Opinião Vegana

|

O mundo sob uma ótica vegana.

Arquivo de maio, 2010

Da morte intencional e da morte acidental

quinta-feira, 27 de maio de 2010

Esquimó groenlandes em 1854, por Edward Augustus Inglefield.

Algo que muitos creófilos insistem em não querer tomar em consideração, ao partir para o alfascismo, é a distinção entre a morte intencional e a morte acidental a nível moral. Isto é, se houve intenção de matar ou não. No caso de instituições, se é inerente a sua atividade a matança (isto é, se a matança é o fim da atividade ou se ela é meio para este).

No caso dos Direitos Animais, há uma relevância distintiva de quando se mata com intenção e de quando a intenção não se encontra presente. A morte não intencional (acidental) é escusável, a intencional não o é. O mesmo ocorre quando não existe escolha, a exemplo dos esquimós, dos tutores de animais carnívoros em lugares onde não haja ração vegana para estes. Quando se mata sem escolha, apesar de haver intenção, não se pode pedir comportamento diferente deste.

Essa distinção é importante ao analisar o contra-argumento creófilo (muitas vezes alfascistas) de tudo ou nada. Isto é, se você não poupa a vida de todos os animais que teoricamente você poderia, você é um hipócrita. É verdade que, na vida, é impossível não cometer algum dano desnecessário a outro ser senciente. A própria existência implica em diversos danos a outros seres sencientes, tanto positivamente quanto negativamente. Porém, apenas danos que se comete com intenção, e sem a possibilidade de escolha, podem ser consideradas imorais. Naturalmente, o vegano que não distingue esses dois casos é hipócrita. Contudo, aquele que reconhece essa distinção não tem como ser considerado um “hipócrita”. Ele pode também simplesmente não ser vegano, mas não um hipócrita. (Nesses termos, uma hipocrisia implicaria na não correspondência com o termo que designa).

Contudo, antes que alguém venha com uma conclusão que supostamente está de acordo com esse meu posicionamento, que permita a creofilia, contra-argumentarei previamente: quando se tem conhecimento de que algo causa dano, podendo haver escolha, participar nela de alguma forma que justifique sua existência ou a continuidade desse dano é imoral. Podendo alguém escolher, denota a aprovação  e aí é que reside a imoralidade do ato.

O mesmo se aplica a caso dos Direitos Humanos. Você tomando conhecimento que empresa X, que produz artigo Y, pratica trabalho escravo, podendo optar pela empresa Z que produz o mesmo artigo, e não fazendo isso, acaba por ser imoral (e mesmo hipócrita, caso você reconheça a imoralidade do trabalho escravo). Mas, se a morte de pessoas acaba por acontecer em algo, por fato alheio a sua vontade e de que não é parte inerente, não há imoralidade. Exemplo disso é o sistema viário, que leva muitas pessoas à morte, mas que ninguém deixa de usá-lo ou chamar outro de hipócrita por usá-lo.

O churrasqueiro vegano

terça-feira, 25 de maio de 2010

Na China, um vegano legal compraria carne de cachorro para seus familiares e amigos. Foto por Andy Doro, CC-NC-SA

Vocês não leram errado, eu realmente escrevi “o churraqueiro vegano”. E não, não é o sojasco que estou falando, é o velho e tradicional churrasco creófilo regado a muito sangue e sal grosso. Eu sei, é um paradoxo, mas é exatamente disso que quero falar agora.

Veganos, por definição, são insuportavelmente chatos para os creófilos. O simples fato de você evitar colaborar para a máquina especista incomoda quem está mergulhado nela (pois isso demonstra uma intolerável discordância sua, que não pode ser simplesmente aceito no silêncio). Mas há como você, meu caro colega vegano, se redimir! Seja um vegano legal.

Porém, o que seria exatamente um vegano legal? Um vegano que não enche o saco alheio? Claro que não. Veganos enchem o saco passivamente, isso é um fato, tem-se que fazer algo para compensar seu enchimento de saco passivo.

Um vegano legal tem que participar da máquina especista (… seria realmente um vegano? Ou uma pessoa muito confusa? Aposto na segunda hipótese). Ele tem que ir ao Zoológico com os especistas, tem que ir a Rodeios, Vaquejadas, comer uma salada (e pagar uma fortuna para comer uma comida fraca e provavelmente contaminada) numa churrascaria, tem que ir pescar e até mesmo assar a carne alheia (isso acontece com maior frequência que você imagina, meu caro).

O vegano legal pode vir em várias embalagens, a saber: o veganoflex (não é vegano quando não é conveniente, Peter Singer é um), o vegano não antissocial, o vegano egoísta (que é vegano para si, e não importa que os outros trucidem os animais), o vegano pessimista acomodado (os creófilos nunca vão mudar, então vou me calar) e o vegano participativo (aquele que participa das ocasiões especistas).

Antes que alguém venha me pentelhar a respeito: eu não estou querendo dizer que todo vegano tem que ser ativista 24hrs/7dias por semana. Não é o caso. Mas todo vegano tem que, caso seja oportuno, ser ativista e não participar dessas atrocidades.

Ser um vegano legal é um paradoxo. É não-ser vegano. Então, seja chat@.

O paradigma antropocêntrico e a indignação

terça-feira, 18 de maio de 2010

Protesto contra a absolvição em tribunal de Madrid. CC-BY-NC Jaume d'Urgell.

Quem não se sente indignado ao ficar sabendo da morte violenta de um animal humano? Okay, provavelmente não muitos diante da nossa já atual banalização da violência, mas quem não acredita ser a coisa mais imoral a ser feita (a não ser aqueles que executam o ato em si)? Creio que a maioria de nós acha que a morte de um animal humano seja algo estupidamente grave. Há quem defenda que quem faça isso deva ter sua existência também extinta (pena de morte).

Naturalmente, a maioria dos especistas acha moralmente aceitável a maioria das modalidades mortes que eles promovem aos animais. Eu já cansei de escrever isso aqui, e acredito que qualquer vegano esteja cansado de saber desse fato. Só quem vive na Veganolândia pode dar ao luxo de achar que isso não é um fato… e bem, Veganolândia não existe.

Mas agora, quero por em dúvida alguns atos e pensamentos que veganos conduzem que vai meio contra a própria ideia antiespecista. Não me deixarei fugir do contexto, mas vou abstrai-lo inicialmente.

Os antiespecistas acham um absurdo a matança de animais, não tenho dúvida. Mas acharíamos tão absurdo quanto a matança de humanos? E se assim não for, sob a justificativa da semelhança (argumento que é utilizado pelos especistas), haveria implicações da indignação ser maior quando o ser obliterado em questão é de sua própria etnia, nação, gênero, classe social, profissião ou outro grupo em que haja identidade consigo?

Espero que não.

Porém, a implicação de uma negativa iria ir de encontro com o especismo. Isso é especismo, simplesmente.

Agora, dentro de nosso contexto social, não podemos demonstrar nossa indignação com a mesma facilidade a qual podemos fazer quando se trata de vítimas humanas. É completamente aceitável em nossa sociedade demonstrar repulsa por quem mandou matar algum humano, mas a própria reprovação do equivalente quando se trata de animais não-humanos é um gerador de repulsa.

É nesse contexto que surge o papo-de-creófilo de que veganismo é uma opção moralmente igual a creofilia, e assim não há de se haver desrespeito. Obviamente não é o caso, não são moralmente equivalentes. A creofilia não é digna de respeito (veja bem, eu não falei que o os creófilos não sejam, mas a creofilia per si), nem outras coisas que são moralmente repreensíveis ao extremo (a exemplo do senciocídio).

O paradigma antropocêntrico naturalmente tolhe a liberdade social dos veganos demonstraram sua indignação. Até mesmo a exposição da nossa existência pode ser considerada como uma afronta a esse modelo moral torpe, contra o núcleo dele que consiste no biocentrismo antropocêntrico. Naturalmente, cabe a nós lutarmos contra esse paradigma especista. Pelo menos, em nome de nossa liberdade de expressão social (sobretudo frente as forças mais especistas que se encontram nos discursos reacionários da população em geral).

A Milícia dos Direitos Animais e o Departamento de Justiça

sábado, 15 de maio de 2010

A Milícia dos Direitos Animais surgiu na década de 1980, com uma carta bomba dirigida a Margaret Thatcher, no Reino Unido.

Similar organizacionalmente, a Milícia dos Direitos Animais (ARM, em sua sigla em inglês) é uma reação a estância “moderada” que consideram que a Frente de Libertação Animal tomou ao adotar os princípios que enumerei no dossiê sobre a Frente. Na verdade, a Milícia não possui nenhuma cartilha de princípios. A organização simplesmente é uma ideologia, sem manifesto nem nada, que se resume a ideia de que qualquer violência é aceitável quando o fim é a libertação animal.

Isto é, se alguém explodir uma churrascaria com seus clientes e funcionários lá dentro, é um atentado da Milícia.

Por sua vez, o Departamento de Justiça também surgiu no Reino Unido, com um atentado a um biotério no natal de 1993. De modo similar, o Departamento se propõe a aterrorizar pessoalmente os especistas diretos, utilizando de atentando de bomba. Ao contrário da Milícia, o Departamento justifica essa ação baseada na ideia de auto-defesa estendida: isto é, que humanos têm o direito moral de agir em defesa dos animais.

A Frente de Libertação Animal

quinta-feira, 13 de maio de 2010

Talvez a segunda organização animalista mais conhecida do mundo, só perdendo para a PETA, a Frente de Libertação Animal (ALF, em sua sigla em inglês) é um grupo considerado como terrrorista pelo governo dos EUA, apesar de (por definição) nunca ter machucado ninguém.

Surgiu no Reino Unido no final da década de 1970, inicialmente restringindo-se a sabotagem de caçadas, logo extendeu-se a todo tipo de ação abusiva direta contra os animais.

O que é

A ALF é uma organização sem líder, sem estrutura, sem hierarquia, consistindo apenas dos ativistas que agem de forma isolada seguindo uma série de princípios, na tradução de Bruno Müller:

1. LIBERTAR animais de lugares de abuso, i.e. laboratórios, fazendas-fábricas, fazendas de peles, etc., e alocá-los em bons lares onde possam viver suas vidas naturais, livres de sofrimento.

2. INFLIGIR dano econômico àqueles que lucram com o sofrimento e exploração dos animais.

3. REVELAR o horror e as atrocidades cometidas contra animais por trás das portas trancadas, por meio da prática de ações diretas não-violentas e libertações.

4. TOMAR todas as precauções necessárias para não ferir qualquer animal, humano e não-humano.

5. ANALISAR as ramificações de todas as ações propostas, e nunca aplicar generalizações quando uma informação específica estiver disponível.

O que faz

A Frente faz ações diretas contra aqueles que ganham com a exploração animal. Causar dano econômico contra simples creófilos não está dentro do objetivo da Frente. A Frente apenas alveja os especistas diretos.

Quem participa

Qualquer vegano ou vegetariano (incoerentemente incluido) que fizer uma ação direta que siga os princípios da organização pode ser considerado parte da Frente.

Críticas

Gary Francione escreveu um artigo que critica sabiamente a Frente. Sobre vegetarianos na Frente, ele afirma:

[...] é para lá de desconcertante, para mim, o fato de que alguém possa dizer que pessoas que estejam, elas próprias, ativamente envolvidas na exploração animal possam pensar que seja sequer aceitável a ideia de que devam praticar atos de violência contra outras pessoas envolvidas na exploração animal.

Fora isso, Gary Francione coloca que

Argumentei, com frequência, que quem apoia a violência não pode afirmar, coerentemente, que temos de dirigir ataques contra os exploradores institucionais, porque somos nós, os consumidores, que criamos a demanda por produtos animais.

A Milícia dos Direitos Animais, por sua vez, faz uma crítica inversa da de Gary Francione. Mas essa crítica será tema do dossiê da própria Milícia, pois é isso que a diferencia da Frente.

Série Dossiê Institucional Internacional

terça-feira, 4 de maio de 2010

Nos próximos dias irei fazer uma série de artigos sobre instituições animalistas (bem-estaristas ou não) internacionais.

Pode esperar por artigos sobre as famosas (e ao mesmo tempo infames) organizações terroristas, a Animal Liberation Front, a Animal Rights Militia, a Justice Department, para começar.

Pretendo também contemplar a People’s for Ethical Treatment of Animals (PETA), a Sea Shepherd, a Humane Society, a WSPA e outras singlas igualmente infames.

Não posso dizer que serei imparcial, esse não é nem sequer meu objetivo. Ainda assim, buscarei fazer uma análise geral de cada organização, mas de forma crítica.

Seria veganismo uma religião?

segunda-feira, 3 de maio de 2010
Jesus Cristo

CC-BY-SA Toby Hudson

Algo que talvez seja tão comum quanto “e a plantas?” e “de onde você tira suas proteínas?” é dar a entender que veganismo, Direitos Animais e tudo mais não passam de religião ou uma seita (pois quão mais pejorativo, melhor). Bem, como coloquei no artigo O que é veganismo, veganismo é um modo de vida embasado nos Direitos Animais. Portanto, não existe fé vegana, não existe explicações metafísicas veganas, nenhum elemento religioso vegano. Apenas existe Ética Animal e fim. E religião não é feita somente de ética. Se assim fosse, todos seriam religiosos, e não é o caso.

Mas então, o que realmente aqueles que chamam Veganismo e associados de religião querem dizer (quando estão utilizando de licença poética): que veganismo é dogmático, possui um cânone, que possui instituições, etc. Exemplo de “dogma vegano” seria a concordância entre os veganos de que animais não-humanos têm direito à vida e à liberdade. Exemplo de “cânone vegano” seria Libertação Animal ou Jaulas Vazias. E instituição vegana seria, pode rir, o PETA. Obviamente, nossos veganiques seriam analogicamente os cultos (a quem?) e tudo mais.

Não posso negar que haja veganos dogmáticos, pois existem.

Porém, esse papo todo, de que veganismo, vegetarianismo (!), Direitos Animais, etc, é religião, não passa de uma grande bobagem.

Não existe dogma, cânone, instituição nem nada disso. Veganismo não é religião, nunca foi e dificilmente se tornará (precisa de tantos elementos para virar uma que é mais fácil criar uma religião vegana do que transformar o conceito).

Switch to our mobile site