Opinião Vegana

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O mundo sob uma ótica vegana.

Arquivo de julho, 2010

A questão humana e o anarquismo

sexta-feira, 23 de julho de 2010

O símbolo da Veganarquia, de Brian A. Dominick.

O veganismo é uma prática moral que preza pela valorização da subjetividade dos animais não-humanos, evitando assim os abusos inerentes a objetificação dos mesmos. Contudo, tal definição per si seria especista. Por que não incluir nesse discurso a humanidade? Afinal, não existiria diferenças tão relevantes que permitiriam que o ser humano tivesse o ônus de poder ser, para conveniência de outrem, objetificado. Portanto, vejo que um dos maiores problemas teóricos de qualquer concepção que funda o veganismo, é a questão dos seres humanos.

Como exemplo de concepção fundamentadora do veganismo, irei usar a teoria reganiana de Direitos Animais. Logicamente, devido a brevidade deste post, não pretendo nem ouso resumir uma teoria tão extensa quanto a de Tom Regan, mas procurarei fazer o máximo para sintetizar a ideia do filósofo americano no parágrafo a seguir:

O problema do especismo é que os humanos acabam por ver os animais não-humanos como meros meios para atingirem seus fins. Assim, o animal acaba por ser objetificado, sendo tratados como objetos e não como sujeitos-de-uma-vida que são. Por assim serem enxergados pela humanidade, o status moral deles se equivale a de, por exemplo, um relógio ou qualquer outro ente inanimado. Isso conduz a violação sistemática de seus direitos.

Como leitura rápida para compreender a teoria de Regan, recomendo o artigo O caso dos direitos animais. Para uma explicação mais minuciosa, recomendo Jaulas Vazias, do mesmo autor.

Agora, transpondo tal linha de raciocínio para seres humanos, no que daria? Afinal, dentro de diversas relações humanas, outros humanos são encarados meramente como objetos, funcionários (entes que exercem uma função dentro de um sistema) ou números, que possuem como fim serem usados como meio para atingir um objetivo que lhes é estranho. A própria relação trabalhista ilustra muito bem isso: o trabalhador é usado por seu patrão como meio para aumentar seu patrimônio. Essa relação oblitera a subjetividade do ente objetificado, o que permite sua espoliação de forma moral (que, de fato, acontece).

Porém, essa análise carece de duas noções importantes e de grande relevância: enquanto os animais não-humanos, via de regra, são interrogados se consentem serem tratados como meios para fins (fins estes que muitas vezes envolve sua própria aniquilação enquanto ser senciente), o animal humano normalmente é interrogado se o consente (salvo o trabalhador forçado em suas diversas modalidades). O consentimento, então, legitimaria moralmente essa objetificação do animal humano?

Além disso, nas próprias relações de consumo o humano acaba por se tornar um meio: o consumidor é, em geral, para o produtor apenas um meio para seu enriquecimento. Numa visão mais radical, não importa muito que o consumidor é ou não um ser humano, apenas que ele é um número, um bolso, um instrumento para a realização dos interesses do produtor, que é seu próprio enriquecimento. A satisfação do consumidor, então, é meramente acidental.

Ajuntando-se a problemática das relações trabalhistas e, sua semelhante, relações de consumo, pode-se ver que a crítica respinga na legitimidade da organização estatal.

O Estado exerce, por definição, forças coercitivas sobre determinada sociedade. Sua legitimidade, contudo, não é incontestável (apesar de pragmaticamente o ser). Qual é a legitimidade das leis que lhes são impostas sem sua participação em sua elaboração? Ao meu ver, teriam caso houve um deslocamento livre e de sua vontade para o campo de influência normativa desse Estado. Mas, e no caso de você simplesmente nascer lá?

Naturalmente, tais problemas não foram simplesmente deixado de lado. Há quem refletiu acerca deles, antes mesmo do veganismo, encontrando uma diversidade de soluções. Uma dessas soluções foi o endereçamento das três problemática por uma abordagem anárquica, ou seja, anti-coercitiva e libertária. Por sinal, a única escol política vegana é anarquista, o Veganarquismo, que entende que a abolição do especismo faz parte da Revolução Social necessária para a efetivação de um status anárquico. Um lema veganárquico muito difundido é “Libertação Animal e Humana”.

Não é, portanto, a toa que há diversos termos anárquicos e tendências libertárias no Movimento dos Direitos Animais, sobretudo aqui no Brasil. Termos como Ação Direta, Autogestão, a grande fragmentação de organizações, o ativismo independente, etc. Tudo possui uma ligação histórica e conceitual com o anarquismo em suas diversas formulações. Creio que não seja absurdo cogitar dizer que metade dos veganos brasileiros ou são anarquistas ou tendem ao anarquismo e outras formulações libertárias.

Para saber mais sobre anarquismo, recomendo um artigo esclarecedor do blogue do Coletivo Anarquista de Piracicaba e Região (coletivo este que está engajado com a causa antiespecista) sobre o tema.

Protovegetarianismo e vegetusianismo

terça-feira, 20 de julho de 2010

O tradicional pão-de-queijo mineiro faz parte da dieta vegetusiana e protovegetariana. Foto de minha autoria.

Nos últimos meses pude acompanhar o desenvolvimento de dois novos termos para denominar os vegetaristas, ou ovo-lacto-vegetarianos: o vegetusiano, de Sônia T. Felipe, e o protovegetariano, da Sociedade Vegana. Apesar de convergir em designar praticamente o mesmo grupo de pessoas, ambos não possuem necessariamente o mesmo valor semântico.

O Vegetusiano felipense tem um vínculo, bem explícito, com a palavra latina vegetus. Para melhor esclarecimento, eu cito a própria eticista que cunhou o termo: “Se fosse verdade que a palavra inglesa vegetarian derivasse do latim, conforme querem os “ovo-lacto-api-vegetarianos” conservadores, a palavra não poderia ter sido escrita desse modo, deveria ser: vegetusian. Em português deveria ser, então, vegetusiano.”. Como ela discute em Ética, dietas e conceitos, é muito propagado pela mídia vegetarista (e mesmo vegana) que a origem do termo vegetariano não é vegetal, mas sim vegetus. Vegetus é vigoroso, saudável, em latim. Assim não há de nada estranhar “vegetarianos” consumirem coisas além de vegetais (tais como leite e ovos). Como a eticista colocou em seu artigo, essa tese é um tanto quanto minada pela própria natureza da língua, que teria conduzido ao termo vegetusiano.

Vegetusiano seria, portanto, o vegetarista cuja motivação pela dieta é a manutenção de sua saúde, nada mais além do que isso.

Já o protovegetariano da Sociedade Vegana trata da mesma problemática. Contudo, como bem explica o artigo homônimo, o novo termo tem uma ligação com o vegetarianismo ético. Trata-se de uma concepção de uma dieta que tende conceitualmente ao vegetarianismo ético e a abordagem abolicionista do animalismo. Portanto, é um termo que concebe o vegetarismo enquanto momento de transição, havendo perspectiva de ser um antecedente para o vegetarianismo de verdade.

O vegetusianismo de Sônia não acabou ganhando popularidade: numa rápida pesquisa no Google, constatei que o termo apenas tinha 149 referências. Enquanto isso, o mais recente protovegetariano já goza de 1,700 achados. Talvez o otimismo semântico do primeiro quanto a abolição do uso dos animais seja o motivo de tal popularidade. Mas apenas o tempo dirá quando protovegetarianismo se tornará o termo corrente para denominar os ovo-lactos, que gozam de quase 70 mil achados no Google (sem contar a palavra “vegetariano” isoladamente).

“Mas você gosta dos animalzinhos!”

domingo, 11 de julho de 2010

Uma amante de animais. BY-NC-SA Hop-Frog.

Há algo no pensamento especista comum que acho peculiar, e até mesmo uma barreira para a causa: o pensamento de que ter uma afeição para com os animais não-humanos é pré-requisito para adotar-se uma postura anti-especista.

Naturalmente, o especista que crê nisso acredita não ser sua obrigação moral adotar uma postura anti-especista. É mera questão de gosto, de afinidade, sendo uma obrigação moral apenas para os tais amantes de animais, os protetores de animais, etc. Qualquer discurso que não trate sobre essa questão será interpretado como não dirigido a ele, mas sim aos famosos amantes de animais “hipócritas”.

Mas, afinal, quantos anti-especistas foram categorizados como amantes de animais somente por não os danar? Acredito que todos eles já foram, não só pelos especistas mas também por alguns anti-especistas que realmente amam os animais. Eu particularmente sou assim categorizado regularmente, provavelmente pelo menos duas vezes por mês.

Então, qual seria o pensamento atrás desse equívoco de tanta gente?

Creio que seja a ideologia da “Ética do Afeto”. Ética do Afeto, seria, nesse contexto, a ideia de que a moralidade se fundamenta nos laços de afeição entre os sujeitos morais. Em outras palavras: há obrigação de se adotar um atitude ética apenas para com aqueles com quem se tem afeição. Aos outros não há essa obrigação, podendo fazer-se o que quiser sem ser injusto. Afinal, a medida de justiça apenas existe para com os afetos. Há, também, quem diga que a boa ação aos outros é apenas um lucro, não havendo ônus para aquele que causa dano.

Uma boa representação dessa ideologia é a hierarquia moral que algumas pessoas criam, em que elas próprias são o topo da pirâmide e as plantas, animais “de criação” e matéria insensível é a base. Pode variar. Por exemplo, se for um nacionalista, a nação talvez seja o topo da pirâmide. Contudo, a ideia é praticamente a mesma.

Esse pensamento pode ser “justo” em casos extremos, como a alegoria da ilha deserta (“Se você tivesse sozinho numa ilha deserta com X, você mataria e comeria X? Se essa fosse sua única opção para sobreviver?”). Porém, para a situação normal, em que há opções mais justas em uma ótica de uma Ética do Respeito, não é justo de forma alguma fundamentar sua moral na afeição que tem por outrem.

Na teoria, esse pensamento possuiria resultados temíveis: se um especista padrão é indiferente aos animais não-humanos e os obliteram indiretamente, mas conscientemente regularmente, qual seria a previsão de seu comportamento diante de um inimigo? Algumas soluções são a “reserva de afeição” (“Até o pior inimigo humano é afetivamente superior ao mais querido não-humano domesticado.”) e outras tantas soluções demasiadamente especistas que acabam por ainda não solucionar o problema.

Eu não simpatizo de forma alguma com essa linha de raciocínio que, digo mais uma vez, me parece equivocada. Uma ética tem de ser fundamentada na alteridade, no respeito e na consequência de suas ações. Mas isso é assunto para outro post.

Do boicote aos artistas que apresentam em rodeios e às empresas que os patrocinam

quinta-feira, 8 de julho de 2010

A Minerva patrocina o Rodeio de Barretos. CC-BY Gerardo Lazzari.

Antes de iniciar a discussão, quero deixar claro que quando digo boicote, não estou me referindo a se abster de produtos que diretamente estão relacionados ao especiesmo. Me refiro sim ao boicote aquilo que não tem relação direta ao especismo. Falar de abstinência de produtos relacionados diretamente com o especismo é pleonasmo num post vegano.

Portanto, indo ao que interessa:

Alguns veganos boicotam, por exemplo, algumas marcas de bebidas alcoólicas por patrocinarem rodeios. Outros boicotam artistas que se apresentam nesse tipo de evento. Há quem, inclusive, condene algumas coisas (ex. tabagismo) por não haver opções que não tenham um pé dentro desse tipo de evento.

A lógica para eles é simples: se é pilar de sustentação do especismo, vive dele e logo tem que ser combatido através da não-participação e do boicote.

Creio que esse pensamento seja equivocado. A propósito, normalmente quem faz campanha por esse tipo de boicote é injusto, se não hipócrita. Isso pois raramente essas pessoas não deixam de fazer algumas exceções tácitas. Não vejo campanhas de boicote, nesses termos, dirigidos ao cartão de crédito Visa ou às lojas de departamento Casas Bahia. Ambos patrocinam rodeios.

Outro problema dessa lógica possui uma conclusão que raríssimas vezes vi alguém defendendo (provavelmente por ser impraticável): que nós devemos boicotar os especistas. Exatamente, boicotar todos os especistas! Afinal, todos eles são os pilares do especismo. Sem especistas, não há especismo… (seria essa frase o prólogo de um fascioveganismo?). Obviamente, isso é impossível. Não dá para viver sem especistas… por enquanto.

Agora, explicando o motivo pelo qual entendo que seja um boicote equivocado:

No caso das empresas, o patrocínio possui um conteúdo basicamente financeiro. Não faz parte das atividades delas (quando limita-se a análise apenas do produto o qual você está consumindo, é claro) a prática direta do especismo. Como o fim do boicote é uma representação ou uma efetiva ação contra o especismo, faz tanto sentido boicotar uma patrocinadora de rodeio quanto um advogado creófilo. Não é a mesma coisa que boicotar uma empresa que testa. Vale mais a pena, e faz mais sentido, lutar pela causa abolicionista, por uma educação vegana que possibilite a mudança de paradigma ético-cultural que os Direitos Animais exigem, do que ficar boicotando a Schin por conta disso.

Quanto aos artistas que se apresentam nos eventos, há dois casos: o econômico, que é o mesmo do patrocinadores; e o ideológico. Bandas e artistas especistas, que ganham sua vida propagando a ideologia especista, não merecem ser boicotados por apresentarem num paraíso especista. Esses devem ser boicotados por serem propagadores da ideologia especista, simplesmente por isso.

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