Veganismo: socialismo perfeito?
quarta-feira, 28 de abril de 2010Hoje soube, através do orkut, da existência de um artigo que coloca que o vegetarianismo total, que irei denominar de veganismo por pura conveniência, como passo inicial rumo ao socialismo perfeito. Não irei entrar no mérito do “socialismo perfeito”, mas sim a relação entre veganismo e socialismo exposto no artigo do “Camarada Servidor Público Federal”.
O artigo se inicia assim:
?A camarada Olga me sugeriu que discorresse sobre uma de “suas” (nossas) idéias sobre o vegetarianismo. Ela disse, em nome do Povo e do Estado, que os vegetarianos têm uma ideologia muito bela, mas que ainda não decidiram expandi-la aos seus limites lógicos.
Apesar de minha natural tendência de achar que isso é um deboche (como assim, em nome do Povo e do Estado?) irei tratar como se sério fosse. Olga pelo visto fala na ignorância, pois os vegetarianos não têm uma ideologia. Temos várias, muitas, antagônicas e tão diversas que só a tentativa de catalogá-las rende uma enciclopédia. Posso falar do Abolicionismo Animal de Regan, de Francione, o Libetarismo Animal de Singer (ou Uma Perspectiva Utilitarista da Questão Animal se quiser assim chamar), o Bem-Estarismo Animal, o Neo-Bem-Estarismo Animal e o próprio deslavado Especismo em suas diversas modalidades. Fora isso, alguns já decidiram a expandir, a exemplo do Ecoveganismo (certo, isso foi depois de 2007).
Assim segue o artigo:
Como os camaradas animais são tão humanos quanto nós – isso é um fato democraticamente correto, e qualquer um que discorde disso deve enfrentar a corte marcial –, também cabe a eles a função de se abster de se alimentar de carne. Esse fato ocorreu a ela quando, numa reunião de cúpula do partido que freqüentava (e que abandonou por aceitar a utilização de carne, leite, ovos e derivados para fins humanos), acontecida no restaurante de rodízio de assassinatos Espetos, em que ela se alimentou unicamente de ar (tomando cuidado para não matar nenhuma bactéria presente na composição) e de onde fugiu correndo quando ofereceram coração assado (era triste, ela diz, ver todos os sonhos e vontades das galinhas frustrados por um capricho humano).
Animais não-humanos não são humanos. Como nós não somos tão felinos quanto os felinos. E no mais, parece que existe uma definitiva confusão com o termo “democracia” ali (novamente, sinto deboche alfascismo e antissocialista). Animais não-humanos não são agentes morais, eles não tem função/dever nenhum. Nenhum. Se devemos (por dever moral nosso) agir na prevenção da predação, já é outra história. Não matar nenhuma bactéria? Realmente, mais um ponto para minha tese de que seja um deboche alfascista. Afinal, Olga é vegetariana ou respiratoriana que divinizou o fenômeno da vida? Pelo visto é o segundo.
Adiante:
A camarada Olga sugere que a “cadeia alimentar”, como o próprio nome deixa claro, é uma das formas mais antigas de opressão capitalista burguesa. Diz ainda que, como o homem sempre oprimiu os animais de forma estúpida e grosseira, eles não foram capazes de atinar para o fato de não precisarem de carne. Quando muito, na realidade, precisam de “carne” de soja.
Cadeia alimentar precede o capitalismo. Não há de se falar que a cadeia alimentar é criação cultural, não o é. E, no mais, o ser humano já se tornou a muito tempo estranho a essa “cadeia alimentar”, devido a própria sedentarismo e o desenvolvimento da agricultura e da odiosa pecuária.
Não é justo que os sapos comam as moscas, que as cobras comam os sapos, que as águias comam as cobras e que urubus e bactérias comam as águias mortas. Tudo isso não passa de opressão burguesa e deve ser extinto. O homem, como culpado histórico por todos esses males, deve desenvolver métodos de educação alimentar bancados pelo Estado que ensinassem todos os animais a preparar hambúrguer de soja sem gorduras trans.
Como já disse Abner Vicente: ela está zuando, não é possível. O meu comentário acima da citação aplica-se a essa passagem também.
Para garantir que ninguém desobedeceria às regras democraticamente avaliadas, seria necessário construir um enorme frigorífico onde ficariam todos os corpos do mundo – desde os menores corpos de vírus até os das maiores baleias. Os vizinhos seriam estimulados a investigar a vida dos seus camaradas da casa ao lado, e aquele que fosse visto se alimentando de qualquer fonte animal (leite materno incluso) deveria ser julgado de acordo com todos os princípios legais, assegurada a ampla defesa, e ser condenado à morte por assassinato. Assim que os vizinhos maus fossem assassinados, seriam jogados no frigorífico.
?Vírus? Nem há consenso (se já há, alguém favor me avisar) que vírus é ser vivo. Além disso, isso é mais fantasioso que um mundo vegano. Não tenho nada mais a comentar a respeito, visto que o absurdo que é essa passagem fala por si só.
Como os camaradas já devem ter notado, o frigorífico estará em permanente crescimento, o que gerará novos empregos de forma ininterrupta e exponencial. Isso, mais trabalho, segundo a doutrina marxista histórico-dialética, é a fonte de toda riqueza e bem-estar social.
… ? Eu achava que isso foi Adam Smith, mas não sou economista.
Como o frigorífico garantirá riqueza e bem-estar social, não será necessário que se continuem a produzir alimentos ou roupas, porque as pessoas estarão mais ricas e poderão pagar pelo acréscimo no preço desses bens. Quando todas as pessoas do mundo estiverem ocupadas trabalhando no frigorífico, todas estarão esclarecidas sobre a desimportância da divisão de trabalho, pois todos trabalharão no mesmo cargo e serão igualmente felizes e bem dispostos. Em pouco tempo, os preços dos alimentos ficarão tão altos que ninguém poderá pagar por eles, e eles terão de ser distribuídos gratuitamente entre a população, sem que haja fome ou sede. Esse será o momento histórico em que a sociedade se fará verdadeiramente justa e comunista.
Bem, definitivamente é deboche anticomunista. Ou mesmo anticapitalista. Não perca seu tempo lendo mais.
A camarada Olga, por fim, e em nome do Povo e do Estado, sugeriu uma nova práxis comunista.
Que de vegetariana ou vegana, ou sei-lá o quê, tem nada.





