Da morte intencional e da morte acidental
quinta-feira, 27 de maio de 2010Algo que muitos creófilos insistem em não querer tomar em consideração, ao partir para o alfascismo, é a distinção entre a morte intencional e a morte acidental a nível moral. Isto é, se houve intenção de matar ou não. No caso de instituições, se é inerente a sua atividade a matança (isto é, se a matança é o fim da atividade ou se ela é meio para este).
No caso dos Direitos Animais, há uma relevância distintiva de quando se mata com intenção e de quando a intenção não se encontra presente. A morte não intencional (acidental) é escusável, a intencional não o é. O mesmo ocorre quando não existe escolha, a exemplo dos esquimós, dos tutores de animais carnívoros em lugares onde não haja ração vegana para estes. Quando se mata sem escolha, apesar de haver intenção, não se pode pedir comportamento diferente deste.
Essa distinção é importante ao analisar o contra-argumento creófilo (muitas vezes alfascistas) de tudo ou nada. Isto é, se você não poupa a vida de todos os animais que teoricamente você poderia, você é um hipócrita. É verdade que, na vida, é impossível não cometer algum dano desnecessário a outro ser senciente. A própria existência implica em diversos danos a outros seres sencientes, tanto positivamente quanto negativamente. Porém, apenas danos que se comete com intenção, e sem a possibilidade de escolha, podem ser consideradas imorais. Naturalmente, o vegano que não distingue esses dois casos é hipócrita. Contudo, aquele que reconhece essa distinção não tem como ser considerado um “hipócrita”. Ele pode também simplesmente não ser vegano, mas não um hipócrita. (Nesses termos, uma hipocrisia implicaria na não correspondência com o termo que designa).
Contudo, antes que alguém venha com uma conclusão que supostamente está de acordo com esse meu posicionamento, que permita a creofilia, contra-argumentarei previamente: quando se tem conhecimento de que algo causa dano, podendo haver escolha, participar nela de alguma forma que justifique sua existência ou a continuidade desse dano é imoral. Podendo alguém escolher, denota a aprovação e aí é que reside a imoralidade do ato.
O mesmo se aplica a caso dos Direitos Humanos. Você tomando conhecimento que empresa X, que produz artigo Y, pratica trabalho escravo, podendo optar pela empresa Z que produz o mesmo artigo, e não fazendo isso, acaba por ser imoral (e mesmo hipócrita, caso você reconheça a imoralidade do trabalho escravo). Mas, se a morte de pessoas acaba por acontecer em algo, por fato alheio a sua vontade e de que não é parte inerente, não há imoralidade. Exemplo disso é o sistema viário, que leva muitas pessoas à morte, mas que ninguém deixa de usá-lo ou chamar outro de hipócrita por usá-lo.





