura pública), que começa em ações efetivas de educação com os vizinhos, colegas e familiares. Não é a palavra de uma pessoa que irá mudar o que não mudou (o desgosto aos pequenos felinos por puro preconceito).

Pelo Bom-Senso: Sacrifícios Religiosos

quinta-feira, 20 de outubro de 2011

Nos últimos meses, com a ressurgência de uma antiga notícia e com a propositura de uma lei que pretende vedar a prática de sacrifícios religiosos com animais em São Paulo, da autoria de um deputado vegetariano e cristão, o tema sacrifícios religiosos tem ganhado uma especial atenção do movimento dos Direitos Animais. Muitos caracteres já foram digitadas no Facebook, repercutindo na mídia convencional, agregando ao debate posições diversas. Enquanto alguns aplaudem de pé a iniciativa do deputado paulista, e condenam o ex-deputado gaúcho, outros veem com ceticismo a eficácia e constitucionalidade desta PL paulista. Os especistas, como não poderiam atuar de forma diferente, assumem a causa religiosa – exceto quando a religião em questão é abominada por eles, é claro.

No meu entender, assiste a razão aqueles que veem com ceticismo a referida PL paulista. Compreendo que tecnicamente é impossível que haja qualquer eficácia jurídica da lei que porventura exista, no sentido de vedar o sacrifício religioso. A questão é axiológica (de valores) e tem fundamento constitucional. A Constituição Federal sim veda a crueldade contra animais em seu art. 225, que trata sobre meio ambiente, contudo a mesma Constituição assegura a liberdade religiosa no art. 5º. Pode-se dizer que haveria uma colisão de normas constitucionais. Porém, deve-se ter atenção a um detalhe: a leitura da constituição tem que estar conforme a realidade jurídica da nação e não conforme os valores que o interpretador têm.

Tomemos, por exemplo, o consumo de corpos de animais. O fundamento jurídico constitucional da permanência desse hábito pode ser: a dignidade da pessoa humana, a saúde humana, a preservação da cultura nacional. Naturalmente, quem é vegetariano não acha indigno, nem menos saudável. A cultura nacional, também, só faz sentido ser preservada caso ela não seja nociva. Porém, quem é especista e creófilo, como a nossa própria experiência de vida comprova, crê ser indigno não praticar o especismo (ver Enciclopédia Católica), o vegetarianismo não ser saudável ou que a cultura deve prevalecer sobre o meio ambiente natural, quando a fauna está em questão. Inclusive, um dos mais conceituados doutrinadores do Direito Ambiental no Brasil entende que “(…) atribuindo a tutela preceituada pela norma ao sentimento de dor do animal em relação a ele mesmo, implica inviabilizar a utilização da fauna pelo homem como bem essencial à sadia qualidade de vida.” (FIORILLO, 2011, p. 273). Esse é o entendimento dominante nas pessoas leigas ao mundo jurídico e daquelas que integram a comunidade dos operadores do Direito em nosso país.

Uma leitura anti-especista da Constituição Federal, que leve a sério a vedação contra a crueldade contra animais, no mesmo sentido que a doutrina especista confere a palavra “crueldade” (“(…) ser cruel significa submeter a um mal além do absolutamente necessário.” (FIORILLO, 2011, p. 273)), teríamos, pelo menos, um país de vegetarianos. Obviamente não é assim que os tribunais entendem e, como a religião é muito mais valorada no meio normativo do que a culinária brasileira, não devemos criar esperanças no sentido dessa lei surtir qualquer efeito. Somente, é claro, que contemos com o preconceito religioso dos aplicadores da norma estadual paulista… coisa que é minimamente equivocado.

O caminho ainda se mantem em mudar o paradigma especista na base, isto é, na sociedade. Não na pretensão de criar leis ineficazes que fazem mais mal a causa do que bem, vez que revela uma suposta tentativa de imposição de um entendimento ético sobre um grupo de pessoas historicamente vulneráveis – que são os praticantes das religiões que cometem esses atos atrozes, tão atrozes quanto os cidadãos comuns especistas.

Referência

FIORILLO, C. A. P. Curso de Direito Ambiental Brasileiro. 12 ed. São Paulo: Saraiva, 2011.

Especismo, Creofilia e Carnismo: similitudes e diferenças

terça-feira, 13 de setembro de 2011

1. Introdução

O discurso animalista hoje possui um vocabulário próprio. Abolicionismo Animal, Bem-Estarismo Animal, especismo, senciência, creofilia, carnismo, etc.. Alguns destes conceitos podem parecer, a primeira vista, sinônimos. É assim que acontece com Bem-Estarismo Animal e Libertação Animal, e mesmo com Libertação Animal com Bem-Estarismo Animal. Conceitos são criados e recriados, como sinônimos diferenciados por quem os usa, tal como autoconsciência e consciência utilizados como sinônimo de senciência.

Apesar dessa vasta gama, esse texto não possui a pretensão de tratar de todos esses termos. Neste, pretendo apenas traçar um esboço do especismo comparado a creofilia e carnismo.

2. O Especismo

O especismo é o conceito central e mais comum das teorias dos direitos animais. Foi um termo cunhado por Richard Ryder, em Oxford, em 1970, tendo como base o sexismo e o racismo. Similar ao sexismo, o especismo é uma discriminação relevante com base num aspecto que, para o critério adotado – a espécie – é irrelevante.

Peter Singer afirma que não seguir o princípio de igual consideração de interesses, quando a espécie está em jogo, é ser especista. Atenta-se que o anti-especismo, portanto, não clama que todos as espécies sejam materialmente iguais (afinal, se assim fossem, não seriam espécies, vez que o que torna uma espécie uma espécie é sua individualização). Pede-se que os membros de outras espécies tenham seus interesses igualmente considerados. Indivíduos incapazes de terem interesses, no sentido que a senciência prescreve, não podem ter esses interesses levados em consideração.

Para Herón Satana Gordilho, o especismo pode se dar em duas formas básicas: o especismo eletista e o seletivo. O primeiro considera que todas as espécies não-humanas são inferiores aos humanos, não devendo os humanos levar em consideração os interesses alheios. O segundo considera que algumas espécies são mais iguais que outras. Exemplo disso é o que Gary Francione denomina de esquizofrenia moral: no Ocidente, tem-se gatos e cães como companhia, mas mata-se porcos.

3. Creofilia

Enquanto o especismo atinge o campo da ponderação racional dos agentes morais, o que eu denomino de creofilia é a aplicação desses especismo no campo dietético. Como eu já defendi em outro momento, creófilo (aquele que gosta de carne), em português, seria o termo mais adequado para denominar aqueles que praticam o especismo dietário, ou seja, aqueles que consomem animais e seus subprodutos.

Posso, portanto, afirmar que o especismo atinge o campo subjetivo das pessoas, enquanto a creofilia é a interessa da subjetividade especista no nível dos fatos.
Pode-se argumentar que o termo onívoro já desempenha esse papel, porém devo contrapor essa ideia equivocada. Onívoro é uma condição biológica, uma possibilidade, não o que se realmente faz. Se onívoro fosse a locução adequada, dever-se-ia catalogar aqueles que consomem apenas vegetais, fungos, etc., como herbívoro. Naturalmente “vegetariano” seria um conceito ocioso e inútil. Mas não procede-se assim.

A naturalização da creofilia extinguiu uma palavra própria para essa prática, necessitando-se de uma locução individual para revelar sua carga ideológica. É nessa situação em que creofilia se torna uma palavra útil, uma palavra que reflete que a creofagia (veja-se, creofagia não é creofilia, é simplesmente comer carne) com afinidade ideológica é uma manifestação de um grupo de ideias – não uma condição natural humana.

4. Carnismo

Carnismo, que já pelo nome é explicado, é uma ideologia que tem como objetivo a justificação do consumo do corpo de animais. Não se preocupa, necessariamente, com a posição de superioridade que os humanos teriam sobre os animais, mas sim com o consumo do corpo deles.

Naturalmente, pode soar mais um conceito inútil, que tem identidade completa com o especismo. Não é bem assim. O especista de carteirinha pode ser vegetariano. O carnista não. O carnista pode ser até mesmo antiespecista! Obviamente, a técnica e o contexto histórico em que vivemos não permite que se seja um antiespecista no sentido convencional e holístico da palavra (vulgo, vegano).

Quem criou o conceito foi Melanie Joy, uma psicóloga americana. Ela clama que o carnismo possui como métodos a negação e, quando não possível negar o problema animal, a justificação. A justificação se dá em três Ns, como ela muito bem diz: natural, necessário e normal. O ativista dos Direitos Animais médio deve muito bem conhecer esses três Ns. A refutação deles, em síntese são:

Natural: a natureza não dita a eticidade, apenas a limita. Posto que humanos podem viver sem comer corpos de animais, se isso é natural ou não é uma discussão inútil e um desvio argumentativo. Tanto é assim, que comportamentos “naturais”, como deixar-se levar pelas sua atração sexual (também conhecido pelo nomen iuris de estupro) é tido como abominável. Mas é um comportamento adotado por vários mamíferos, sendo razoavelmente natural.

Necessário: refuta-se o argumento acima afirmando que, ao contrário do que eu defendi, humanos não podem viver sem comer corpos de animais. Tal afirmação é fruto de ignorância da realidade e da ciência. Referir-se a literatura nutricional vegetariana, tal como a obra de Eric Slywitch, e o artigo da American Dietetic Association.

Normal: não sendo natural nem necessário, comer o corpo de outro animal é tido como normal. Clama-se com esse argumento que a normalidade condiz com a eticidade. Ledo engano, o justo não é fundado na maior quantidade de praticantes, mas sim no que essa prática corresponde no sistema ético. Como o argumento da natureza, é uma defesa retórica e irrelevante.

A autora também identifica um movimento que ela denomina de neo-carnismo. Esse movimento procura negar os três pilares clássicos do movimento vegetariano, qual seja: Direitos Animais, a questão ambiental e a questão da saúde. É assim que surge o “carnismo piedoso”, “ecocarnismo” e o “biocarnismo”. O primeiro é resultante do Bem-Estarismo animal, que vê como problema a forma que os animais são tratados e não o fato deles serem explorados. O segundo vê como problema a pecuária industrial, não a pecuária em si (é o famoso caso do “gado verde”, manifestado pelo famoso Dr. Salada). O terceiro é feito basicamente de ex-veganos e vegetarianos que acusam a sua antiga dieta de causar problemas de saúde.

5. Conclusão

Neste texto eu discutir três conceitos similares que povoam a argumentação animalista moderna: o especismo, a creofilia e o carnismo. Argumento que são conceitos úteis, que se prestam a tratar de temas diferentes que possuem relevância autônomas.

Referências

GORDILHO, H. S. Abolicionismo Animal. Salvador: Evolução, 2008.

JOY, M. Understanding Neocarnism: How Vegan Advocates Can Appreciate and Respond to “Happy Meat,” Locavorism, and “Paleo Dieting” | One Green Planet. On Green Planet. Retrieved August 25, 2011, from http://www.onegreenplanet.org/lifestyle/understanding-neocarnism/, 2011, July 29.

SINGER, P. Animal Liberation. Nova Iorque: HarperCollins, 2009.

Da Falência do Veganismo enquanto Consumo Consciente

quarta-feira, 31 de agosto de 2011

Apresentação

Esse texto possui como base, em parte, o artigo Boycott Veganism. Nele, discute-se os problemas que o Veganismo resulta no progresso e efetividade dos Direitos Animais. Clama-se pelo boicote total desse pilar do movimento, algo que não concordo plenamente. Portanto, neste texto vejo como necessário uma releitura do veganismo e seu papel no Abolicionismo Animal.

1. Introdução

É pacífico a divisão do Movimento Animalista em duas principais correntes: o Bem-Estarismo Animal e o Abolicionismo Animal. O primeiro se propõe a reformar o sistema exploratório animal, adotando medidas que visão aumentar o bem-estar dos animais explorados, mas não abolir o seu uso. Já o segundo, do qual faço parte, tem como objetivo abolir o uso dos animais em sua totalidade. Vale lembrar que Gary Francione ainda afirma que haja uma outra corrente: os Neo-Bem-Estaristas. Essa outra corrente afirma que, enquanto os animais sejam explorados, é melhor buscar o melhor tratamento possível. O fim último desta corrente seria idêntica ao Abolicionismo.

Enquanto o consumo de produtos animais ditos “felizes”, “sustentáveis”, tal como o ovo de galinha caipira, sejam triunfos da retórica bem-estarista, o veganismo possui a mesma função na lógica do Abolicionismo. Deve-se indagar, portanto, se o veganismo seria eficaz em sua proposta, que o avanço dos Direitos Animais.

2. O Veganismo Filosófico e a Política Vegana de Consumo – divergências

Veganismo possui um histórico que influencia até hoje o seu entendimento: foi concebido nos meados do século passado enquanto insurgência contra o movimento lactovegetariano inglês, que havia apropriado da denominação “vegetariano”. Essa polêmica até hoje é motivo de disputas, surgindo, em paralelo, termos tais como o protovegetarianismo e o vegetusianismo.

Atualmente, a identidade entre Direitos Animais e o Veganismo é indelével. Veganismo é tido, por mim, como práxis dos Direitos Animais. É o estilo de vida que possui como lastro essa doutrina ética, da qual não se pode se dissociar. Dessa forma, o veganismo varia de acordo com o entendimento de Direitos Animais que a pessoa tenha, consistindo, este último, o elemento subjetivo do veganismo, que lhe é indissociável.

Sem os Direitos Animais, o Veganismo se torna injustificado, perdendo o seu motivo de ser.

Por outro lado, o Veganismo ganhou um sentido próprio, que, a primeira vista, não passaria de uma enumeração das implicações éticas decorrentes da conformidade com os Direitos Animais. É a definição mais difundida, talvez por ser mais facilmente assimilável pelos que desconhecem os Direitos Animais: ser vegano é ser vegetariano estrito, não usar peles e pelos animais, nem produtos testados neles, muito menos feito deles, etc..

Essa descrição pode variar, havendo muitas vezes remissões a formas específicas (“não usar couro ou lã”, p.ex.) de exploração.

Contudo, caso se torne atento aos elementos que consistem essa prescrição, é de se observar que apenas relações de consumo estão em jogo. Pode-se resumir toda essa descrição a uma única prescrição: não consuma animais e seus subprodutos. O consumo é posto como o problema, sendo combatido através de uma espécie de “consumo consciente” animalista. A esse consumo consciente dou o nome de “política vegana de consumo”, da qual irei me referir como PVC.

3. A Falência da PVC

É característica elementar da PVC sua taxatividade enquanto conceito. Tal taxatividade possui como origem a necessidade de simplificar os Direitos Animais em uma forma palatável àqueles que não conhecem, ou não queiram conhecer, os fundamentos e implicações desta posição ética.

Ao tornar-se um conceito fechado e estanque, a PVC passou a demonstrar fraquezas que decorrem de sua própria natureza, conjugado com o contexto em que é exigido ou praticado. Essas fraquezas, muitas vezes escondidas debaixo de uma grossa camada de retórica, são: a falta de efetividade, dogmatismo, comodismo, impossibilidade de cumprimento e desconsideração por aspectos transitórios. Cada um deles serão expostos e analisados sucintamente adiante.

3.1. A Falta de Efetividade da PVC

O aumento da produção e consumo de animais e seus “subprodutos” no Brasil tem aumentado geometricamente, apesar da quantidade crescente dos praticantes da PVC. Essa realidade, que carece de necessidade de comprovação, é resultante de fatores que fogem do controle da PVC, tais como: as leis de mercado e a cultura creófila.

As primeiras prescrevem algo simples: quando um produto possui sua demanda rebaixada, ela fica mais barata. O barateamento do produto gera demanda, que acaba estabilizando tudo, se o poder de compra não for afetado. Como, no caso em foco, esse “poder de compra” não é afetado, mas sim a “disposição de aquisição do produto”, simplesmente há uma mudança de padrão de consumo – os creófilos que não tinham como adquirir os produtos animais simplesmente passam a consumi-los, ou aqueles que já o faziam passaram a consumir mais. No somar dos ovos, digo, brócolis, dá no mesmo ter 1, 2, 10% de veganos no Brasil ou 0%, os outros 90% de creófilos simplesmente vão se tornar mais gordos (ou vão frequentar mais a academia).

Essa mudança de padrão de consumo é mero reflexo de nossa cultura especista, que exalta a exploração animal: consumi-los é, ainda, muito bem visto, sendo sinônimo de prosperidade. Não é a toa que se comemora qualquer coisa, neste país, com churrasco. E quão menos caro for esse churrasco, mais frequentes eles poderão ser feitos (e mais cheios serão os bolsos dos oncologistas).

3.2. Dogmatismo

A PVC consiste, como se pode observar na minha definição no item 2, em um rol de normas ou parâmetros. Quem as adere é um vegano, quem não as adere não é um vegano. Simples assim, para o dogmático.

A questão, contudo, é que esse dogmatismo não permite indagações válidas, que tocam no seio da PVC, tais como: insetos/crustáceos são moralmente consideráveis? (A resposta clássica é “sim”). Alimentar animais de estimação com ração feita de outros animais é moralmente correto? (Nem ouso dizer qual é a resposta clássica). Vegano pode ser fumante? (Classicamente “não”). Etc.. Questões que devem ser levantadas, lidadas, e refletidas quanto a sua validade, sob pena de aceitar parâmetros pré-formulados que remetem a uma concepção de Veganismo que, muitas vezes, ou é defasada (caso dos insetos), incoerente (caso do alimento dos animais de estimação) ou mesmo sem sentido algum (caso do vegano fumante).

A adesão a normas acaba por olvidar o que mais importa: os animais. De nada importa essas normas do Código Vegano, se os animais são indiferentes a elas. Em vez de ver se no amendoim foi carmim, se deve perguntar: algum animal senciente foi violado desnecessariamente? Para saber isso, é necessário saber se insetos são sencientes ou não. Não basta aceitar, aprioristicamente, que insetos são animais e que, portanto, devem ser, por isso, sencientes. Tem-se que pesquisar sobre a natureza da subjetividade dos insetos para aceitar a conformidade com tal prescrição.

Diante disso, a questão da própria natureza dos Direitos Animais é posta em xeque pelos supostos veganos: o reinismo, dogma que compreende que os animais devem ser protegido por serem animais, aniquila os Direitos Animais. Tendo como parâmetro o reino, esse modelo dogmático da PVC comete o mesmo erro que o especismo, prescrevendo normas ilógicas ou irrefletidas, tal como a proteção individual das esponjas, por simplesmente pertencerem ao Reino Animalia.

3.3. Comodismo

Tratar de veganismo como comodismo pode parecer absurdo. Algo que, para alguns, é tão difícil conceber, ser comodo?

Pois, tem-se demonstrado cômodo com a aceitação social desse modus vivendi. O veganismo acaba por se tratar de um atalho argumentativo, por exemplo, que busca se safar de longas elucidações sobre o Direito Animal, do dia a dia nas granjas de nosso país e nos abatedouros. Muitas vezes se torna uma salvação para o vegano que nada conhece da teoria dos Direitos Animais e da realidade do campo (ou mesmo da esquina, como é o caso dos abatedouros).

Também é uma fuga para o peso da consciência: é visto como o suficiente diante do especismo institucionalizado. Uma forma de não atiçar sentimento de corresponsabilidade perante as atrocidades esquecidas, evitando o contato com o ativismo, muitas vezes demonizado.

3.4. A impossibilidade de cumprimento

Uma das prescrições quase unívocas da PVC consiste no boicote a produtos testados em animais. Tal prescrição é impossível, devido a natureza obrigatória dos testes em animais, sem o boicote a toda gama de produtos em si. Exemplo clássico disto são os produtos farmacêuticos e de higiene domiciliar, aqui no prazo. Por força de uma norma expedida pela ANVISA, esses produtos têm que ser, obrigatoriamente, testados em animais.

Devido a prescrição de boicote a produtos testados, imagina-se, portanto, que os veganos devem boicotar esses produtos. Tal concepção, contudo, é extremamente equivocada.

O fim desta prescrição é óbvia: contribuir pelo fim dos testes em animais. Boicotar produtos compulsoriamente testados em animais não contribui, em nada, para o fim desses testes, vez que não há escapatória para o produtor: ele é obrigado a testar. O boicote só faz sentido caso quem produza possa não testar em animais. Quando há margem de poder político, a ação ganha sentido.

Os esforços do boicote melhor seriam distribuídos na organização pela mudança normativa da ANVISA, ao contrário da catalogação dos que testam (que são, ou deveriam ser, todos os produtores desses artigos). Obviamente, em ramos industriais em que os testes são dispensáveis, o boicote é um imperativo ético indelével.

3.5. A desconsideração por fatores transitórios

A PVC, como qualquer construção humana, é uma expressão histórica dos Direitos Animais. Surgiu como forma de facilitação (e, de toda forma, simplificação) da aplicação dos Direitos Animais dentro de uma sociedade de consumo. Suas prescrições atingem somente o caráter objetivo do veganismo, que corresponde a atividade consumerista. Tal natureza implica na criação de prescrições estáticas a mudanças históricas, guiando a PVC a uma inevitável defasagem.

4. Por um veganismo pragmático

A obsessão consumerista vegana não tem resultados tangíveis, exceto pela grande concentração de esforços em catalogar de cada ingrediente que possa ter sido obtido através da exploração animal. Essa atividade, que atualmente predomina entre os ditos veganos, não me parece útil por tratar do que verdadeiramente importa: os animais. Essa preocupação demasiada consigo mesmo, em prejuízo dos animais, é repercussão de um desvio de foco dos animais para a estética do veganismo.

Tem-se que colocar novamente os animais em foco, não a dieta ou o estilo de vida. Esses são meros meios de abolir a escravatura que atualmente está institucionalizado. Não comungo divergências quanto a desnecessidade do que atualmente se conhece como veganismo: ele é necessário para o abolicionismo, porém ele não pode ser o pilar do abolicionismo. O pilar tem que ser o próprio objeto do abolicionismo animal: os animais.

Essa posição possui resultados práticos que exigem uma transferência de esforços, passando do cumprimento da PVC para uma postura pragmática, que busca ações a nível social e de caráter político. Trocando em miúdos: tem-se que fazer menos trabalho de consumidor formiga e mais de político, tanto institucional quanto a nível social.

As organizações animalistas, que definham por inatividade e baixa adesão, devem ser reerguidas, para poderem ter capacidade de cumprir os papeis que lhe são destinados: de promoção de valores que conduzem a abolição do especismo.

Questões marginais, que são mirradas perante questões mais obtusas, devem ser momentaneamente desprivilegiadas no discurso, em favor de questões que possuem mais peso discursivo. Exemplo disso é a pecuária e a experimentação animal.

A experimentação animal, apesar de todo o sofrimento gratuito que produz, é discursivamente mais difícil de combater (pois os valores em jogos são tidos como mais relevantes, tal como o valor da vida humana, o progresso da ciência, etc.), além de atingir uma quantidade inexpressível de animais (a cifra é na casa dos milhões anualmente). Já a pecuária é responsável pela matança de 56 bilhões de animais terrestres anualmente no mundo, sendo sustentado por valores de menor porte, tal como a tradição revestida na continuidade de um paladar e na autorreplicante conveniência. Dar o mesmo esforço na eliminação das duas práticas é um desrespeito aos 56 bilhões de animais terrestres que são trucidados pela indústria alimentar, além de ser uma atividade consideravelmente mais difícil.

Por conta disso, é imperativo a superação dessa fase que o Movimento Animalista se encontra, onde a preocupação da estética se sobrepõe a preocupação com os animais.

Do “Reinismo”

sábado, 25 de junho de 2011

O tópico que irei tratar nesse post pode, a primeira vista, aparentar ser novo. Mas não o é. O nome que dei a esse fenômeno não se pretende ser útil, mas sim autoexplicativo. O reinismo é meramente um paralelo ao especismo, um grande especismo, que tem assolado um contingente cada vez maior de veganos pouco introduzidos ao discurso animalista filosófico, de base científica.

A gênese desse comportamento, que é o de traçar limites morais em cima da classe taxonômica de “reinos”, é a concepção, equivocada, do que é o Veganismo e, também, qual é a natureza dos Direitos Animais. Como havia argumentado em um post anterior, Veganismo é um estilo de vida que procura aplicar, o máximo possível, os Direitos Animais na escala individual. Direitos Animais é um conjunto, diverso e fragmentado, de concepções filosóficas morais que compreendem que animais possuem direitos básicos a vida, liberdade, integridade física, etc..

O problema todo começa com a leitura superficial, pouco investigativa, dos enunciados formulados no parágrafo acima. Certo, Direitos Animais são para animais, como Direitos Humanos são para animais humanos. A primeira vista, seria simples assim: é animal, ou seja, pertence ao reino Animalia, é moralmente relevante. Porém não é esse o traço que une, argumentativamente, os animais aos seus respectivos direitos em nenhum dos discursos animalistas tradicionais. Normalmente é a senciência, como em Peter Singer e Gary Francione, ou o conceito de sujeito-de-uma-vida, de Tom Regan. Notoriamente, nem todos os animais são sencientes, e muito menos são sujeitos-de-uma-vida. Exemplo clássico de animais não sencientes são as esponjas.

Logo, é possível dizer que é inapropriado chamar Direitos Animais de Direitos Animais, pois nem todos os animais têm direito, de acordo com os Direitos Animais. Porém é o nome que pegou, e é mais fácil de ser verbalizada do que Direito dos Sencientes ou Direito dos Sujeitos-de-uma-Vida. A escolha da nomenclatura, portanto, é uma questão mais de conveniência do que apuro científico, e não deve ser interpretado literalmente como algumas pessoas têm compreendido.

Fora a questão genética, a simples ideia de que “todos os animais são sagrados” é tão absurda como o especismo. O que torna todos os animais especiais, em comparação com as plantas, por exemplo? Nada, exceto o fato de serem seres heterófitos e destituídos de parede celular. E qual seria a relevância moral de se ser heterótrofo e destituído de parede celular? Ao meu ver, honestamente, é claro que são fatos totalmente irrelevantes. A questão então não é se o ser é de um reino ou de outro, é se ele é senciente (se ele é capaz de “sofrer”) ou se ele é um sujeito-de-uma-vida (se ele tem a capacidade de viver a sua vida, não só de estar vivo).

Concluindo: o reinismo, que tanto infecta as mentes dos veganos, não passa de um especismo que abrange um maior número de espécies (a de um reino inteiro), cuja gênese se encontra na leitura superficial (ou mesmo literal de seu rótulo) dos Direitos Animais.

Contra a Defesa da Vida

segunda-feira, 9 de maio de 2011

Uma das críticas mais ferozes, mais constantes e comuns aos Direitos Animais e, portanto, aos veganos, é, equivocadamente (e acertadamente, como irei revelar mais adiante), direcionada não aos Direitos Animais em si. A crítica que se tem feito é direcionado ao que se pode ser denominado de “biocentrismo”.

O Biocentrismo seria qualquer ética baseada simplesmente no critério da vida. Sustenta esse posicionamento, portanto que aquilo que está vivo tem uma relevância ético-moral e tem que ser preservado. Essa posição sempre repudiei, por questão interna, pois indaga-se, sem resposta convincente: o que tem a vida de especial para ter, por si só, um tratamento especial, moral, dos seres humanos?

Para início de conversa temos que saber o que é a vida. Uma definição que me parece consistente é tratada de forma sintética por Daniel E. Koshland Jr., apesar do mesmo considerar insuficiente e alongá-la no artigo The Seven Pillars of Life, qual seja: “a living organism is an organized unit, which can carry out metabolic reactions, defend itself against injury, respond to stimuli, and has the capacity to be at least a partner in reproduction.” (“um organismo vivo é uma unidade organizada, que possui capacidade de realizar reações metabólicas, defender a si mesmo de lesões, responde a estímulos e possui a capacidade de ao menos de figurar como parceiro no processo reprodutivo.”, tradução minha). Salvo a segunda oração (figurar como parceiro no processo reprodutivo), não discordo que essa concisa definição possa resumir a vida (essa crítica procede perante os seres vivos que realizam reprodução assexuada).

Pois então, não me parece acertada aquela posição que torna especial essa unidade organizada. Eu sou uma dessas unidades organizadas, tal como uma planta ou mesmo um vírus (em alguns momentos de sua existência) é. Isso não nos torna igual, exceto no ponto em que somos unidades organizadas que realizam o que Daniel havia dito.

Diante disso, indago: a vida, para o vírus, para a bactéria, para o protozoário, para as plantas e para as esponjas, é relevante? Creio que seja impossível seres sem capacidade de processar estímulos exteriores, de outra forma se não a nervosa, possuir uma consideração acerca da vida que possuem. Em outras palavras, eles não possuem capacidade de experimentar a vida que possuem, apenas sendo vivos. (Eles são vivos, mas não estão na vida que vivem).

Em analogia posso dizer que todos os humanos tem direito a ralago (coisa hipotética). Nós não sabemos que temos o ralago, e se o ralago for extinto, nossos poderes na dimensão ralaguenta deixaram de existir. Como não temos nem mesmo ideia da dimensão ralaguenta, como se pode dizer que fomos lesionados pela extinção do ralago? Não se pode, pois de fato não fomos. É o mesmo caso dos seres que são, mas não “sabem” (no sentido figurado do termo) que a vida existe.

É por isso que os livros mais respeitáveis de Direitos Animais impuseram, com um argumentação mais acurada e seletiva, critérios mais consistentes do que o biocentrismo: a senciência (Peter Singer e Gary Francione), o sujeito-de-uma-vida (Tom Regan), etc.. Remetemos a bibliografia produzida respectivos autores, em parênteses, para melhores elucidações sobre os critérios por eles defendidos.

“Primeiro a Humanidade!”

sábado, 12 de fevereiro de 2011

Um argumento recorrente, que já foi diversas vezes refutado (Peter Singer e Tom Regan trataram de forma extensa em suas respectivas obras), porém que continua a ser insistentimente posto, é não existe validade em promover Direitos Animais enquanto houver problemas humanos. Entende quem promove esse argumento que primeiro tem-se que resolver o próprio problema para que se preocupe com o do outro.

Não posso deixar de entender que essa ideia carece de sentido e que é absurda.

A falta de sentido está no próprio entendimento de que se tem que resolver os próprios problema para não causar problemas alheios (o que basicamente o que os abolicionistas animais querem é isso: que os humanos parem de causar problemas para os animais não-humanos).

Agora, para mostrar o quão absurda é essa ideia, convido o leitor a fazer um exercício mental, abstraindo o paradigma ético antropocêntrico vigente.

Inicialmente gostaria de deixar claro três termos que usarei nos enunciados do exercício mental proposto: 1. O termo “benéfico”, em aspas, corresponde a qualquer coisa que agrade o sujeito moral do enunciado, até mesmo as mais mesquinhas e frívolas trivialidades; 2. Bem-estar corresponde ao estado de satisfação máximo com a vida, não apenas se tratando do mínimo para a vivência; 3. Obliteração e ruína corresponde a, no primeiro caso, extinção total do paciente moral e, no segundo caso, a lesão que tenha repercussões irreparáveis e terríveis para o paciente moral.

Começamos trazendo este argumento para o círculo pessoal, isto é, colocando no topo das considerações morais o dito “eu”. Primeiro eu. O enunciado que teremos será: Não se deixará de fazer nada que, apesar de ser “benéfico” ao meu próprio bem-estar, leve a obliteração e a ruína de ser alheio, isto pois a prioridade em alcançar o bem-estar sou eu. Acho que ninguém, honestamente, até sendo o produto mais egoísta de nossa sociedade, crê que o enunciado seja válido.

Alargando um pouco, tratando o círculo afetivo seguinte, podemos tratar da “família”, trazendo o argumento para o círculo de pessoas com ligações sanguíneas com o “eu”. Primeiro minha família. Não se deixará de fazer nada que, apesar de ser “benéfico” ao bem-estar da família, leve a obliteração e a ruína de ser alheio, isto pois a prioridade em alcançar o bem-estar é de minha família. Os cidadãos de bem podem achar isso válido, porém, salvo em se tratando de grave ameaça contra ente familiar, acho difícil alguém achar nobre obliterar ou arruinar outro em nome do benefício do bem-estar da família (ex.: cometer latrocínio só para aumentar o patrimônio familiar.)

Pois bem, posso falar do bairrismo, provincialismo, classismo, além de uma “ética das amizades”, onde a prioridade é dos amigos, mas creio que seja mais interessante tratar do nacionalismo e do etnocentrismo, nesse contexto. Tratando da nação, o argumento ficaria mais ou menos assim: Não se deixará de fazer nada que, apesar de ser “benéfico” ao bem-estar da nação, leve a obliteração e a ruína de povos estrangeiros, isto pois a prioridade em alcançar o bem-estar é da nação. Engraçado que esse pensamento é o norteador, ao contrário dos outros exercícios que tratei, do imperialismo. Quando uma nação invade outra, apenas com o fim de escravizar seu povo, usar suas economias, em benefício próprio, ela está praticando o enunciado em itálico.

O etnocentrismo dá quase no mesmo, mas trata-se de etnias em vez de nações. O enunciado correspondente pode ser encontrado em discursos racistas, que utilizam de uma retórica da “necessidade” de expansão às custas da obliteração e ruína de etnias alheias. Creio que o cidadão racista (o mais próximo do etnocentrista que podemos encontrar no Brasil) compreenderá que não é de qualquer forma absurda oblitera e arruinar os outros em nome de sua etnia, mas como a expressão do racismo entre nós já chegou a ser criminalizada, acho que socialmente esse posicionamento seja indefensável.

Agora  vamos sair o exercício mental e ir ao enunciado que corresponde ao pensamento que interessa ao tema central deste blogue: Não se deixará de fazer nada que, apesar de ser “benéfico” ao bem-estar da humanidade, leve a obliteração e a ruína de povos estrangeiros, isto pois a prioridade em alcançar o bem-estar é da humanidade. As consequências deste pensamento sem pé, nem cabeça, são evidentes, e se resumem à obliteração e ruína de 55 bilhões de animais terrestre e aves, sem contar com os marinhos.

Concluindo, não existe nenhum cabimento submeter o não-causar-dano aos outros a maximização do próprio bem-estar. É flagrantemente imoral, e sua variante especista tem que ser superada como foi nas outras esferas de exclusão moral que lhe são mais exclusivas.

Do Alfascismo

quarta-feira, 8 de dezembro de 2010

Depois de muitas promessas, aqui está o artigo que discorro sobre o Alfascismo, uma tendência que tanto tem atrapalhado o progresso do movimento pelos Direitos Animais no Brasil e no mundo.

CC-BY-NC-SA Brocco Lee

1. Da origem do termo.

A palavra “Alfascista” surgiu no artigo E as plantas? de Bruno Müller, nesses termos: “Os pretensos defensores das plantas – que eu jocosamente chamo de “alfascistas” (conjunção de “alface” com “fascista”) – na verdade guardam parentesco com os relativistas e os realistas políticos.” Assim, originalmente alfascista é aquele que falsamente defende as plantas, em falsa analogia com os veganos (que defendem os direitos animais), de forma de revelar o absurdo prático de uma ética biocêntrica.

O alfascismo, enquanto sistema de ideias, tal como “fascismo” termina em ismo. Também vale notificar que é comum grifar-se alfacismo, sem o s, devido a maior aproximação com a palavra “alface” que é marca registrada dos alfascistas.

2. Do sentido que atualmente tem tido.

Eu, particularmente, tenho usando o termo alfascismo para todo tipo de militância creófila que seja desonesta, apelativa ou simplesmente ataca espantalho. Tenho verificado que essa significação tem sido usada por outros veganos, tanto em redes sociais quanto na blogsfera. Mas como o termo é novo, tendo apenas dois anos, é bem possível que mude um pouco de sentido, expandindo-se para alcançar outros tipos de militância antivegana que vemos por aí, e que virá a surgir.

3. Das modalidades.

Os argumentos alfascistas são bem variados, porém antigos conhecidos nossos. Minha exposição se dará dentro de uma divisão didática quanto ao objeto dos ataques e a natureza do argumento em questão.

3.1 Quanto ao objeto.

Os alfascistas aparentemente evitam atacar o aspecto nutricional do veganismo, ocorrendo raramente algumas investidas. Quando ocorre, normalmente procura-se descreditar o China Study e ignorar o relatório da ADA (quando não se ater em falsos erros, tal como “vegetarianos consomem pouco colesterol” que é correto, pois a ADA inclui os ovo-lacto na categoria “vegetarianos”).

O alvo favorito deles é a suposta incoerência que existe por parte dos veganos, ao defender os animais e consumir plantas. Entendem eles que somos biocêntricos (isto é, valoramos a vida simplesmente), e que portanto defendemos a vida no sentido mais amplo possível, incluindo logicamente os vegetais. Obviamente, qualquer um que tenha lido algo de Peter Singer, Tom Regan ou Gary Francione, sabe muito bem que isso não procede. Há sim veganos biocêntricos, e estes sim podem ser alvos das críticas alfascistas. Para que eles façam tal ataque ou eles realmente não entendem o que é ser senciente ou ser sujeito-de-uma-vida (para o reganianos) ou simplesmente atacam um espantalho, isto é, atacam como se biocentrismo fosse.

Outra questão muito levantada, ainda nesse aspecto da coerência, é a inviabilidade do veganismo verdadeiro, coisa que eu já argumentei neste blogue. É mais que óbvio que eles desconhecem diferença moral entre acidente e incidente, ou, em má-fé, fingem ignorância.

De outro lado, eles também têm atacado através do princípio do menor dano possível. O maior militante nessa área é o famoso Dr. Salada, que utilizando de argumentos já aniquilados no exterior, adaptou o discurso em prol do gado verde. Segundo o mestre, veganos matam mais do que um creófilo que se alimenta de gado verde. Basta ir no orkut que se encontrará os argumentos batidos dele. Mas que fique sabendo que se trata apenas de uma reedição do debate de Steven Davis, mas abrasileirado, que já foi superado por Gaverick Matheny e Andy Lamey.

O Saladismo acaba por ser um tipo de alfascismo não muito pelo seu conteúdo, mas sim pela forma que o Dr. realiza seu trabalho missionário. Ignora-se argumentos, utiliza uns pela metade, às vezes recorre ao espantalho.

3.2 Quanto a natureza do argumento.

Os argumentos alfascistas são comumente encontrados em cinco sabores: o argumento teológico, natural, antropocêntrico-emotivo, ecologista,  imediatista e polemista.

O argumento teológico é relativamente raro e já foi previsto por Tom Regan, que rebateu em Jaulas Vazias (ed. Lugano) o argumento dos animais desalmados e do domínio divino sobre os animais por parte dos humanos. Sinteticamente, quanto ao argumentos dos animais despossuídos de almas, Regan afirma: “A objeção ‘os animais não têm almas’, ao invés de minar as metas abolicionistas que todos os defensores dos direitos animais compartilham, tem implicações que na verdade colaboram com a realização dessas metas. O melhor modo de garantir que os animais tenham uma vida tão boa e longa quanto é da sua natureza ter é agir de forma a respeitar seus direitos.” (p. 84) Afirma ele, antes, que como os animais não possuem vida pós-morte. é dever nosso garantir-lhes uma boa vida aqui e agora. Já o argumento do domínio divino, assim é contestada: “Ser contemplado por Deus com o domínio sobre tudo não significa receber uma carta branca para atender às nossas necessidades ou saciar nossos desejos. Pelo contrário, significa ser incumbido da imensa responsabilidade de ser o o representante do criador na criação; (…)” (p. 84) E o criador, em questão tem amor e zelo com a criação, logo nós deveríamos agir em conformidade, zelando pelos Direitos Animais.

Consoante a isso, Rosen é categórico ao explica, sobre a mesma passagem bíblica que fomenta a ideia de domínio, que “(…) the original Hebrew for the word “dominion” is yirdu, and it connotes a sort of stewardship or guardianship. In other words, we are given the command to care for our more humbly endowed brothers and sisters – the animals – not to eat them.” (BERRY, Rynn. Food for the Gods. p. 111) Ou seja: “(…) no Hebraico a palavra que corresponde “domínio” é yirdu, e ela tem uma conotação de guarda e gestão. Em outras palavras, nos foi dado o comando de cuidar de nossos mais humildemente dotados irmãos e irmãs – os animais – não os comer.” (tradução livre)

Um argumento que me deixa fora do sério, é, sem dúvidas aquele que diz que é natural (e, portanto, certo) a creofilia. Pode vir em várias formas, tal como: 1. Nós podemos comer carne, logo temos o direito de matar os outros; 2. Há animais que matam outros para comer, logo temos o direito de fazer o mesmo; 3. Eles não respeitam nossos direitos, logo podemos desrespeitar os deles. Esses argumentos podem variar quanto a apresentação, podendo ser encontrado em algumas dessas formas: o 1 pode se apresentar como “somos o topo da cadeia alimentar”, “nós temos dentes caninos”; o 2 pode ser encontrado como “animal X mata outros animais para comer”; o 3, por fim, pode ser encontrado como “se um animal me lesar tenho que ficar inerte? Não.”, “se eles tivessem a mesma oportunidade, fariam a mesma coisa”. A conclusão sempre é a mesma: isso ou aquilo nos autoriza a fazer o que fazemos com os animais, pois é natural (e supostamente lógico).

Em 1 há o erro de confundir possibilidade (campo do ser) com moral (campo do dever-ser). Eu poderia muito bem difamar meu colega Robson Fernando aqui, logo eu farei isso? Não. Não há lógica nisso, tal como não faz lógica o fato de eu poder comer carne me autorizar a matar animais. Já no 2 a coisa é igualmente absurda, pois equivale a dizer “o que terceiro faz com outro terceiro me autoriza a fazer o mesmo com um outro terceiro ou aquele mesmo terceiro”. Na realidade, o que terceiro faz não tem nenhuma ligação com seus atos, exceto quando é para socorrer o outro terceiro que foi ou está sendo lesado. Com efeito, ninguém que usa esse argumento fala nesse sentido, de matar individualmente animais que ameaçaram a matar outro animal, para comer. A coisa é feita em grupo, agregando inocentes, ou seja, animais que estão fora do ato (para começar discussão, pouquíssimos animais carnívoros são consumidos pelos creófilos). Por fim, o 3, que já foi apontado por Regan, peca no nexo de atacar o espantalho (pois a autodefesa raramente é questionada por defensores dos direitos animais), por agir em antecipação (vou matar para comer o animal, pois ele talvez venha a me lesar, e vou fazer eles procriarem e… e… e… vou mantê-los, e tudo mais), por generalizar em um grupo absurdo que vai atingir, obviamente, quem não tem nada haver com a história.

Por fim, ainda há outro argumento que apela a natureza que deixei de fora, que é uma espécie de primitivismo anacrônico. Isto é, eles se portam como se estivessem na era das cavernas quanto aos animais, porém andam de carro e mascam chicletes. Normalmente tal argumento vem junto com a exaltação da caça primitiva, porém esquece que deixamos de ser nômades, praticamos a agricultura e tornamos, para todos os efeitos, a criação de animais para consumo virtualmente obsoleto. O consumo só não é obsoleto na prática por conta da conveniência dos próprios creófilos.

O argumento antropocêntrico-emotivo é muitíssimo comum. Está, normalmente, baseado num apelo a uma emoção de fundo especista. Isto é, normalmente assume que humanos sejam prioritários e utiliza de chantagem emocional para ir contra o veganismo (como se ser vegano implicasse em ser antropofóbico). Peter Singer já dizia, em Animal Liberation (ed. Harper Perennial) que “Among the factors that make it difficult to arouse public concern about animals perhaps the hardest o overcome is the assumption that “human beings come first” and that any problem about animals cannot be comparable, as a serious moral or political issue, to problems about humans.” (p. 219) ou seja, “Dentre os fatores que dificulta o atiçar a consideração do público em relação aos animais, talvez seja a mais difícil de superar, é a ideia que “humanos são prioridade” e que qualquer problema sobre animais é incomparável, enquanto problema moral sério ou questão política, aos problemas que envolvem humanos.” (tradução livre). Ora, o alfascista simplesmente usa essa crença especista contra o vegano desavisado, e provavelmente especista em seu interior. A culpa que o alfascista quer atingir encontra guarida nos resquícios do especismo. Se todos os animais, guardado suas diferenças, são iguais, não há erro na conduta vegana. Ainda digo mais: raramente quem usa esse argumento faz algo pelos outros seres humanos.

Por outro lado, há o argumento ecologista que praticamente se resume ao saladismo. Como já apresentei as refutações, através de links exteriores, aos argumentos de Davis (que são, mutatis mutandis, os mesmos que os do Dr. Salada), me furto de tratar novamente essa questão.

Já o argumento imediatista é, sem sombra de dúvidas, fantasioso. A premissa básica é  que a abolição animal se dará agora e imediatamente. Logo eles levantam a questão sobre o destino dos 54 bilhões de animais que eles deram causa para existirem. Ora, a abolição é um processo. Todos que no ENDA exclamou “Queremos a libertação animal e queremos agora!” estavam todos sendo alegóricos. Até que, e se, a abolição animal seja feita o número de animais será muitíssimo menor, pois não se dará da noite para o dia. O problema apocalíptico anunciado pelos imediatistas não se configurará, por simples questão de ordem prática.

O argumento polemista, que não é de fato argumento, mas o chamarei assim por mera questão de classificação, é também comum. Normalmente aparece inicialmente em segundo plano de alguns de cima, em um tom agressivo porém aberto a discussão. Conquistada a plateia, o polemismo vai para a linha de frente fazer o máximo de estrago. Bruno Müller, mais uma vez, fez um estupendo e completo artigo sobre essa tática retórica. Vale a pena, contudo, fazer uma síntese citando o que vejo como o mais importante na compreensão do que é o argumento polemista: “O “escritor”, inebriado pela fama, começa amaldiçoando a educação no país – seus leitores formam uma massa de analfabetos funcionais incapazes de captar seu humor “inteligente”. Se a maioria discorda de você, está óbvio que é porque não sabe ler nem interpretar. Polemistas em geral sempre respondem aos seus críticos com uma condescendente acusação de estupidez e semianalfabetismo que, claro, lhes exime completamente da necessidade de responder às tais críticas com argumentos plausíveis. E se os fatos desmentem o polemista – pior para os fatos. Ele simplesmente os ignora.” Também Bruno é taxativo em afirmar: “Seguem-se mais algumas piadas sobre o destino terrível das alfaces (…) Novos xingamentos, mais maldições (…). Os carnívoros, do alto de sua douta sabedoria, proclamam-se os únicos aprovados (com louvor, certamente) nas aulas de interpretação (mesmo que sua redação seja sofrível). E, claro, condenam a agressividade dos vegetarianos.” Por fim, diz Bruno que “(…) a crítica do polemista é sempre favorável aos poderosos. Sua independência jamais ataca os endinheirados. Sua inteligência enaltece os exploradores. Sua coragem nunca confronta os opressores.”

4. Considerações Finais

O Alfascimo é uma tendência que vejo como natural, uma reação dos que tem o que perder com a expansão do veganismo e daqueles que veem os Direitos Animais como uma ameaça a seus paradigmas éticos há muito tempo consolidados. Porém, como pode-se demonstrar, essa tendência é minada por uma falta de criatividade com seus argumentos, ou pseudoargumentos, já refutados inúmeras vezes e por muita gente.

Encontro Nacional de Direitos Animais 2010

domingo, 17 de outubro de 2010

Quem não soube que fique sabendo agora: no último feriadão, do dia 9 ao 12 de outubro, ocorreu a segunda edição do Encontro Nacional de Direitos Animais. Num semestre em que houveram três grandes eventos de Direitos Animais (o Congresso aqui em Salvador, o Congresso Vegetariano de Porto Alegre e o próprio ENDA) não pude deixar de ir ao que me parecia mais interessante. E não vou mentir: valeu a pena ter saído da Bahia para me meter no interior de São Paulo, especificamente Porongaba.

Tentar descrever como foi o ENDA é meio pretensioso por  qualquer um que aspire a tanto, pois as experiências foram muitas (não só as proveitosas palestras, as discussões, debates, trocas de experiência, vivência, etc) e muitas vezes únicas (não posso lembrar de uma oportunidade a não ser esta de estar no que mais se aproxima do ideal pretendido pelo movimento).

Do Acre ao Rio Grande do Norte, do Rio Grande do Sul ao Pará, houveram participantes de todas as regiões do país (apesar da grande presença do pessoal de São Paulo e Paraná, especialmente Ponta Grossa). E mais: alguns palestrantes nem do Brasil eram. De fato foi um encontro bilíngue.

Dificilmente alguém que esteve no Parque Ecológico Visão Futuro naqueles dias saiu de lá intacto. Houve ganho por parte de todos, ou em conhecimento, experiência, crítica ou pelo menos o próprio aumento do rol de contatos de outros ativistas da causa.

Enfim, acredito que o seguinte vídeo (que infelizmente quase não apareço) ilustra um pouco o que foi o ENDA 2010:

Carne: uma palavra mascaradora

sábado, 4 de setembro de 2010

Este artigo será sintético, uma vez que o tema não requer maiores delongas para atingir meu objetivo.

Carne, palavra plurissignificativa que é tão comum em nosso cotidiano, até mesmo dos veganos que delas não se alimentam. Carne significa desde “Tecido muscular, animal ou (sic) humano.” a “Sensualismo, concupiscência.” (Definições extraídas do Dicionário Aurélio). É um signo que possui, salvo raras contextualizadas exceções (como no discurso vegano ou num (neo)platônico), um valor definitivamente positivo. Para o creófilo ou erotomaníaco, é seu alvo de desejo e para a pessoa de família, é seu agrupamento familiar. Mas, no caso do creófilo, acaba por ocultar também a realidade escancarada que o vocábulo representa, realidade esta que possui um valor normalmente oposto ao que a carne apresenta.

Diante do fato de que, para efeitos quase universalizantes, carne implica num tecido muscular animal, de um animal cuja vida foi findada para este fim, não é abuso dizer que carne é o fruto de um assassinato. (Ah, o leitor creófilo deve estar se sentindo ofendido. Não se ofenda, apenas és um dos mandantes do assassinato já consumado.) Carne, de fato, é o tecido muscular dum animal morto. De um cadáver.

A mascaração do termo explica o motivo que pessoas que não ousam degolar os animais que comem fazerem o que fazem, uma vez que carne torna uma ideia comumente negativa (parte de um cadáver) positiva.

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