Opinião Vegana

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O mundo sob uma ótica vegana.

Arquivo de abril, 2010

Veganismo: socialismo perfeito?

quarta-feira, 28 de abril de 2010

Hoje soube, através do orkut, da existência de um artigo que coloca que o vegetarianismo total, que irei denominar de veganismo por pura conveniência, como passo inicial rumo ao socialismo perfeito. Não irei entrar no mérito do “socialismo perfeito”, mas sim a relação entre veganismo e socialismo exposto no artigo do “Camarada Servidor Público Federal”.

O artigo se inicia assim:

?A camarada Olga me sugeriu que discorresse sobre uma de “suas” (nossas) idéias sobre o vegetarianismo. Ela disse, em nome do Povo e do Estado, que os vegetarianos têm uma ideologia muito bela, mas que ainda não decidiram expandi-la aos seus limites lógicos.

Apesar de minha natural tendência de achar que isso é um deboche (como assim, em nome do Povo e do Estado?) irei tratar como se sério fosse. Olga pelo visto fala na ignorância, pois os vegetarianos não têm uma ideologia. Temos várias, muitas, antagônicas e tão diversas que só a tentativa de catalogá-las rende uma enciclopédia. Posso falar do Abolicionismo Animal de Regan, de Francione, o Libetarismo Animal de Singer (ou Uma Perspectiva Utilitarista da Questão Animal se quiser assim chamar), o Bem-Estarismo Animal, o Neo-Bem-Estarismo Animal e o próprio deslavado Especismo em suas diversas modalidades. Fora isso, alguns já decidiram a expandir, a exemplo do Ecoveganismo (certo, isso foi depois de 2007).

Assim segue o artigo:

Como os camaradas animais são tão humanos quanto nós – isso é um fato democraticamente correto, e qualquer um que discorde disso deve enfrentar a corte marcial –, também cabe a eles a função de se abster de se alimentar de carne. Esse fato ocorreu a ela quando, numa reunião de cúpula do partido que freqüentava (e que abandonou por aceitar a utilização de carne, leite, ovos e derivados para fins humanos), acontecida no restaurante de rodízio de assassinatos Espetos, em que ela se alimentou unicamente de ar (tomando cuidado para não matar nenhuma bactéria presente na composição) e de onde fugiu correndo quando ofereceram coração assado (era triste, ela diz, ver todos os sonhos e vontades das galinhas frustrados por um capricho humano).

Animais não-humanos não são humanos. Como nós não somos tão felinos quanto os felinos. E no mais, parece que existe uma definitiva confusão com o termo “democracia” ali (novamente, sinto deboche alfascismo e antissocialista). Animais não-humanos não são agentes morais, eles não tem função/dever nenhum. Nenhum. Se devemos (por dever moral nosso) agir na prevenção da predação, já é outra história. Não matar nenhuma bactéria? Realmente, mais um ponto para minha tese de que seja um deboche alfascista. Afinal, Olga é vegetariana ou respiratoriana que divinizou o fenômeno da vida? Pelo visto é o segundo.

Adiante:

A camarada Olga sugere que a “cadeia alimentar”, como o próprio nome deixa claro, é uma das formas mais antigas de opressão capitalista burguesa. Diz ainda que, como o homem sempre oprimiu os animais de forma estúpida e grosseira, eles não foram capazes de atinar para o fato de não precisarem de carne. Quando muito, na realidade, precisam de “carne” de soja.

Cadeia alimentar precede o capitalismo. Não há de se falar que a cadeia alimentar é criação cultural, não o é. E, no mais, o ser humano já se tornou a muito tempo estranho a essa “cadeia alimentar”, devido a própria sedentarismo e o desenvolvimento da agricultura e da odiosa pecuária.

Não é justo que os sapos comam as moscas, que as cobras comam os sapos, que as águias comam as cobras e que urubus e bactérias comam as águias mortas. Tudo isso não passa de opressão burguesa e deve ser extinto. O homem, como culpado histórico por todos esses males, deve desenvolver métodos de educação alimentar bancados pelo Estado que ensinassem todos os animais a preparar hambúrguer de soja sem gorduras trans.

Como já disse Abner Vicente: ela está zuando, não é possível. O meu comentário acima da citação aplica-se a essa passagem também.

Para garantir que ninguém desobedeceria às regras democraticamente avaliadas, seria necessário construir um enorme frigorífico onde ficariam todos os corpos do mundo – desde os menores corpos de vírus até os das maiores baleias. Os vizinhos seriam estimulados a investigar a vida dos seus camaradas da casa ao lado, e aquele que fosse visto se alimentando de qualquer fonte animal (leite materno incluso) deveria ser julgado de acordo com todos os princípios legais, assegurada a ampla defesa, e ser condenado à morte por assassinato. Assim que os vizinhos maus fossem assassinados, seriam jogados no frigorífico.

?Vírus? Nem  há consenso (se já há, alguém favor me avisar) que vírus é ser vivo. Além disso, isso é mais fantasioso que um mundo vegano. Não tenho nada mais a comentar a respeito, visto que o absurdo que é essa passagem fala por si só.

Como os camaradas já devem ter notado, o frigorífico estará em permanente crescimento, o que gerará novos empregos de forma ininterrupta e exponencial. Isso, mais trabalho, segundo a doutrina marxista histórico-dialética, é a fonte de toda riqueza e bem-estar social.

… ? Eu achava que isso foi Adam Smith, mas não sou economista.

Como o frigorífico garantirá riqueza e bem-estar social, não será necessário que se continuem a produzir alimentos ou roupas, porque as pessoas estarão mais ricas e poderão pagar pelo acréscimo no preço desses bens. Quando todas as pessoas do mundo estiverem ocupadas trabalhando no frigorífico, todas estarão esclarecidas sobre a desimportância da divisão de trabalho, pois todos trabalharão no mesmo cargo e serão igualmente felizesbem dispostos. Em pouco tempo, os preços dos alimentos ficarão tão altos que ninguém poderá pagar por eles, e eles terão de ser distribuídos gratuitamente entre a população, sem que haja fome ou sede. Esse será o momento histórico em que a sociedade se fará verdadeiramente justa e comunista.

Bem, definitivamente é deboche anticomunista. Ou mesmo anticapitalista. Não perca seu tempo lendo mais.

A camarada Olga, por fim, e em nome do Povo e do Estado, sugeriu uma nova práxis comunista.

Que de vegetariana ou vegana, ou sei-lá o quê, tem nada.

Mais sobre o Ecotarianismo

segunda-feira, 26 de abril de 2010
Feira Central de Campina Grande, por Kyller Costa Gorgônio

Feira Central de Campina Grande, por Kyller Costa Gorgônio. Ecotarianos priorizam a produção local.

Quando eu primeiro soube da existência dos ecotarianos, a primeira fonte que achei, da revista IstoÉ, me parecia um tanto negativa. Não negativa no sentido normal que vemos do veganos, de “um bando de loucos”, mas sim no sentido de uma exoticidade exacerbada, com toques orientais (não que isso seja ruim) e de, até mesmo, religiosidade, obscurantismo e ocultismo. Talvez minha leitura tenha sido um pouco inadequada, condicionada pelo típico tratamento a qual a famigerada grande mídia tem dispensado às coisas que fogem da normatividade social hegemônica de nossa sociedade. Portanto, resolvi fazer uma pesquisa um pouco mais profunda em textos não só brasileiros, mas também em outros idiomas, em busca de uma definição e um perfil mais apropriado do ecotarianismo e dos próprios ecotarianos.

Nas fontes brasileiras que me deparei, a mais polida definição e crítica do ecotarianismo que encontrei foi no portal do Discovery, que possui como indicação de leitura o artigo da IstoÉ:

Ecotarianos – Atitude consciente, mas difícil na prática

O termo, difundido nos últimos anos, refere-se a uma forma de alimentação que leva em conta os impactos causados pelo processo de fabricação dos produtos à natureza. Ser ecotariano é complexo, já que calcular a emissão de carbono de um alimento envolve conhecer sua produção, desde a matéria-prima até sua venda. Alguns só adquirem produtos orgânicos, produzidos localmente – para poupar as emissões do transporte – ou que incentivem o trabalho justo.

No caso de do blogue brasileiro Passando a Régua, que encontrei em minha pesquisa, a definição é um pouco mais abrangente, não tratando-se de apenas uma “forma de alimentação” como no texto do Discovery:

Traduzindo. Isso quer dizer que você passa a adotar o consumo sustentável em todos os seus aspectos. Da comida ao vestuário, dos objetos aos acessórios.

Em ¿Qué es el ecotarianismo?, Valentina Ruderman consegue tratar das diferenças teleológicas entre o ecotarianismo e o vegetarianismo ético com propriedade:

Con el aumento de la conciencia ambiental, durante el último año surgió una nueva manera de comer teniendo en cuenta las consecuencias en el medio ambiente. En este caso no se trata de abandonar los alimentos provenientes de los animales sino de llenar el plato con productos que hayan dejado la menor huella de carbono posible.

[…]

Así, la diferencia con los vegetarianos se encuentra en el por qué. Los Ecotarianos no comen carne simplemente porque cada vaca necesita kilos y kilos de otros animales y plantas para desarrollarse. Es fácil: cuanto más consumo, mayor la huella.

Já uma doutoranda ecotariana residente na Austrália tem um conceito de ecotarianismo que extrapola todas as apontadas, partindo mais para um lado ético do que um simples economicismo ambiental:

For us being ecotarians means that whenever we make a decision about our consumption (be that of food or any other product) we try to consider a whole myriad of ethical issues that relate to the impact of our choice on the earth. These issues include:

  • Whether or not the product has been produced locally or whether it was transported half-way across the world to us.
  • Whether or not the product was created using slave labour (or sweatshop labour) or whether it was ethically or fairly traded.
  • How much packaging is used and whether the packaging is recycled and recyclable.
  • What kind of chemicals were used in the creation of the product or whether it is organic.
  • Whether the product is cruelty-free (in that it contains now animal products and was not tested on animals).
  • Whether or not we actually need the product or whether we are simply consuming for the sake of it.
  • How much energy and water was required to create the product.
  • Whether the product is brought to us by a corporation that is highly unethical in its business practices (such as Nestle, Coke or Monsanto).
  • And, well, you get the picture…

Tradução minha:

Para nós, ser ecotariano significa que em qualquer decisão de consumo (sendo sobre comida ou qualquer outro produto), nós tentamos considerar todo um conjunto de questões ética que estão relacionado aos impacto de nossa escolha na Terra. Essas questões incluem

  • Se o produto foi produzido localmente ou se ele veio do outro lado do mundo.
  • Se na criação do produto foi usado trabalho escravo (ou semi-escravo) ou se foi eticamente ou justamente negociado.
  • Quanta embalagem é usado e se ela é reciclada ou é reciclável.
  • Que tipos de produtos químicos foram usado na criação do produto ou se ele é orgânico.
  • Se o produto é livre de crueldade (incluindo se ele contem produtos derivados de animais ou foi testado neles).
  • Se realmente precisamos do produto ou se simplesmente estamos consumindo por consumir.
  • Quanta energia foi usada e quanta água foi necessária para a criação do produto.
  • Se o produto é de uma empresa extremamente antiética em suas práticas empresarias (tais como Nestlé, Coca-Cola ou Monsanto).
  • E, bem, você entendeu…

O interessante é que, essa definição que Cristy trouxe em seu depoimento se confunde muito com o veganismo ecológico, com o ecoveganismo. Não é a toa, afinal, ela mesma confessa que está ainda comprometida com o veganismo

Já a grande mídia anglofônica, a exemplo da Times Online, fala de ecotarianismo nesses termos:

Ecotarianism is the new buzzword, a kind of greatest hits of all our favourite food movements from the past decade. It’s about sourcing locally, organically, sustainably, in season and leaving the Earth’s resources untouched. […]

Tradução minha:

Ecotarianismo é a nova palavra do momento, é tipo um dos maiores sucessos de todos os movimentos alimentares da última década. Trata-se de alimentar-se localmente, organicamente, sustentavelmente, na estação e deixar os recursos da Terra intactos. [...]

Curiosamente, uma das fontes citadas foi o blogue da Cristy.

Porém, o conceito mais sintético que até onde minha pesquisa me conduziu foi o do site da Guardian, um jornal inglês:

[…] The concept is simple: eat the foods with the lowest environmental burden, those with the lowest global-warming potential (GWP) and the least chance of messing up the planet via their acidification and pollution potential. In practice, of course, divining the environmental burden of a tomato in the supermarket is difficult.

Tradução minha:

[...] O conceito é simples: coma aquilo que cause o menor dano ambiental, aqueles com menor potencial de aquecimento global e aquilo que tiver menor possibilidade de ferrar com o planeta antravés da acidificação e de seu potencial poluidor. Na prática, é claro, adivinhar o custo ambiental de um tomate no supermercado é difícil.

Com base nessa superficial pesquisa, pois as fontes são repetidas e não possuem muitas de fato as quais eu possa ter contato com meus instrumentos, posso traçar o conceito de Ecotariano nos seguintes termos:

Ecotariano é aquele que consome produtos levando em consideração o impacto ambiental o qual eles incidem, procurando minimizá-los ao máximo possível.

Não se resume a uma questão alimentar, apesar de suas considerações serem mais complexas e visíveis no imaginário externo quando tange a alimentação. A questão é o consumo sustentável, a alimentação é apenas um reflexo disso.

Ele não é necessariamente vegetariano, pois em situações em que, por algum motivo, o alimento não-vegetariano for ecologicamente sustentável, fará sentido em consumi-lo.

Então, o ecotarianismo se diferencia do veganismo em seu fim: procura minimizar o impacto ambiental, enquanto o veganismo busca minimizar o impacto positivo individual sobre a vida dos seres sencientes ou sujeitos-de-uma-vida (dependendo da fundamentação filosófica adotada).

O método, então, é o mesmo: através de um consumo consciente, se minimizará os problemas.

De certa forma, o Ecotarianismo está para a Ecologia Profunda como o Veganismo está para os Direitos Animais: um é consequência e reflexo do outro. É uma exigência moral ao levar em consideração os argumentos da Ecologia Profunda ser ecotariano, como é uma exigência moral ser vegano caso se considere válido os Direitos Animais.

Creofilia e sociopatia

quarta-feira, 21 de abril de 2010

Uma refeição creófila com uma diversidade de espécies animais. Foto de lotusutol.

Primeiramente, gostaria de destacar o fato de não ser psicólogo ou psiquiatra. Os conceitos de sociopatia aqui trazidos não são de caráter técnico, mas sim impressões do senso-comum social, e assim será aplicado.

Em segundo lugar, aviso que esta postagem, como a maioria das minhas postagens, pode causar um desconforto para os creófilos. As comparações que se dará poderá ofender acima do comum os creófilos, visto que lida com a analogia do comportamento deles tido como normal com comportamento de outros tidos como monstros normais (“criminosos”). Naturalmente, não aceitarei comentários abusivos, como xingamentos e afins. Não vejo diferença ôntica (de espécie) entre o assassinato de um ser senciente e um ser sapiente. Tampouco vejo diferença ôntica na morte de um humano, não-humano, familiar meu ou do comentarista. O especismo, desde o princípio, não é norteador de meus artigos (tampouco de qualquer opinião que se diga vegana). Sua oposição que o é.

Diz-se do sociopata aquele que comete coisas moralmente extremamente reprováveis (normalmente tidas como crimes, apesar da matança de animais sencientes não o ser) e não sente nem um pouco de remorso. Irei me centrar em construções abstratas, não tratando de humanos específicos, e desconsiderando outros traços de sociopatia que não sejam esses.

Frente a opinião pública, muitos criminosos que matam a sangue frio suas numerosas vítimas (assassinos em série) ou uma vítima especialmente indefesa (normalmente, quem mata idoso ou infante), muitas vezes utilizando de meios cruéis e por motivos fúteis, sem demonstrar remorso, são tidos como sociopatas. Não é incomum a clamar pela eliminação física dos autores dessas atrocidades, especialmente no calor da indignação moral das pessoas que pedem mais uma morte. Algo corriqueiro, infelizmente. Porém, deixemos a questão legal e especista de lado. Vejamos casos similares a essas ocorrências, fora de nossa espécie.

Os caçadores, abatedores, pescadores e outros ditos cidadãos de bem têm hábito de matar corriqueiramente, muitas vezes com requintes de crueldade (atirando no ser indefeso e o deixando sofrer, degolando-o e deixando morrer afogado em seu sangue, quebrando seu pescoço, matando por lenta asfixia, etc) numerosos seres sencientes de outras espécies. Sem remorso, naturalmente. Não seriam esses especistas diretos sociopatas? Se fizermos uma analogia com o caso do infanticida, onde o agravante é o estado de debilidade defensiva do sujeito da agressão gravíssima, (que é o atendado a seu bem mais importante, que condiciona a existência dos outros bens morais) a perfeição será grande. A vítima do caçador, do abatedor, do pescador é indefeso, é senciente e não tem como escapar de forma justa de seu algoz. E, no caso especial do abatedor e do pescador, o seu motivo é estupidamente fútil: o paladar (fora situações de risco e extremos, de onde não é honesto tomar como regra). Já o caçador esportivo, utilizando de uma retórica ecológica, sorri diante de suas atrocidades “ecologicamente correta”. Mais sociopata que o caçador esportivo, talvez somente o creófilo-padrão.

O creófilo-padrão, aquele que é especista seletivo, que terceiriza sua crueldade talvez seja o mais cínico de todos os especistas. Ele não se reconhece como um agente ativo das atrocidades do qual é o corresponsável. Analogicamente, podemos vislumbrar o mandante de matança. Quem manda matar, pela lógica da irresponsabilidade do creófilo-padrão, não é responsável moralmente pela morte que mandou. Uma retórica tão falsa que soa simplesmente ridículo aos ouvidos treinados de um vegano. Há outro instrumento que creio que seja mais usado do que esse que é a afirmação de que a aquisição da carcaça não por encomenda (normalmente), mas sim ocorre depois da morte ter sido realizada. Uma franca desonestidade por parte dos creófilos, visto que sabemos que o produto existe para suprir as demandas que se tem por ele. Contudo, são os creófilos que se sentem os mais limpos e eticamente incontestáveis, ao mesmo passo que eles mesmos reconhecem os direitos que eles não respeitam dos animais. O cinismo e a falsidade, além da ausência de remorso, é bem manifestado neles. Não posso deixar de concluir que, nesse aspecto, eles são sociopatas.

Outro fenômeno que vejo como relevante é a autoafirmação especista. Os creófilos tendem a não só praticarem atos especistas, mas também de se orgulharem de fazer isso. O antropocentrismo pautado na autoafirmação especista da violência, a exemplo de toda ideologia que sustenta a tese da superioridade de nossa espécie baseada em nossa capacidade de eliminar a vida alheia (de forma racional ou “natural”). Se faz o que se faz pois se pode, não havendo ponderação ética a cerca disso, num ato tremendamente sociopata.

Assim, acredito que num futuro vegano (caso de fato ocorra), os poucos creófilos que restarão serão tratados tal como os infanticidas e homicidas em série o são hoje pela nossa sociedade. A sociopatia será a etiqueta que estará estampada nas testas deles, certamente, por motivos não menos justos quanto os que ditei acima.

(Poema) Dois veganos e a pena de morte, num país vegano

sábado, 17 de abril de 2010

CC-BY-NC Matthew Lee High

CIDADÃO

Tem que matar!
Matar e torturar,
até o último que
restar em nosso
país de cidadão
e cidadã de bem.

Gente como essa
não merece nada,
não mudam nem,
são incorrigíveis.

Dura lex, sed lex.
Para eles nada, pois
para suas vítimas
só desprezo houve.

CIDADÃ

Mas, meu compatriota,
veja bem para nós,
fruto de uma sociedade
criminosa e insana,

agora sabemos como
respeitar aqueles que
tem de ser respeitados
por serem quem são.

CIDADÃO

Naqueles tempos tristes,
eles eram objeto, coisas,
que só para poucos
cabiam-lhes o mínimo
do respeito de não fazer
o maior mal imaginado.

Hoje somos quem dita
a lei em nosso terra, não
os assassinos e estupradores.
Há de defendê-los, irmã?

CIDADÃ

Não os defendo mais
que aos meus e aos seus
próprios antepassados e
aos seus próprios. Fora
nossos irmãos de além.

CIDADÃO

Então?
Diz que eles têm solução,
e que essa sua solução não
é o fio da faca enferrujada
ou o prino da pistola cromada
no sangue do abate?

Fale do traficante de corpos,
como Bruninho da Lagoa,
além dos açougueiros
profissionais que rondam
as favelas e os bairros nobres
de nossas cidades.

Não, não são recuperáveis.
Merecem a morte, mais cruel que
a que dispensaram a suas vítimas.

CIDADÃ

E essa morte trará
as vítimas de volta
para seus corpos digeridos?

CIDADÃO

Mas justiça será feita.

CIDADÃ

E mais sangue
será derramado
e mais carne será
perfurada e retalhada.

CIDADÃO

Para molhar quem o suga
e saciar a fome de quem
tem tanta ânsia por ela.

CIDADÃ

Como se adiantar isso iria.

CIDADÃO

Pelo menos sentiria
que algo está sendo
feito para acabar
com a delinquência.

O medo de se igualar
às vítimas de suas
mãos irá paralisar
os possíveis autores
dos crimes mais odiosos
que é o biocídio, contra
uma vida indefesa.

Seara: patrocinando a seleção brasileira

terça-feira, 13 de abril de 2010

Eu realmente não planejava falar sobre futebol nesse blogue, mas depois que eu soube dessa notícia é preciso. Vejam a foto que tem nesse link, do Estadão.

Para quem não conhece a Seara: ela possui uma linha de produtos totalmente não-vegana, com defuntos de diversas espécies em diversas formas e variações que qualquer creófilo ficaria nervoso só em pensar no sabor broxante da matéria em putrefação (provavelmente carbonizada antes, naturalmente, por questões degustavas, higiênicas e sanitárias).

Não é nenhuma surpresa que, num país pecuarista, a seleção tenha como patrocinadora uma empresa desse perfil ético (não estou questionando as questionáveis condições de trabalho que ela dá a seus colaboradores, mas realmente ao fato dela comercializar cadáver alheio). Mas, por favor, tinha que arruinar o uniforme da seleção?

Eu nem gosto de futebol, sou alienado desse tipo de diversão, mas isso aí já é um absurdo muito grande.

Quem quiser boicotar a seleção da nação pecuarista, com jogadores creófilos, patrocinada por uma empresa de defuntos, vá lá. Quem não quiser, que não o faça. Porém, torcer por uma seleção com aquele logotipo gigantesco na frente é bizarro.

O que é Veganismo?

terça-feira, 6 de abril de 2010

Uma filosofia? Uma religião? Um estilo de vida? Um clube social? Uma seita? Um time esportivo?

Pinchação "Vegen"

Pinchação "Vegen": "Seja um vegen. Ame e reze." CC-BY-ND Mr. T in DC

Essa é uma pergunta bem comum, normalmente respondida com o que um vegano faz (ou não faz): participar ativamente da exploração de animais caso seja evitável, ou seja, não consumir carne, leite, ovos, mel, carmim, peles de animais (isso inclui couro), produtos testados em animais, etc. Mas, afinal, o quê realmente é o Veganismo?

Diz Gary Francione:

O veganismo não é uma mera questão de dieta; é um compromisso moral e político com a abolição, no nível individual, e não se estende só à comida, mas também à roupa, a outros produtos, e a outras ações e escolhas pessoais. [...] se “direitos animais” tiver algum significado, é o de que não podemos justificar o consumo de carnes (incluindo pescado), laticínios, ovos e outros produtos de origem animal.

Já o autor de Vegan.com.br coloca:

No entanto, veganismo não é somente uma dieta; é um modo de vida. A pessoa que se diz vegan pretende reduzir ao máximo a exploração animal em sua vida e, não somente adota uma dieta vegetariana estrita, mas também boicota empresas que testam em animais, não utiliza roupas de origem animal, não frequenta circos, rodeios etc.

Robson Fernando nos trouxe um texto de autoria desconhecida que vai no mesmo ritmo:

Veganismo é a aplicação da teoria dos direitos animais à nossa vida. Ou seja, é o modo de vida de quem reconhece que os animais não-humanos possuem o direito moral de não serem considerados propriedade dos humanos.

O madrilenho Luis Tovar, em seu blogue, coloca seu ponto de vista nesses termos:

[...] Ser vegano signfica comprender que todos los animales tenemos el mismo derecho a la vida, y merecemos un respeto igual por ello. [...]

[...]

Ser vegano es proponer un estilo de vida libre de cualquier tipo de explotación animal. [...] El veganismo es una forma de vivir que exige respeto a todos los animales sin discriminación de especie. [...]

O nutricionista vegano Eduardo Fraccarolli Buriola respondeu à pergunta da seguinte forma:

A palavra Vegano (usada pela primeira vez em 1940 na Inglaterra – Vegan) é uma variação da palavra Vegetariano, que no enfoque nutricional significa a pessoa que não consome nenhum alimento de origem animal em sua alimentação, ou seja, seus habitos alimentares são baseados 100% em produtos de origem vegetal.

Por falar nessa referência histórica, a primeira edição da revista Vegan News explica o termo:

We should all consider carefully what our Group, and our magazine, and ourselves, shall be called. ‘Non-dairy’ has become established as a generally understood colloquialism, but like ‘non-lacto’ it is too negative. Moreover it does not imply that we are opposed to the use of eggs as food. [...] As this first issue of our periodical had to be named, I have used the title “The Vegan News”. Should we adopt this, our diet will soon become known as a VEGAN diet, and we should aspire to the rank of VEGANS. Members’ suggestions will be welcomed. [...]

[...]

The object of our Group is to state a case for a reform that we think is moral, safe and logical. In doing so we shall, of course, say strongly why we condemn the use of dairy produce and eggs. In return we shall expect to be criticised. [...]

Em português, tradução minha:

Nós todos temos que levar em consideração o nome o qual nosso grupo, de nossa revista e de nós mesmos, deverá ser chamados. “Sem-laticínios” se tornou conhecido como um coloquialismo geral entendido, mas como “não-lacto”, é muito negativo. Nem mesmo implica que somos contra o uso de ovos como comida. [...] a primeira edição de nosso periódico tinha que receber um nome, eu resolvi dar o nome de “As Notícias Veganas”. Caso nós adotemos esse termo, nossa dieta logo será conhecida como dieta VEGANA, e nós poderemos aspirar às fileiras VEGANAS. Sugestões dos membros serão bem-vindas. [...]

O objetivo do nosso grupo é mostrar a necessidade de uma reforma que nós cremos ser moral, seguro e lógico. Ao fazer isso, nós devemos, é claro, afirmar fortemente o motivo o qual nós condenamos o uso de ovos e de laticínios. Em resposta, esperamos sermos criticados. [...]

Obviamente, isso tudo quem disse foram veganos (excetuando o autor do artigo primogênito, pois o entendimento de veganismo da época era mais precária do que a da atualidade). Vejamos como os creófilos, especificamente a grande mídia brasileira, nos explica:

A Globo, através do Extra, noticiando uma palestra do Bruno Müller:

Você sabe o que Gwyneth Paltrow, Drew Barrymore, Paul McCartney, Prince, Martina Navratilova e Xuxa têm em comum? Além de famosos, todos são adeptos do veganismo, cujos seguidores não comem nada que seja derivado de animais. O movimento também propõe alternativas para acabar com a matança de bichos para serem transformados em alimentos ou outros tipos de produto, além de ser contra a utilização de animais em laboratório e em circos.

[Não, não me perguntem se a Xuxa realmente é vegana...]

A mesma rede de comunicação, através de um infame artigo na Época assim afirma:

A opção mais radical de vegetarianismo é o veganismo, uma filosofia que vem crescendo em todo o mundo e que proíbe seus seguidores de comer e usar qualquer produto de origem animal.

[Não falei que era infame? Opção que proíbe é nova.]

A Folha Online, repetindo a BBC:

Uma pesquisa de um instituto sueco sugere que as pessoas que sofrem de artrite reumatóide podem reduzir o risco de ataques cardíacos e derrames se seguirem uma dieta vegan –nome dado à dieta vegetariana radical, em que não há consumo de carne, leite e seus derivados– e sem glúten.

Como pode-se ler, as definições são bem similares. Basicamente todos, exceto as fontes creófilas ou específicas na questão nutricional, apontam o veganismo como algo que vai além em não ingerir animais e seus derivados. Porém, a questão toda fica nessa variação: veganismo é um modo/estilo/forma de vida/viver, é uma filosofia ou ambos?

Vejamos então o que é “Filosofia”, no seu sentido mais amplo:

Para o professor Dr. Delamar José Volpato Dutra da UFSC, “A Filosofia é um ramo do conhecimento [...]“.

Segundo a Wikipédia lusófona, “Filosofia (do grego ?????????: philos – que ama + sophia – sabedoria, « que ama a sabedoria ») é a investigação crítica e racional dos princípios fundamentais relacionados ao mundo e ao homem.”

Já, estilo de vida é definida de tal forma:

A Wikipédia lusófona, em verbete, coloca que “Estilo de vida é a forma pela qual uma pessoa ou um grupo de pessoas vivenciam o mundo e, em consequência, se comportam e fazem escolhas.”

Sua versão anglófona define dessa forma: “Lifestyle is a term to describe the way a person lives [...]” (Estilo de vida é um termo usado para descrever a forma a qual uma pessoa vive [...], tradução minha.)

Levando em consideração essas definições, facilmente podemos ver que veganismo não é filosofia. Veganismo está vinculado, imperativo ético, aos Direitos Animais e a Ética Animal em sua formulação abolicionista ou libertacionista. Mas não se confunde com a filosofia que o fundamenta. Veganismo, contudo, é sim um estilo, uma forma, um modo de vida e de viver.

Assim, minha definição de veganismo se dá nesses termos:

Veganismo é um estilo de vida, que consiste na não-participação das violações dos Direitos Animais, entendendo esses direitos como o direito à vida, à liberdade, à integridade física e a não ser tratado como propriedade. Os animais em questão são apenas aqueles que são sencientes.

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