Opinião Vegana

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O mundo sob uma ótica vegana.

A tempestade e a “traição” felina

20 de outubro de 2011 às 11:37

Grande murmurinho tem sido feito por conta da declaração do Padre Marcelo Rossi, de que o sarcedote pessoalmente nutri desgosto por gatos, pois eles seriam “traiçoeiros”.

Conheço gatos, convivo com uma, sei que tal crítica não procede, ao menos aqueles que tive contato. Traição só existe quando existe uma deliberada quebra de confiança. Quem é traído por gato não sabe interpretar sua comunicação. Mas, normalmente tal posição advém da cultura popular, fonte de boa parte dos preconceitos contra não-humanos e humanos. Gerardo Furtado, em brilhante artigo sobre os preconceitos que a humanidade tem preservado contra os pequenos felinos, esclarece esse fenômeno de forma maestral.

Esclarecido que o que o padre falou é inverdade, que é comum, e que não defendo seu preconceito, parto para o que tem sido feito em relação a tal infelicidade.

Como se pode ver, Luiz Fernando Pegorer, através da ANDA, convocou os leitores a protestar contra o que ele chamou de  ”atitude grosseira e anticristã do Padre Marcelo.” Sem entrar no mérito da cristandade do Padre, por não ter conhecimento de causa para tanto, que grosseria tamanha foi feita para que seja merecido chamar a horda de “protetoras” e “defensores(as) dos Direitos Animais” ao ataque? O simples fato dele ter chamado os pequenos felinos de traiçoeiros, reproduzindo acriticamente uma concepção popular comum? Talvez a suposta (pois não vi o caso, tomei conhecimento através de Luiz) careta com a língua de fora tenha sido repugnante suficientemente para atiçar a raiva do ativista. Nada contra a pessoa de Pegorer, pois não o conheço, mas não acho que andou bem no gesto convocatório.

Fora a repercussão que essa nota, por si só, tomou (nada menos que 402 comentários até às 8:39 do dia 20 de outubro de 2011), criou-se uma petição para que o sacerdote se retrate! Tal petição está disponível na Petição Pública, para aqueles que queiram assiná-la, possui já 6161 assinaturas (até as 11:09 de 20 de outubro de 2011). Tem menos gente no grupo Veganismo do Facebook do que os assinantes desta petição (afinal, condenar um Padre por ter dito asneira é menos grave do que viver a base de “seres inofensivos”). Segue o texto da petição:

Nós, abaixo assinados, aguardamos a retratação pública do Padre Marcelo Rossi sobre sua declaração de repúdio a gatos na última missa de S. Francisco de Assis e em programas de rádio. Entendemos que mais do que um ser humano como qualquer um de nós, o padre é um representante da Igreja e uma figura pública que atinge milhares de pessoas com suas palavras e com isso pode gerar uma onda de ódio contra os felinos, que ao contrário do que o padre declarou, não tem nada de traiçoeiros. Não podemos deixar estes seres inofensivos serem atacados sejam com palavras ou por atos de pessoas que podem se influenciar pelas palavras deste padre que decepcionou inclusive a muitos de nós.

No momento em que afirmar que gatos são traiçoeiros, no Brasil, tiver potencialidade para “gerar uma onda de ódio” com os carnívoros domésticos, eu estarei morto, pois se tem figura pública e representante de instituições (tal como a Igreja) que fala coisa pior de ateus, afrobrasileiros, etc., é sem número. Gatos traiçoeiros já fazem parte do arsenal de preconceitos que o brasileiro médio tem. Declarar publicamente isso é apenas reforçar essa ideia equivocoda, tendo apenas como potencial manter o status quo contra felis catus, não “causar o ódio contra os gatos”.

Em resumo: todo esse murmurinho não passa de uma tempestade no copo d’água, que acaba por desviar de coisas mais sérias, tal como ir contra o preconceito popular contra os gatos (e não o preconceito de uma determinada figura pública), que começa em ações efetivas de educação com os vizinhos, colegas e familiares. Não é a palavra de uma pessoa que irá mudar o que não mudou (o desgosto aos pequenos felinos por puro preconceito).

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2 Comentários a “A tempestade e a “traição” felina”

  1. Cinthia diz:

    Olá!
    Lendo seu artigo, ficou claro o porquê de você não ter entendido tamanha reação.
    Você se conforma em manter o status quo do preconceito contra os animais porque outros preconceitos “piores”, de acordo com sua classificação mental, ainda existem. Ué, que os ateus e afrodescendentes façam seus movimentos também, por que não? E isso já acontece. Justamente porque uma coisa não impede a outra.
    E é ingênuo quando diz que a palavra de uma pessoa (ainda mais sendo uma figura pública e, pior, um padre) não corrobora para a violência contra os gatos piorar.
    É engraçado… quando os brasileiros não se movimentam em torno de uma causa, são criticados e tidos como ignorantes que só pensam em carnaval – você mesmo os denomina “brasileiros médios” no se texto. Já quando se movimentam, tem sempre um que dá um pitaco de que o assunto não é relevante, de que as coisas são assim mesmo…
    É justamente de gente assim que não precisamos! Sou a favor da livre expressão, mas isso não quer dizer que não há consequências em relação àquilo que se fala… na minha opinião, expressando-me livremente, seria melhor para o mundo que algumas pessoas fizessem uso do “direito” de ficarem caladinhas…
    Por fim, sinceramente, acho que esse texto não tem nenhum comentário ou porque não foi digno de atenção pelas pessoas ou porque as manifestações contrárias não foram publicadas.

  2. Samory Santos diz:

    Cinthia,

    Não irei refutar o seu comentário, pois a parte central (que seria ingenuidade minha ou não de que o que o padre falou vai ou não fazer diferença para o tratamento indigno que os gatos recebem em nosso país) não creio ser passível de discussão. É uma opinião tua em relação a minha pessoa e meu entendimento quanto ao assunto.

    Porém, por fim, o texto não foi comentado pois foi pouco visitado. O SEO desse post é baixo (e, na época, foi feito mais como desabafo). Manifestações contrárias que não me ofendam pessoalmente, que não são uma ameaça (“vou lhe matar”, etc.), ou que não são criminosos são publicados (e estimulados).

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