Opinião Vegana

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O mundo sob uma ótica vegana.

“Pode conter traços de leite”

21 de fevereiro de 2012 às 11:29

Ricardo Pichler CC-BY-NC-ND

A questão dos produtos que possuem, em seus rótulos, o aviso “Pode conter traços de leite”, e suas variações, sempre foi um caso controvertido entre os veganos. A maioria simplesmente consome esses produtos, mas há aqueles que são taxativos: “se pode ter leite, não consumo!” Para aqueles que consomem, esse aviso apenas serviria para os alérgicos, não havendo a necessidade de tamanho francionismo. Contudo, há pouca pesquisa real sobre esses rótulos para justificar esse pensamento.

As autoridade, nem a ANVISA, nem o Ministério da Saúde, não fazem nenhuma menção aos “traços de leite”; não existe lei disciplinando o assunto (ao contrário do glúten), só restando um projeto de lei. A conclusão de que esses termos são usados, de forma uniforme na indústria, para salvaguardarem-se contra possíveis problemas com os alérgicos não passa de especulação. Uma especulação com uma dose de bom senso [1], mas ainda uma especulação.

O oráculo contemporâneo nos revela a repetição de um pensamento, que não sabemos a origem nem procuramos sabê-la. Dos dez primeiros indicados, o primeiro afirma:

Os traços de leite são, na maioria das vezes, uma “contaminação” do produto, que passou por uma máquina onde foram fabricados produtos com leite ou derivados. Assim, eles acabam adquirindo quantidades mínimas desses ingredientes durante a fabricação. – Luciane Baldo.

(Reproduzido por ViSta-se e vegetarianismo.com.br.)

Continua-se repetindo o mesmo argumento:

Para as pessoas alergicas à alimentos existe um termo chamado Traços.
Traços é quando durante a preparação de um alimento ele é “contaminado” com pequenas partes de outro.” – Anne Summers.

Veja-se, pois, que não há menção sobre a referência testemunhal, documental ou oficial fundamentadora destes pensamentos. Ou estão nos ocultando esses dados cruciais ou simplesmente não passa de repetições (ou criação) de especulações.

O último site que consultamos é o Viva Veg Já, que possui como base um texto do orkut apógrafo – confessando que sequer procurou averiguar a veracidade da informação.

Apesar da flagrante ignorância real sobre a natureza dos “traços de leite”, não é lúcida a posição daqueles que afirmam: “Há leite, logo não como!”; isto pois não tange a questão, que é o especismo, a relação de dominação entre os seres humanos e os outros animais (no caso, bovinos). O que realmente está em questão não é se há este ou aquele derivado de animal, mas se se foi necessário o uso (incluso o extermínio) de animais para alcançar a feitura daquele produto.

Concluindo, não é possível afirmar, com a devida segurança, que “traços de leite” seja um fato acidental. A nebulosidade regulamentar exige uma atitude mais cautelosa, impondo uma pesquisa mais competente por parte daqueles que possuem melhor acesso à indústria alimentícia para solucionar a questão de forma apropriada.

 

[1] O bom senso nesse pensamento reside em normas do Código de Defesa do Consumidor, que dispõe que o consumidor deve ter sua saúde zelada (art. 4º, caput; art. 6º, I)  e que lhe deve ser fornecido informações precisas (“pode conter”, ao meu ver, não é nada preciso) sobre seus produtos (art. 31).

Obs.: se alguém tiver informações confiáveis que me contradigam, por favor, me avise nos comentários; sim, voltei mais cedo do que planejado.

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2 Comentários a ““Pode conter traços de leite””

  1. Cleber Spolavori diz:

    É indústria.. precisa dizer mais? se há “Pode conter traços de leite” no rótulo, é porque, no mínimo, esta indústria trabalha TAMBÉM com leite, logo com crueldade…
    Há quem defenda a tese de “quanto mais consumirmos produtos ‘de soja’ (ou sem leite) destas indústrias, mais eles verão que somos uma poderosa força de mercado” … devo rir, chorar, me escabelar?! nada.. deixa estar.. a tese é infundada, porque o sistema literalmente ‘caga&anda’ para reclamações/considerações que não venham como OBRIGATORIEDADE na forma de leis e/ou uma forte tendência mercadológica – quero estar vivo quando esta última acontecer…

    Fora isso, o bom senso deveria dizer NÃO a uma empresa que ainda lucra com a crueldade, não consumindo seus produtos para intolerantes a determinadas substâncias químicas apenas… SOMOS INTOLERANTES À CRUELDADE, menos que isso é seguir as regras do sistema, então consuma sem medo de ser feliz!!!

  2. Samory Santos diz:

    Cleber, seu posicionamento se aplica a distribuidoras? (Isto é, supermercados, mercados, etc., que comercializam pedaços de animais e afins.) Pois, se for aplicável, não vejo como ser aplicado; ou, se não for aplicável, não sejo o porquê de não o seja.

    Abs.

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