Opinião Vegana

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O mundo sob uma ótica vegana.

Querido blogue…

18 de junho de 2010 às 11:53

Querido blogue,

Recentemente, algo muito curioso aconteceu comigo.

Fui almoçar, encontrei um conhecido, que encontrou outro conhecido. Esse meu conhecido me apresentou como vegano, eu disse “oi” e fui comer minha comida (que estava muito boa, por sinal). Logo depois disso, esse conhecido do meu conhecido (que simplesmente chamarei de “ele” para o restante do artigo) confessou algo: deixou de ser protovegetariano. No final das contas, ele descobriu que dá para ser saudável comendo peixe, de vez em quando.

Como ele nunca deu a mínima para os animais, pois é natural que os mate, visto que eles matam uns aos outros. Meu conhecido o rebateu argumentando que se fosse assim, homicídio, estupro, infanticídio (contribuição minha), por ser natural.

Depois ele começou a criticar os vegetarianos por se acharem bons, etc, etc.

No final, os dois entraram num consenso baseado na espiritualidade oriental.

Att.

Samory Santos.

Assim, eu queria compartilhar isso com vocês para apontar alguns problemas que podem ter causado a indignação prévia (pois, aparentemente, ele estava me criticando por associação).

Primeiramente, vemos a questão da saúde: “Seja vegano por você.”

Quem não estudou um pouco mais sobre, por exemplo, taxas de mortalidade de populações vegetarianas e creófilas pode ficar simplesmente colocando veganismo como uma panaceia para os problemas de saúde da contemporaneidade. Não é bem assim. Populações que se alimentam de peixe tendem a ser mais saudáveis do que veganos e outros creófilos. O apelo pela saúde pode funcionar com pessoas que se importam muito com sua saúde, mas não a todos. Prova disso é o tabagismo. Quem não sabe que fumo causa n doenças? Outro exemplo é o sedentarismo. Agora, não entrarei no debate que não buscar pela saúde eticamente viável seja uma obrigação moral do indivíduo para consigo mesmo (um pensamento que eu discordo). Porém, devo confessar que é um tipo de apelo egoísta que não serve de nada para os animais.

A segunda questão é da bondade: “Veganos são bons.”

Eu nunca vi alguém ostentar essa ideia. Talvez seja confusão do próprio argumento ético. que pode ser entendido nesse temo: quem explora os animais é ruim, logo quem não os explora é bom. É um equívoco. Quem não explora os animais não é bom. É indiferente. Mas quem os explora é “ruim”. Ser “bom” é fazer coisas boas, não deixar de fazer coisas ruins.

A terceira questão que vi nesse discurso é o naturismo: “O natural é bom!”

Esse é um argumento velho, surrado, usado para qualquer coisa que você puder imaginar. Homossexuais eram condenados moralmente por agirem contra a natureza. Isto é, o que não é natural é imoral. Esse discurso, se realmente fosse usado de forma sincera, iria inviabilizar a civilização (e a quem o faça), pois a civilização é antinatural. Contudo, o ponto fraco desse discurso é simples: o que natureza tem a ver com moralidade? Não tem nenhuma ligação.

E a quarta, e última, questão é a de agir como terceiros agiriam, e não como você mesmo agiria: “Faço como eles fazem entre si.”

Obviamente, tenho que distinguir em grupos artificias os humanos e os não-humanos, e homogeneizá-los para que isso faça sentido. A lógica é a seguinte: eu mato pois eles matam entre si. Problema desse discurso é que não faz o menor sentido (então vou mutilar as genitálias dos somalianos pois eles mutilam um dos outros?) e, pior, atinge quem não tem nada ver. Se fosse para justificar a matança de animais carnívoros e onívoros, teria uma lógica interna, mas quando se expande para os animais herbívoros (ovinos, galináceos, os mais cobiçados), qual é a lógica interna? O simples fato deles serem membros do grupo amorfo e abstrato chamado “animais”? Não, eles não matam outros de seus semelhantes para comerem.

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