Opinião Vegana

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O mundo sob uma ótica vegana.

Arquivo da Categoria ‘Comportamento’

Da Falência do Veganismo enquanto Consumo Consciente

quarta-feira, 31 de agosto de 2011

Apresentação

Esse texto possui como base, em parte, o artigo Boycott Veganism. Nele, discute-se os problemas que o Veganismo resulta no progresso e efetividade dos Direitos Animais. Clama-se pelo boicote total desse pilar do movimento, algo que não concordo plenamente. Portanto, neste texto vejo como necessário uma releitura do veganismo e seu papel no Abolicionismo Animal.

1. Introdução

É pacífico a divisão do Movimento Animalista em duas principais correntes: o Bem-Estarismo Animal e o Abolicionismo Animal. O primeiro se propõe a reformar o sistema exploratório animal, adotando medidas que visão aumentar o bem-estar dos animais explorados, mas não abolir o seu uso. Já o segundo, do qual faço parte, tem como objetivo abolir o uso dos animais em sua totalidade. Vale lembrar que Gary Francione ainda afirma que haja uma outra corrente: os Neo-Bem-Estaristas. Essa outra corrente afirma que, enquanto os animais sejam explorados, é melhor buscar o melhor tratamento possível. O fim último desta corrente seria idêntica ao Abolicionismo.

Enquanto o consumo de produtos animais ditos “felizes”, “sustentáveis”, tal como o ovo de galinha caipira, sejam triunfos da retórica bem-estarista, o veganismo possui a mesma função na lógica do Abolicionismo. Deve-se indagar, portanto, se o veganismo seria eficaz em sua proposta, que o avanço dos Direitos Animais.

2. O Veganismo Filosófico e a Política Vegana de Consumo – divergências

Veganismo possui um histórico que influencia até hoje o seu entendimento: foi concebido nos meados do século passado enquanto insurgência contra o movimento lactovegetariano inglês, que havia apropriado da denominação “vegetariano”. Essa polêmica até hoje é motivo de disputas, surgindo, em paralelo, termos tais como o protovegetarianismo e o vegetusianismo.

Atualmente, a identidade entre Direitos Animais e o Veganismo é indelével. Veganismo é tido, por mim, como práxis dos Direitos Animais. É o estilo de vida que possui como lastro essa doutrina ética, da qual não se pode se dissociar. Dessa forma, o veganismo varia de acordo com o entendimento de Direitos Animais que a pessoa tenha, consistindo, este último, o elemento subjetivo do veganismo, que lhe é indissociável.

Sem os Direitos Animais, o Veganismo se torna injustificado, perdendo o seu motivo de ser.

Por outro lado, o Veganismo ganhou um sentido próprio, que, a primeira vista, não passaria de uma enumeração das implicações éticas decorrentes da conformidade com os Direitos Animais. É a definição mais difundida, talvez por ser mais facilmente assimilável pelos que desconhecem os Direitos Animais: ser vegano é ser vegetariano estrito, não usar peles e pelos animais, nem produtos testados neles, muito menos feito deles, etc..

Essa descrição pode variar, havendo muitas vezes remissões a formas específicas (“não usar couro ou lã”, p.ex.) de exploração.

Contudo, caso se torne atento aos elementos que consistem essa prescrição, é de se observar que apenas relações de consumo estão em jogo. Pode-se resumir toda essa descrição a uma única prescrição: não consuma animais e seus subprodutos. O consumo é posto como o problema, sendo combatido através de uma espécie de “consumo consciente” animalista. A esse consumo consciente dou o nome de “política vegana de consumo”, da qual irei me referir como PVC.

3. A Falência da PVC

É característica elementar da PVC sua taxatividade enquanto conceito. Tal taxatividade possui como origem a necessidade de simplificar os Direitos Animais em uma forma palatável àqueles que não conhecem, ou não queiram conhecer, os fundamentos e implicações desta posição ética.

Ao tornar-se um conceito fechado e estanque, a PVC passou a demonstrar fraquezas que decorrem de sua própria natureza, conjugado com o contexto em que é exigido ou praticado. Essas fraquezas, muitas vezes escondidas debaixo de uma grossa camada de retórica, são: a falta de efetividade, dogmatismo, comodismo, impossibilidade de cumprimento e desconsideração por aspectos transitórios. Cada um deles serão expostos e analisados sucintamente adiante.

3.1. A Falta de Efetividade da PVC

O aumento da produção e consumo de animais e seus “subprodutos” no Brasil tem aumentado geometricamente, apesar da quantidade crescente dos praticantes da PVC. Essa realidade, que carece de necessidade de comprovação, é resultante de fatores que fogem do controle da PVC, tais como: as leis de mercado e a cultura creófila.

As primeiras prescrevem algo simples: quando um produto possui sua demanda rebaixada, ela fica mais barata. O barateamento do produto gera demanda, que acaba estabilizando tudo, se o poder de compra não for afetado. Como, no caso em foco, esse “poder de compra” não é afetado, mas sim a “disposição de aquisição do produto”, simplesmente há uma mudança de padrão de consumo – os creófilos que não tinham como adquirir os produtos animais simplesmente passam a consumi-los, ou aqueles que já o faziam passaram a consumir mais. No somar dos ovos, digo, brócolis, dá no mesmo ter 1, 2, 10% de veganos no Brasil ou 0%, os outros 90% de creófilos simplesmente vão se tornar mais gordos (ou vão frequentar mais a academia).

Essa mudança de padrão de consumo é mero reflexo de nossa cultura especista, que exalta a exploração animal: consumi-los é, ainda, muito bem visto, sendo sinônimo de prosperidade. Não é a toa que se comemora qualquer coisa, neste país, com churrasco. E quão menos caro for esse churrasco, mais frequentes eles poderão ser feitos (e mais cheios serão os bolsos dos oncologistas).

3.2. Dogmatismo

A PVC consiste, como se pode observar na minha definição no item 2, em um rol de normas ou parâmetros. Quem as adere é um vegano, quem não as adere não é um vegano. Simples assim, para o dogmático.

A questão, contudo, é que esse dogmatismo não permite indagações válidas, que tocam no seio da PVC, tais como: insetos/crustáceos são moralmente consideráveis? (A resposta clássica é “sim”). Alimentar animais de estimação com ração feita de outros animais é moralmente correto? (Nem ouso dizer qual é a resposta clássica). Vegano pode ser fumante? (Classicamente “não”). Etc.. Questões que devem ser levantadas, lidadas, e refletidas quanto a sua validade, sob pena de aceitar parâmetros pré-formulados que remetem a uma concepção de Veganismo que, muitas vezes, ou é defasada (caso dos insetos), incoerente (caso do alimento dos animais de estimação) ou mesmo sem sentido algum (caso do vegano fumante).

A adesão a normas acaba por olvidar o que mais importa: os animais. De nada importa essas normas do Código Vegano, se os animais são indiferentes a elas. Em vez de ver se no amendoim foi carmim, se deve perguntar: algum animal senciente foi violado desnecessariamente? Para saber isso, é necessário saber se insetos são sencientes ou não. Não basta aceitar, aprioristicamente, que insetos são animais e que, portanto, devem ser, por isso, sencientes. Tem-se que pesquisar sobre a natureza da subjetividade dos insetos para aceitar a conformidade com tal prescrição.

Diante disso, a questão da própria natureza dos Direitos Animais é posta em xeque pelos supostos veganos: o reinismo, dogma que compreende que os animais devem ser protegido por serem animais, aniquila os Direitos Animais. Tendo como parâmetro o reino, esse modelo dogmático da PVC comete o mesmo erro que o especismo, prescrevendo normas ilógicas ou irrefletidas, tal como a proteção individual das esponjas, por simplesmente pertencerem ao Reino Animalia.

3.3. Comodismo

Tratar de veganismo como comodismo pode parecer absurdo. Algo que, para alguns, é tão difícil conceber, ser comodo?

Pois, tem-se demonstrado cômodo com a aceitação social desse modus vivendi. O veganismo acaba por se tratar de um atalho argumentativo, por exemplo, que busca se safar de longas elucidações sobre o Direito Animal, do dia a dia nas granjas de nosso país e nos abatedouros. Muitas vezes se torna uma salvação para o vegano que nada conhece da teoria dos Direitos Animais e da realidade do campo (ou mesmo da esquina, como é o caso dos abatedouros).

Também é uma fuga para o peso da consciência: é visto como o suficiente diante do especismo institucionalizado. Uma forma de não atiçar sentimento de corresponsabilidade perante as atrocidades esquecidas, evitando o contato com o ativismo, muitas vezes demonizado.

3.4. A impossibilidade de cumprimento

Uma das prescrições quase unívocas da PVC consiste no boicote a produtos testados em animais. Tal prescrição é impossível, devido a natureza obrigatória dos testes em animais, sem o boicote a toda gama de produtos em si. Exemplo clássico disto são os produtos farmacêuticos e de higiene domiciliar, aqui no prazo. Por força de uma norma expedida pela ANVISA, esses produtos têm que ser, obrigatoriamente, testados em animais.

Devido a prescrição de boicote a produtos testados, imagina-se, portanto, que os veganos devem boicotar esses produtos. Tal concepção, contudo, é extremamente equivocada.

O fim desta prescrição é óbvia: contribuir pelo fim dos testes em animais. Boicotar produtos compulsoriamente testados em animais não contribui, em nada, para o fim desses testes, vez que não há escapatória para o produtor: ele é obrigado a testar. O boicote só faz sentido caso quem produza possa não testar em animais. Quando há margem de poder político, a ação ganha sentido.

Os esforços do boicote melhor seriam distribuídos na organização pela mudança normativa da ANVISA, ao contrário da catalogação dos que testam (que são, ou deveriam ser, todos os produtores desses artigos). Obviamente, em ramos industriais em que os testes são dispensáveis, o boicote é um imperativo ético indelével.

3.5. A desconsideração por fatores transitórios

A PVC, como qualquer construção humana, é uma expressão histórica dos Direitos Animais. Surgiu como forma de facilitação (e, de toda forma, simplificação) da aplicação dos Direitos Animais dentro de uma sociedade de consumo. Suas prescrições atingem somente o caráter objetivo do veganismo, que corresponde a atividade consumerista. Tal natureza implica na criação de prescrições estáticas a mudanças históricas, guiando a PVC a uma inevitável defasagem.

4. Por um veganismo pragmático

A obsessão consumerista vegana não tem resultados tangíveis, exceto pela grande concentração de esforços em catalogar de cada ingrediente que possa ter sido obtido através da exploração animal. Essa atividade, que atualmente predomina entre os ditos veganos, não me parece útil por tratar do que verdadeiramente importa: os animais. Essa preocupação demasiada consigo mesmo, em prejuízo dos animais, é repercussão de um desvio de foco dos animais para a estética do veganismo.

Tem-se que colocar novamente os animais em foco, não a dieta ou o estilo de vida. Esses são meros meios de abolir a escravatura que atualmente está institucionalizado. Não comungo divergências quanto a desnecessidade do que atualmente se conhece como veganismo: ele é necessário para o abolicionismo, porém ele não pode ser o pilar do abolicionismo. O pilar tem que ser o próprio objeto do abolicionismo animal: os animais.

Essa posição possui resultados práticos que exigem uma transferência de esforços, passando do cumprimento da PVC para uma postura pragmática, que busca ações a nível social e de caráter político. Trocando em miúdos: tem-se que fazer menos trabalho de consumidor formiga e mais de político, tanto institucional quanto a nível social.

As organizações animalistas, que definham por inatividade e baixa adesão, devem ser reerguidas, para poderem ter capacidade de cumprir os papeis que lhe são destinados: de promoção de valores que conduzem a abolição do especismo.

Questões marginais, que são mirradas perante questões mais obtusas, devem ser momentaneamente desprivilegiadas no discurso, em favor de questões que possuem mais peso discursivo. Exemplo disso é a pecuária e a experimentação animal.

A experimentação animal, apesar de todo o sofrimento gratuito que produz, é discursivamente mais difícil de combater (pois os valores em jogos são tidos como mais relevantes, tal como o valor da vida humana, o progresso da ciência, etc.), além de atingir uma quantidade inexpressível de animais (a cifra é na casa dos milhões anualmente). Já a pecuária é responsável pela matança de 56 bilhões de animais terrestres anualmente no mundo, sendo sustentado por valores de menor porte, tal como a tradição revestida na continuidade de um paladar e na autorreplicante conveniência. Dar o mesmo esforço na eliminação das duas práticas é um desrespeito aos 56 bilhões de animais terrestres que são trucidados pela indústria alimentar, além de ser uma atividade consideravelmente mais difícil.

Por conta disso, é imperativo a superação dessa fase que o Movimento Animalista se encontra, onde a preocupação da estética se sobrepõe a preocupação com os animais.

De sociopata todo creófilo tem um pouco…

terça-feira, 22 de junho de 2010
Observação: quando digo “sociopatia” ao falar de creófilos, me refiro ao contexto que coloquei no artigo Creofilia e sociopatia. Qualquer outra consideração que fuja a noção de que o especismo, enquanto desconsideração dos interesses dos seres sencientes, se configura num tipo vulgar de sociopatia, não são pertinentes a esta minha crítica dirigida, sobretudo, a platéia. (Adicionado em 21/07/10)

Me digam uma coisa, especismo a parte, essa não é a descrição de três assassinatos?

Observe a piada alfascista de péssima qualidade do Jô Soares. Eu achei que eles já tinham superado o biocentrismo cômico, mas um dos maiores humoristas do país (sim, estou sendo irônico) não aprendeu ainda.

Querido blogue…

sexta-feira, 18 de junho de 2010

Querido blogue,

Recentemente, algo muito curioso aconteceu comigo.

Fui almoçar, encontrei um conhecido, que encontrou outro conhecido. Esse meu conhecido me apresentou como vegano, eu disse “oi” e fui comer minha comida (que estava muito boa, por sinal). Logo depois disso, esse conhecido do meu conhecido (que simplesmente chamarei de “ele” para o restante do artigo) confessou algo: deixou de ser protovegetariano. No final das contas, ele descobriu que dá para ser saudável comendo peixe, de vez em quando.

Como ele nunca deu a mínima para os animais, pois é natural que os mate, visto que eles matam uns aos outros. Meu conhecido o rebateu argumentando que se fosse assim, homicídio, estupro, infanticídio (contribuição minha), por ser natural.

Depois ele começou a criticar os vegetarianos por se acharem bons, etc, etc.

No final, os dois entraram num consenso baseado na espiritualidade oriental.

Att.

Samory Santos.

Assim, eu queria compartilhar isso com vocês para apontar alguns problemas que podem ter causado a indignação prévia (pois, aparentemente, ele estava me criticando por associação).

Primeiramente, vemos a questão da saúde: “Seja vegano por você.”

Quem não estudou um pouco mais sobre, por exemplo, taxas de mortalidade de populações vegetarianas e creófilas pode ficar simplesmente colocando veganismo como uma panaceia para os problemas de saúde da contemporaneidade. Não é bem assim. Populações que se alimentam de peixe tendem a ser mais saudáveis do que veganos e outros creófilos. O apelo pela saúde pode funcionar com pessoas que se importam muito com sua saúde, mas não a todos. Prova disso é o tabagismo. Quem não sabe que fumo causa n doenças? Outro exemplo é o sedentarismo. Agora, não entrarei no debate que não buscar pela saúde eticamente viável seja uma obrigação moral do indivíduo para consigo mesmo (um pensamento que eu discordo). Porém, devo confessar que é um tipo de apelo egoísta que não serve de nada para os animais.

A segunda questão é da bondade: “Veganos são bons.”

Eu nunca vi alguém ostentar essa ideia. Talvez seja confusão do próprio argumento ético. que pode ser entendido nesse temo: quem explora os animais é ruim, logo quem não os explora é bom. É um equívoco. Quem não explora os animais não é bom. É indiferente. Mas quem os explora é “ruim”. Ser “bom” é fazer coisas boas, não deixar de fazer coisas ruins.

A terceira questão que vi nesse discurso é o naturismo: “O natural é bom!”

Esse é um argumento velho, surrado, usado para qualquer coisa que você puder imaginar. Homossexuais eram condenados moralmente por agirem contra a natureza. Isto é, o que não é natural é imoral. Esse discurso, se realmente fosse usado de forma sincera, iria inviabilizar a civilização (e a quem o faça), pois a civilização é antinatural. Contudo, o ponto fraco desse discurso é simples: o que natureza tem a ver com moralidade? Não tem nenhuma ligação.

E a quarta, e última, questão é a de agir como terceiros agiriam, e não como você mesmo agiria: “Faço como eles fazem entre si.”

Obviamente, tenho que distinguir em grupos artificias os humanos e os não-humanos, e homogeneizá-los para que isso faça sentido. A lógica é a seguinte: eu mato pois eles matam entre si. Problema desse discurso é que não faz o menor sentido (então vou mutilar as genitálias dos somalianos pois eles mutilam um dos outros?) e, pior, atinge quem não tem nada ver. Se fosse para justificar a matança de animais carnívoros e onívoros, teria uma lógica interna, mas quando se expande para os animais herbívoros (ovinos, galináceos, os mais cobiçados), qual é a lógica interna? O simples fato deles serem membros do grupo amorfo e abstrato chamado “animais”? Não, eles não matam outros de seus semelhantes para comerem.

O churrasqueiro vegano

terça-feira, 25 de maio de 2010

Na China, um vegano legal compraria carne de cachorro para seus familiares e amigos. Foto por Andy Doro, CC-NC-SA

Vocês não leram errado, eu realmente escrevi “o churraqueiro vegano”. E não, não é o sojasco que estou falando, é o velho e tradicional churrasco creófilo regado a muito sangue e sal grosso. Eu sei, é um paradoxo, mas é exatamente disso que quero falar agora.

Veganos, por definição, são insuportavelmente chatos para os creófilos. O simples fato de você evitar colaborar para a máquina especista incomoda quem está mergulhado nela (pois isso demonstra uma intolerável discordância sua, que não pode ser simplesmente aceito no silêncio). Mas há como você, meu caro colega vegano, se redimir! Seja um vegano legal.

Porém, o que seria exatamente um vegano legal? Um vegano que não enche o saco alheio? Claro que não. Veganos enchem o saco passivamente, isso é um fato, tem-se que fazer algo para compensar seu enchimento de saco passivo.

Um vegano legal tem que participar da máquina especista (… seria realmente um vegano? Ou uma pessoa muito confusa? Aposto na segunda hipótese). Ele tem que ir ao Zoológico com os especistas, tem que ir a Rodeios, Vaquejadas, comer uma salada (e pagar uma fortuna para comer uma comida fraca e provavelmente contaminada) numa churrascaria, tem que ir pescar e até mesmo assar a carne alheia (isso acontece com maior frequência que você imagina, meu caro).

O vegano legal pode vir em várias embalagens, a saber: o veganoflex (não é vegano quando não é conveniente, Peter Singer é um), o vegano não antissocial, o vegano egoísta (que é vegano para si, e não importa que os outros trucidem os animais), o vegano pessimista acomodado (os creófilos nunca vão mudar, então vou me calar) e o vegano participativo (aquele que participa das ocasiões especistas).

Antes que alguém venha me pentelhar a respeito: eu não estou querendo dizer que todo vegano tem que ser ativista 24hrs/7dias por semana. Não é o caso. Mas todo vegano tem que, caso seja oportuno, ser ativista e não participar dessas atrocidades.

Ser um vegano legal é um paradoxo. É não-ser vegano. Então, seja chat@.

O paradigma antropocêntrico e a indignação

terça-feira, 18 de maio de 2010

Protesto contra a absolvição em tribunal de Madrid. CC-BY-NC Jaume d'Urgell.

Quem não se sente indignado ao ficar sabendo da morte violenta de um animal humano? Okay, provavelmente não muitos diante da nossa já atual banalização da violência, mas quem não acredita ser a coisa mais imoral a ser feita (a não ser aqueles que executam o ato em si)? Creio que a maioria de nós acha que a morte de um animal humano seja algo estupidamente grave. Há quem defenda que quem faça isso deva ter sua existência também extinta (pena de morte).

Naturalmente, a maioria dos especistas acha moralmente aceitável a maioria das modalidades mortes que eles promovem aos animais. Eu já cansei de escrever isso aqui, e acredito que qualquer vegano esteja cansado de saber desse fato. Só quem vive na Veganolândia pode dar ao luxo de achar que isso não é um fato… e bem, Veganolândia não existe.

Mas agora, quero por em dúvida alguns atos e pensamentos que veganos conduzem que vai meio contra a própria ideia antiespecista. Não me deixarei fugir do contexto, mas vou abstrai-lo inicialmente.

Os antiespecistas acham um absurdo a matança de animais, não tenho dúvida. Mas acharíamos tão absurdo quanto a matança de humanos? E se assim não for, sob a justificativa da semelhança (argumento que é utilizado pelos especistas), haveria implicações da indignação ser maior quando o ser obliterado em questão é de sua própria etnia, nação, gênero, classe social, profissião ou outro grupo em que haja identidade consigo?

Espero que não.

Porém, a implicação de uma negativa iria ir de encontro com o especismo. Isso é especismo, simplesmente.

Agora, dentro de nosso contexto social, não podemos demonstrar nossa indignação com a mesma facilidade a qual podemos fazer quando se trata de vítimas humanas. É completamente aceitável em nossa sociedade demonstrar repulsa por quem mandou matar algum humano, mas a própria reprovação do equivalente quando se trata de animais não-humanos é um gerador de repulsa.

É nesse contexto que surge o papo-de-creófilo de que veganismo é uma opção moralmente igual a creofilia, e assim não há de se haver desrespeito. Obviamente não é o caso, não são moralmente equivalentes. A creofilia não é digna de respeito (veja bem, eu não falei que o os creófilos não sejam, mas a creofilia per si), nem outras coisas que são moralmente repreensíveis ao extremo (a exemplo do senciocídio).

O paradigma antropocêntrico naturalmente tolhe a liberdade social dos veganos demonstraram sua indignação. Até mesmo a exposição da nossa existência pode ser considerada como uma afronta a esse modelo moral torpe, contra o núcleo dele que consiste no biocentrismo antropocêntrico. Naturalmente, cabe a nós lutarmos contra esse paradigma especista. Pelo menos, em nome de nossa liberdade de expressão social (sobretudo frente as forças mais especistas que se encontram nos discursos reacionários da população em geral).

Mais sobre o Ecotarianismo

segunda-feira, 26 de abril de 2010
Feira Central de Campina Grande, por Kyller Costa Gorgônio

Feira Central de Campina Grande, por Kyller Costa Gorgônio. Ecotarianos priorizam a produção local.

Quando eu primeiro soube da existência dos ecotarianos, a primeira fonte que achei, da revista IstoÉ, me parecia um tanto negativa. Não negativa no sentido normal que vemos do veganos, de “um bando de loucos”, mas sim no sentido de uma exoticidade exacerbada, com toques orientais (não que isso seja ruim) e de, até mesmo, religiosidade, obscurantismo e ocultismo. Talvez minha leitura tenha sido um pouco inadequada, condicionada pelo típico tratamento a qual a famigerada grande mídia tem dispensado às coisas que fogem da normatividade social hegemônica de nossa sociedade. Portanto, resolvi fazer uma pesquisa um pouco mais profunda em textos não só brasileiros, mas também em outros idiomas, em busca de uma definição e um perfil mais apropriado do ecotarianismo e dos próprios ecotarianos.

Nas fontes brasileiras que me deparei, a mais polida definição e crítica do ecotarianismo que encontrei foi no portal do Discovery, que possui como indicação de leitura o artigo da IstoÉ:

Ecotarianos – Atitude consciente, mas difícil na prática

O termo, difundido nos últimos anos, refere-se a uma forma de alimentação que leva em conta os impactos causados pelo processo de fabricação dos produtos à natureza. Ser ecotariano é complexo, já que calcular a emissão de carbono de um alimento envolve conhecer sua produção, desde a matéria-prima até sua venda. Alguns só adquirem produtos orgânicos, produzidos localmente – para poupar as emissões do transporte – ou que incentivem o trabalho justo.

No caso de do blogue brasileiro Passando a Régua, que encontrei em minha pesquisa, a definição é um pouco mais abrangente, não tratando-se de apenas uma “forma de alimentação” como no texto do Discovery:

Traduzindo. Isso quer dizer que você passa a adotar o consumo sustentável em todos os seus aspectos. Da comida ao vestuário, dos objetos aos acessórios.

Em ¿Qué es el ecotarianismo?, Valentina Ruderman consegue tratar das diferenças teleológicas entre o ecotarianismo e o vegetarianismo ético com propriedade:

Con el aumento de la conciencia ambiental, durante el último año surgió una nueva manera de comer teniendo en cuenta las consecuencias en el medio ambiente. En este caso no se trata de abandonar los alimentos provenientes de los animales sino de llenar el plato con productos que hayan dejado la menor huella de carbono posible.

[…]

Así, la diferencia con los vegetarianos se encuentra en el por qué. Los Ecotarianos no comen carne simplemente porque cada vaca necesita kilos y kilos de otros animales y plantas para desarrollarse. Es fácil: cuanto más consumo, mayor la huella.

Já uma doutoranda ecotariana residente na Austrália tem um conceito de ecotarianismo que extrapola todas as apontadas, partindo mais para um lado ético do que um simples economicismo ambiental:

For us being ecotarians means that whenever we make a decision about our consumption (be that of food or any other product) we try to consider a whole myriad of ethical issues that relate to the impact of our choice on the earth. These issues include:

  • Whether or not the product has been produced locally or whether it was transported half-way across the world to us.
  • Whether or not the product was created using slave labour (or sweatshop labour) or whether it was ethically or fairly traded.
  • How much packaging is used and whether the packaging is recycled and recyclable.
  • What kind of chemicals were used in the creation of the product or whether it is organic.
  • Whether the product is cruelty-free (in that it contains now animal products and was not tested on animals).
  • Whether or not we actually need the product or whether we are simply consuming for the sake of it.
  • How much energy and water was required to create the product.
  • Whether the product is brought to us by a corporation that is highly unethical in its business practices (such as Nestle, Coke or Monsanto).
  • And, well, you get the picture…

Tradução minha:

Para nós, ser ecotariano significa que em qualquer decisão de consumo (sendo sobre comida ou qualquer outro produto), nós tentamos considerar todo um conjunto de questões ética que estão relacionado aos impacto de nossa escolha na Terra. Essas questões incluem

  • Se o produto foi produzido localmente ou se ele veio do outro lado do mundo.
  • Se na criação do produto foi usado trabalho escravo (ou semi-escravo) ou se foi eticamente ou justamente negociado.
  • Quanta embalagem é usado e se ela é reciclada ou é reciclável.
  • Que tipos de produtos químicos foram usado na criação do produto ou se ele é orgânico.
  • Se o produto é livre de crueldade (incluindo se ele contem produtos derivados de animais ou foi testado neles).
  • Se realmente precisamos do produto ou se simplesmente estamos consumindo por consumir.
  • Quanta energia foi usada e quanta água foi necessária para a criação do produto.
  • Se o produto é de uma empresa extremamente antiética em suas práticas empresarias (tais como Nestlé, Coca-Cola ou Monsanto).
  • E, bem, você entendeu…

O interessante é que, essa definição que Cristy trouxe em seu depoimento se confunde muito com o veganismo ecológico, com o ecoveganismo. Não é a toa, afinal, ela mesma confessa que está ainda comprometida com o veganismo

Já a grande mídia anglofônica, a exemplo da Times Online, fala de ecotarianismo nesses termos:

Ecotarianism is the new buzzword, a kind of greatest hits of all our favourite food movements from the past decade. It’s about sourcing locally, organically, sustainably, in season and leaving the Earth’s resources untouched. […]

Tradução minha:

Ecotarianismo é a nova palavra do momento, é tipo um dos maiores sucessos de todos os movimentos alimentares da última década. Trata-se de alimentar-se localmente, organicamente, sustentavelmente, na estação e deixar os recursos da Terra intactos. [...]

Curiosamente, uma das fontes citadas foi o blogue da Cristy.

Porém, o conceito mais sintético que até onde minha pesquisa me conduziu foi o do site da Guardian, um jornal inglês:

[…] The concept is simple: eat the foods with the lowest environmental burden, those with the lowest global-warming potential (GWP) and the least chance of messing up the planet via their acidification and pollution potential. In practice, of course, divining the environmental burden of a tomato in the supermarket is difficult.

Tradução minha:

[...] O conceito é simples: coma aquilo que cause o menor dano ambiental, aqueles com menor potencial de aquecimento global e aquilo que tiver menor possibilidade de ferrar com o planeta antravés da acidificação e de seu potencial poluidor. Na prática, é claro, adivinhar o custo ambiental de um tomate no supermercado é difícil.

Com base nessa superficial pesquisa, pois as fontes são repetidas e não possuem muitas de fato as quais eu possa ter contato com meus instrumentos, posso traçar o conceito de Ecotariano nos seguintes termos:

Ecotariano é aquele que consome produtos levando em consideração o impacto ambiental o qual eles incidem, procurando minimizá-los ao máximo possível.

Não se resume a uma questão alimentar, apesar de suas considerações serem mais complexas e visíveis no imaginário externo quando tange a alimentação. A questão é o consumo sustentável, a alimentação é apenas um reflexo disso.

Ele não é necessariamente vegetariano, pois em situações em que, por algum motivo, o alimento não-vegetariano for ecologicamente sustentável, fará sentido em consumi-lo.

Então, o ecotarianismo se diferencia do veganismo em seu fim: procura minimizar o impacto ambiental, enquanto o veganismo busca minimizar o impacto positivo individual sobre a vida dos seres sencientes ou sujeitos-de-uma-vida (dependendo da fundamentação filosófica adotada).

O método, então, é o mesmo: através de um consumo consciente, se minimizará os problemas.

De certa forma, o Ecotarianismo está para a Ecologia Profunda como o Veganismo está para os Direitos Animais: um é consequência e reflexo do outro. É uma exigência moral ao levar em consideração os argumentos da Ecologia Profunda ser ecotariano, como é uma exigência moral ser vegano caso se considere válido os Direitos Animais.

Creofilia e sociopatia

quarta-feira, 21 de abril de 2010

Uma refeição creófila com uma diversidade de espécies animais. Foto de lotusutol.

Primeiramente, gostaria de destacar o fato de não ser psicólogo ou psiquiatra. Os conceitos de sociopatia aqui trazidos não são de caráter técnico, mas sim impressões do senso-comum social, e assim será aplicado.

Em segundo lugar, aviso que esta postagem, como a maioria das minhas postagens, pode causar um desconforto para os creófilos. As comparações que se dará poderá ofender acima do comum os creófilos, visto que lida com a analogia do comportamento deles tido como normal com comportamento de outros tidos como monstros normais (“criminosos”). Naturalmente, não aceitarei comentários abusivos, como xingamentos e afins. Não vejo diferença ôntica (de espécie) entre o assassinato de um ser senciente e um ser sapiente. Tampouco vejo diferença ôntica na morte de um humano, não-humano, familiar meu ou do comentarista. O especismo, desde o princípio, não é norteador de meus artigos (tampouco de qualquer opinião que se diga vegana). Sua oposição que o é.

Diz-se do sociopata aquele que comete coisas moralmente extremamente reprováveis (normalmente tidas como crimes, apesar da matança de animais sencientes não o ser) e não sente nem um pouco de remorso. Irei me centrar em construções abstratas, não tratando de humanos específicos, e desconsiderando outros traços de sociopatia que não sejam esses.

Frente a opinião pública, muitos criminosos que matam a sangue frio suas numerosas vítimas (assassinos em série) ou uma vítima especialmente indefesa (normalmente, quem mata idoso ou infante), muitas vezes utilizando de meios cruéis e por motivos fúteis, sem demonstrar remorso, são tidos como sociopatas. Não é incomum a clamar pela eliminação física dos autores dessas atrocidades, especialmente no calor da indignação moral das pessoas que pedem mais uma morte. Algo corriqueiro, infelizmente. Porém, deixemos a questão legal e especista de lado. Vejamos casos similares a essas ocorrências, fora de nossa espécie.

Os caçadores, abatedores, pescadores e outros ditos cidadãos de bem têm hábito de matar corriqueiramente, muitas vezes com requintes de crueldade (atirando no ser indefeso e o deixando sofrer, degolando-o e deixando morrer afogado em seu sangue, quebrando seu pescoço, matando por lenta asfixia, etc) numerosos seres sencientes de outras espécies. Sem remorso, naturalmente. Não seriam esses especistas diretos sociopatas? Se fizermos uma analogia com o caso do infanticida, onde o agravante é o estado de debilidade defensiva do sujeito da agressão gravíssima, (que é o atendado a seu bem mais importante, que condiciona a existência dos outros bens morais) a perfeição será grande. A vítima do caçador, do abatedor, do pescador é indefeso, é senciente e não tem como escapar de forma justa de seu algoz. E, no caso especial do abatedor e do pescador, o seu motivo é estupidamente fútil: o paladar (fora situações de risco e extremos, de onde não é honesto tomar como regra). Já o caçador esportivo, utilizando de uma retórica ecológica, sorri diante de suas atrocidades “ecologicamente correta”. Mais sociopata que o caçador esportivo, talvez somente o creófilo-padrão.

O creófilo-padrão, aquele que é especista seletivo, que terceiriza sua crueldade talvez seja o mais cínico de todos os especistas. Ele não se reconhece como um agente ativo das atrocidades do qual é o corresponsável. Analogicamente, podemos vislumbrar o mandante de matança. Quem manda matar, pela lógica da irresponsabilidade do creófilo-padrão, não é responsável moralmente pela morte que mandou. Uma retórica tão falsa que soa simplesmente ridículo aos ouvidos treinados de um vegano. Há outro instrumento que creio que seja mais usado do que esse que é a afirmação de que a aquisição da carcaça não por encomenda (normalmente), mas sim ocorre depois da morte ter sido realizada. Uma franca desonestidade por parte dos creófilos, visto que sabemos que o produto existe para suprir as demandas que se tem por ele. Contudo, são os creófilos que se sentem os mais limpos e eticamente incontestáveis, ao mesmo passo que eles mesmos reconhecem os direitos que eles não respeitam dos animais. O cinismo e a falsidade, além da ausência de remorso, é bem manifestado neles. Não posso deixar de concluir que, nesse aspecto, eles são sociopatas.

Outro fenômeno que vejo como relevante é a autoafirmação especista. Os creófilos tendem a não só praticarem atos especistas, mas também de se orgulharem de fazer isso. O antropocentrismo pautado na autoafirmação especista da violência, a exemplo de toda ideologia que sustenta a tese da superioridade de nossa espécie baseada em nossa capacidade de eliminar a vida alheia (de forma racional ou “natural”). Se faz o que se faz pois se pode, não havendo ponderação ética a cerca disso, num ato tremendamente sociopata.

Assim, acredito que num futuro vegano (caso de fato ocorra), os poucos creófilos que restarão serão tratados tal como os infanticidas e homicidas em série o são hoje pela nossa sociedade. A sociopatia será a etiqueta que estará estampada nas testas deles, certamente, por motivos não menos justos quanto os que ditei acima.

Educação Vegana no Brasil: sem efeito

sábado, 27 de março de 2010

Como eu coloquei no artigo anterior, cerca de 83% dos entrevistados em minha pesquisa afirmaram que os animais têm direito à vida. O interessante, desse número, é que 66% dos entrevistados comem cadáver alheio, provavelmente pagando pela morte prematura de seus então proprietários (ou seja, são creófilos). Existe alguma coisa errada nessas figuras, uma certa incoerência entre um dito e o ato que se é feito. Talvez essa incoerência tenha como resposta a própria questão do que é Direitos Animais e sobre o especismo para essas pessoas.

Dos veganos, somente um não se afirmou anti-especista. A maioria dos outros vegetarianos também se consideraram anti-especistas. Já, dentre os creófilos, a maioria nem sequer sabe o que é especismo (e poucos admitiram que especismo é algo inato ao ser humano, sendo que a maioria reconheceram-se como bem-estaristas “morte digna” ou seletivos).

Já “Direitos Animais”, para os creófilos e vegetarianos em geral, é sinônimo de Proteção Animal. Os veganos, devido a influência do trabalho de Gary Francione e Tom Regan, reconhecem os Direitos Animais como A Abolição do uso deles, tal como os Direitos Humanos implicou na abolição da escravatura por quem os reconhecessem.

Esse fenômeno pode ser observado melhor quando visualizado a quantidade de veganos que os creófilos conhecem. Creófilos que conhecem mais veganos tendem a reconhecer um menor leque de direitos animais e a saberem o que é especismo. Alguns, inclusive, se consideram anti-especistas. Talvez sejam futuros veganos, como os vegetarianos em geral que se consideram anti-especistas. Ou simplesmente pessoas que não sabem que podem viver sem a morte “desnecessária” dos animais não-humanos. Nenhum creófilo anti-especista reconheceu que o direito humano à vida seja relativizada, portanto ou eles estão esperando alguma coisa para serem veganos, ou simplesmente não entenderam muito bem o que é ser anti-especista.

Fato é que a educação vegana, no sentido de explanar os conceitos básicos do movimento dos Direitos Animais, não está tendo resultados satisfatório. Pelo menos no Nordeste de nosso país, no recorte o qual a minha pesquisa teve, esse foi o resultado o qual a minha pesquisa chegou.

Nosso trabalho em sensibilizar os creófilos diante de seus terríveis atos é, obviamente, louvável e deve ser conduzido progressivamente. Porém, devemos nos concentrar também em educar os creófilos. Mostrar para eles as implicações de coisas como “os animais têm direito à vida” nos hábitos deles, denunciar o especismo deles para que possam refletir da injustiça que esse fenômeno representa. Entre outros fatos pertinente ao assunto.

Ao menos, eles poderão ser então sinceros consigo mesmos, deixando de afirmar que os animais não-humanos possuem direito à vida, à liberdade, à integridade física, assumindo suas respectivas atitudes especistas e minimamente cruéis. Já aqueles que realmente concordam que os animais têm aqueles direitos inerentes poderão ser conduzidos ao mínimo moral que essa realidade  moral requer: o veganismo. Isso tudo sem o desgaste natural que o nosso tradicional trabalho de sensibilização, através da remoção do manto mental que as pessoas têm do processo de objetivação dos não-humanos.

Resultado da Pesquisa “Direitos Animais no Brasil”

sexta-feira, 26 de março de 2010

Nos últimos dez dias conduzi uma pesquisa virtual direcionado a brasileiros, os perguntando sobre Direitos Humanos, Direitos Animais e coisas relacionadas a esses dois temas.

Os dados foram os seguintes (o universo foi de apenas 101 pessoas), ainda serão processados devidamente:

81 % afirmaram que todos os humanos têm direito à vida, 9% excluíram os criminosos desse quadro e 10% afirmaram que esse direito deve ser relativizado pelo interesse coletivo.

30% afirmaram que todos os humanos têm direito à liberdade, 46% excluíram os criminosos, e 25% relativizaram.

71% afirmaram que todos os humanos têm direito à integridade física, 17% excluíram os criminosos e 12% relativizaram.

68% afirmaram que todos os humanos têm direitos reprodutivos, 10% excluíram os criminosos e 22% relativizaram.

Apenas 3% afirmaram que animais não têm direitos, 83% afirmaram que eles têm direito a vida, 73% afirmaram que eles têm direito a integridade física, 68% afirmaram que eles têm direito a liberdade, 57% afirmaram que eles têm direito a uma morte digna.

78% creem que Direitos Animais significa Proteção dos Animais, 23% a Abolição do uso dos animais, 5% uma ideologia ou movimento radical ou extremista, 15% afirmaram outras coisas.

32% não sabem o que é especismo, 4% afirmaram que é da natureza humana ser especista, 13% se consideraram especistas, mas acreditaram que as outras espécies devem ter alguma dignidade, 21% afirmaram que são especistas, com algumas espécies. 31% se afirmaram anti-especistas.

66% dos entrevistados eram creófilos, 15% ovo-lacto-vegetarianos, 3% lacto-vegetarianos, 14% estritamente vegetarianos.

9% não conhecem pessoalmente nenhum vegetariano, exceto veganos, 50% conhecem de um a cinco, 25% de seis a dez, 8% de onze a vinte, 9% de vinte um ou mais.

22% não conhecem pessoalmente nenhum vegano, 61% conhecem de um a cinco veganos, 8% conhecem de onze a vinte veganos, 4% conhecem vinte e um ou mais.

73% dos entrevistados consideram preço um critério relevante na aquisição de um produto, 90% a qualidade, 38% as relações trabalhistas envolvidas, 45% a exploração de animais não-humanos, 67% a sustentabilidade ambiental, 4% possuem outros critérios.

80% dos entrevistados nasceram no nordeste, 14% no sudeste, 6% no sul.

2% moraram no Norte, 88% no Nordeste, 2% no Centro-Oeste, 23% no Sudeste, 9% no Sul, 5% Fora do Brasil.

7% eram menores de 18 anos, 89% tinham entre 18 e 29 anos, 4% entre 29 e 40 anos.

19% eram ateus, 23% agnósticos, 13% espíritas, 19% católicos, 8% protestantes, desses 3% adventistas, e 14% tinham outras convicções ou nenhuma.

A maioria eram estudantes.

Apenas um pai ou mãe respondeu a entrevista.

Creofilia: uma imposição aos animais

segunda-feira, 22 de março de 2010

Já dizia um certo Logan, no Arauto da Consciência que:

Quer comer seu mato, coma. Mas à partir do momento em que tentas IMPÔR tua condição alimentícia aos outros, te tornas o reacionário que tanto condenas. (Grifo meu)

Um colega meu, quando fui fazer meu seminário sobre Direitos Animais na Faculdade de Direito da Bahia (FDUFBa), também expôs uma opinião um tanto similar, apesar de forma um tanto mais acadêmica do que Logan (a citação não é perfeita, pois já faz tempo que o seminário aconteceu):

Não se pode impor às pessoas o vegetarianismo.

Apesar de discordar a princípio sobre a opinião deles (pois não vejo imposição alguma), eu discordo ainda mais: pode-se sim impor o vegetarianismo às pessoas, e mais, é um dever moral fazê-lo quando você reconhece os Direitos Animais.

Obviamente, eu não quero dizer que devemos sair aí coagindo as pessoas a serem vegetarianas. Não é o caso, nem temos poder e legitimidade jurídica para fazê-lo. O que temos que fazer é veganizar o Estado que, para quem não é anarquista, possui legitimidade de impor as pessoas (quando democrático). Isso só se dará quando a maior parte da população de uma nação se tornar vegana e utilizar dos meios estatais para criar leis que verdadeiramente respeitam os animais  como seres sencientes e sujeitos-de-uma-vida que o são.

Deixando as considerações inciais e partindo ao assunto do artigo:

Os creófilos acusam os veganos de quererem impor suas opções alimentícias, além de outras questões morais inerentes aos veganos, aos creófilos. Isso se daria através de uma intransigente pregação. (Onde entra a coerção, eu não sei… mas pelo visto conversar é bem coercitivo para esses creófilos sensíveis a questionamentos de sua moralidade). As pessoas têm direito a escolherem o que comer, ao que vestir, a de matarem os animais que quiserem (ou não, pois a maioria desses creófilos ficaram chocados com a ideia de matar um cachorro para comê-lo).

Porém, isso tudo é construído a partir de uma premissa um tanto absurda: de que apenas os humanos têm direito à vida. Tanto que nunca vi um bom creófilo aceitando de bom grado canibalismo. Essa premissa desconhece o princípio de igual considerações de interesses e carece de boa fundamentação (veja qualquer bom livro de Ética Animal, como Jaulas Vazias de Regan e Libertação Animal de Singer, ambos tratam sobre isso com maior propriedade do que eu poderia num artigozinho como esse).

Ao considerar que animais sencientes têm direito à vida (sem contar outros tantos que eles possuem por sua natureza sensível), é a creofilia que está de fato fazendo uma imposição. Imposição esta aos animais. A liberdade alimentícia dos humanos começa quando a vida do outro acaba ou é explorada.

Naturalmente, os creófilos têm carência de alteridade. Eles simplesmente não veem que aquele leitinho, aquele cosmético testado no coelho felpudo, tornou a vida de alguém miserável. Eles cobriram uma realidade e não querem vê-lo, por isso, talvez, eles sejam tão agressivos e hostis contra os defensores dos direitos animais e tudo que a eles é associado.

No final, os impositores são eles, que além de imporem suas preferências de consumo (além de caprichos culturais banais, como rodeios e vaquejadas), querem impor uma censura voluntária contra nossas manifestações de opinião. O diálogo não é o forte daquele que impõe, os creófilos são um belo exemplo disso.

(Fora essa questão animalesca, a creofilia também impõe situações perigosos a outros humanos. Quem fala lucidamente sobre o assunto é Allan Menegassi Zocolotto, em artigo publicado na Pensata Animal).

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