Opinião Vegana

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O mundo sob uma ótica vegana.

O verdadeiro, possível e falso veganismo

26 de agosto de 2010 às 19:01

Provavelmente uma das mais incômodas questões que envolvem a prática dos direitos animais é o grau de veracidade que as pessoas ditas veganas tem para com a ideologia que professam. Não trata de um policialismo ideológico, como algumas pessoas colocam. Trata-se da manutenção de um mínimo ético na práxis, que envolve terceiros (os animais).

Há quem diga que seja 100% vegano. Há quem diga que ser 100% vegano é impossível. Há quem acuse o outro de ser um vegano de borracha (aquele vegano que, por desleixo, acaba consumindo produtos antieticos), e também há quem duvide da sinceridade alheia. Picuinha a parte, esse é um problema real para quem é vegano em sociedade, sendo até tema de conversa com não-veganos que conhecem o conceito.

Quanto ao primeiro caso, devemos nos perguntar: o que é ser 100% vegano? O que seria ser um vegano pela metade? Ser vegano, atualmente, é adotar um estilo de vida em que não envolva a utilização de animais. Então, não daria para ser meio vegano. “Explorar os animais pela metade”, ou metade do que um creófilo faria… não, isso não é veganismo. Mas, realmente é possível viver sem meter nenhum animal na berlinda, atualmente no Brasil? Creio que seja impossível. Até o mais antissocial dentre os veganos acabará tendo que beneficiar um especista (por exemplo, indo até o supermercado, ou comprando sementes, ou vendendo hortaliças, ou alguma outra transação comercial com alguém que é declaradamente não-vegano). E aí é que o veganismo, nessa definição hermética e ahistórica, morre.

De fato, ser vegano atualmente no Brasil, não é simplesmente ter esse estilo de vida. É aspirá-lo e mover-se para que ocorra, e um desses movimentos é aproximar-se ao máximo desse modelo ético. Com efeito, todo vegano acaba sendo ativista, até o mais calado e “conformado” de todos eles. Ser ativista é uma exigência do contexto.

Então, ser verdadeiramente vegano, no seu sentido mais puro e abstrato, é tão possível quanto respeitar os Direitos Humanos no capitalismo (ou no socialismo): não é possível, por conta do contexto. Tem-se de aspirar atingir isso, lutar por isso e se aproximar ao máximo do modelo pretendido. Esse é o veganismo possível.

Mas, então o que seria o falso veganismo? Seria o vegano de borracha, aquele desleixado que não procura se informar sobre as coisas, vá de uma boa-fé questionável e acaba contribuindo para o especismo? Ou seria aquele protovegetariano que se diz vegano? Eu realmente não acho que seja nenhum dos dois. O vegano de borracha é vegano, só é desleixado… e o protovegetariano é um mentiroso. O falso veganismo é algo mais complicado que isso, e mais interno. Também justifica alguns tipos de ex-veganos que surgem por aí.

Considero falso vegano aquele vegetariano estrito que não compra produtos testados, nem couro, lã, seda, mel, etc. Isto é, uma pessoa que na prática é vegana (para nossos padrões éticos atuais). Mas pessoa esta que é especista. Um vegano especista é paradoxal, mas é possível em planos diferentes: ser vegano na prática e especista na mentalidade. Isso que considero um falso vegano, tal como o creófilo antiespecista é paradoxal e um falso creófilo… além de outras coisas mais.

Isso pode soar meio inverossímil, porém ao observar o discurso de alguns supostos veganos, dá para encher um balde de especismo. E não digo especismo nas formas mais bobas dele, tal como aquelas velhas e surradas expressões como pé de porco. Estou me referindo a uma visão antropocêntrica de mundo, mesmo.

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2 Comentários a “O verdadeiro, possível e falso veganismo”

  1. antero diz:

    o ponto fulcral e falsa justificativa de tudo é o antropocentrismo. tudo. Também identifiquei isso, mesmo não sendo vegana.

  2. Guia Veg – Blog Archive – O quê veganismo não é diz:

    [...] Ora uma autocrítica, ora uma crítica exterior, a ideia do vegano enquanto ser puro deve ser desmistificada pois, além de falsa, é impossível. Parte da ideia do vegano enquanto ser puro está baseada na ideia do verdadeiro vegano, isto é, que o vegano de verdade não possui nenhum vínculo de ajuda junto a qualquer forma de especismo. Sabemos que isso é impossível devido ao contexto histórico em que vivemos, tal como eu expus em O verdadeiro, possível e falso veganismo. [...]

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