Opinião Vegana

|

O mundo sob uma ótica vegana.

Arquivo de março, 2010

Estamos perdendo tempo?

terça-feira, 30 de março de 2010

Recentemente eu simbolicamente participei da campanha pelo Twitter do Dia Mundial Sem Carne, que Robson relatou brilhantemente em seu blogue. Outro dia, eu ouvi o comentário de Gary Francione sobre esse tipo de coisa: campanhas monotemáticas.

Dia Mundial sem Carne, campanhas anti-pele, anti-rodeio, anti-circo, etc. Temos campanhas para todo o tipo de espoliação animal, excetuando especificamente, talvez, uma campanha vegana organizada contra o consumo de leite, ovos, cochonila, etc. Isso não seria uma perda de tempo?

Propaganda Antiexperimentação

Propaganda do VEDDAS contra a experimentação.

Quem faz essas campanhas (incluindo eu, no passado ao menos) argumenta que é uma questão progressiva: os creófilos, em sentido amplo (todos os não veganos, simplesmente), já fazem uma porção de coisas terríveis. Combater, conscientizando-os sobretudo em coisas mais “aceitáveis”, para tornar a vida dos não-humanos um tanto menos terrível quanto ela é. Isso faz sentido, sobretudo numa ótica bem-estarista.

Mas vamos às críticas de Gary Francione, que se mistura com as suas críticas ao bem-estarismo (as quais não irei me envolver agora): essas campanhas acabam por reafirmar a legitimidade das outras ações dos creófilos, e muitas vezes são especistas!

Quando falamos de Dia Mundial sem Carne, a pauta era o cadáver alheio, não o Direitos Animais. Essa campanha anti-carne resulta, por exemplo, no crescente número de ovo-lacto-vegetarianos que ainda tornam a vida de uma quantidade significativa de animais miserável. A campanha anti-pele, no Brasil então, simplesmente afirma que “pele é errado”, estranhamente couro não é pele e as pessoas que boicotam pele (uma irrealidade em nosso país tropical e quente) continuam consumindo produtos de pele de bovinos. Já tive colegas anti-vivissecionistas que comemoraram seus respectivos aniversários em churrascarias, que argumentava que são mortes desnecessárias aquelas dos laboratórios, pelo visto era muito necessário o da churrascaria.

É uma mistura de especismo com falta de reflexão, verdade, mas ainda é culpa de quem promove essas campanhas. Em vez de fazermos campanhas monotemáticas, trabalharemos em favor do fim do especismo. Negar o especismo, e mostrando que isso implica necessariamente no veganismo, é lutar contra todos os alvos dessas campanhas. É lutar contra a creofilia, o consumo de leite, ovo, couro, pele, lã, testes em animais, vaquejadas, rodeios, circos com animais, caça, pesca, domesticação de animais silvestres, comércio de animais, tortura de animais, e tudo mais que o especismo representa e se revela na realidade.

Talvez muita gente fique chateada, furiosa, se irrite, nos xingue e nos ameace de morte (okay, parei com o drama, mas se isso aí acontece, acontece). Mas aquelas pessoas que realmente ficariam sensibilizadas e procurariam se educar sobre qualquer um desses problemas, ficaria sensibilizada e se educaria sobre a questão dos Direitos Animais como um todo.

Piadas veganas

segunda-feira, 29 de março de 2010

Traduzidas, selecionadas e adaptadas destas.

Observação: não sou comediante :P .

  • Quantos veganos são necessários para trocar uma lâmpada?

1. Eu não sei, mas de onde vem a proteína deles?!

2. Dois. Um para trocar a lâmpada e outro para ver o rótulo.

3. Cinco. Um para trocar a lâmpada e outros quatro para ficarem criticando. (Na comunidade Veganismo).

  • Quantos creófilos são necessários para trocar uma lâmpada?

Eles não trocam lâmpadas, pois preferem ficar na escuridão.

  • Quantos vivissecionistas são necessários para trocar uma lâmpada?

Nenhum, eles não querem ver o que estão fazendo.

  • Por que queijo vegano é tão ruim?

Porque não foi testado em ratos.

  • Como se chama um vegano militante?

Intolerante a lactose.

  • Qual é a melhor forma de manter o leite fresco?

Deixando na vaca.

  • Creófilo: Você soube do último estudo que afirma que veganos possuem maior disposição a terem problemas de vista? Creio que seja porque não conseguem as proteínas necessárias…

Vegano: Qui… é porque temos que ler aqueles rótulos de letras minúsculas mesmo!

  • Eu sigo uma dieta estritamente vegana, só como vegans.

Educação Vegana no Brasil: sem efeito

sábado, 27 de março de 2010

Como eu coloquei no artigo anterior, cerca de 83% dos entrevistados em minha pesquisa afirmaram que os animais têm direito à vida. O interessante, desse número, é que 66% dos entrevistados comem cadáver alheio, provavelmente pagando pela morte prematura de seus então proprietários (ou seja, são creófilos). Existe alguma coisa errada nessas figuras, uma certa incoerência entre um dito e o ato que se é feito. Talvez essa incoerência tenha como resposta a própria questão do que é Direitos Animais e sobre o especismo para essas pessoas.

Dos veganos, somente um não se afirmou anti-especista. A maioria dos outros vegetarianos também se consideraram anti-especistas. Já, dentre os creófilos, a maioria nem sequer sabe o que é especismo (e poucos admitiram que especismo é algo inato ao ser humano, sendo que a maioria reconheceram-se como bem-estaristas “morte digna” ou seletivos).

Já “Direitos Animais”, para os creófilos e vegetarianos em geral, é sinônimo de Proteção Animal. Os veganos, devido a influência do trabalho de Gary Francione e Tom Regan, reconhecem os Direitos Animais como A Abolição do uso deles, tal como os Direitos Humanos implicou na abolição da escravatura por quem os reconhecessem.

Esse fenômeno pode ser observado melhor quando visualizado a quantidade de veganos que os creófilos conhecem. Creófilos que conhecem mais veganos tendem a reconhecer um menor leque de direitos animais e a saberem o que é especismo. Alguns, inclusive, se consideram anti-especistas. Talvez sejam futuros veganos, como os vegetarianos em geral que se consideram anti-especistas. Ou simplesmente pessoas que não sabem que podem viver sem a morte “desnecessária” dos animais não-humanos. Nenhum creófilo anti-especista reconheceu que o direito humano à vida seja relativizada, portanto ou eles estão esperando alguma coisa para serem veganos, ou simplesmente não entenderam muito bem o que é ser anti-especista.

Fato é que a educação vegana, no sentido de explanar os conceitos básicos do movimento dos Direitos Animais, não está tendo resultados satisfatório. Pelo menos no Nordeste de nosso país, no recorte o qual a minha pesquisa teve, esse foi o resultado o qual a minha pesquisa chegou.

Nosso trabalho em sensibilizar os creófilos diante de seus terríveis atos é, obviamente, louvável e deve ser conduzido progressivamente. Porém, devemos nos concentrar também em educar os creófilos. Mostrar para eles as implicações de coisas como “os animais têm direito à vida” nos hábitos deles, denunciar o especismo deles para que possam refletir da injustiça que esse fenômeno representa. Entre outros fatos pertinente ao assunto.

Ao menos, eles poderão ser então sinceros consigo mesmos, deixando de afirmar que os animais não-humanos possuem direito à vida, à liberdade, à integridade física, assumindo suas respectivas atitudes especistas e minimamente cruéis. Já aqueles que realmente concordam que os animais têm aqueles direitos inerentes poderão ser conduzidos ao mínimo moral que essa realidade  moral requer: o veganismo. Isso tudo sem o desgaste natural que o nosso tradicional trabalho de sensibilização, através da remoção do manto mental que as pessoas têm do processo de objetivação dos não-humanos.

Resultado da Pesquisa “Direitos Animais no Brasil”

sexta-feira, 26 de março de 2010

Nos últimos dez dias conduzi uma pesquisa virtual direcionado a brasileiros, os perguntando sobre Direitos Humanos, Direitos Animais e coisas relacionadas a esses dois temas.

Os dados foram os seguintes (o universo foi de apenas 101 pessoas), ainda serão processados devidamente:

81 % afirmaram que todos os humanos têm direito à vida, 9% excluíram os criminosos desse quadro e 10% afirmaram que esse direito deve ser relativizado pelo interesse coletivo.

30% afirmaram que todos os humanos têm direito à liberdade, 46% excluíram os criminosos, e 25% relativizaram.

71% afirmaram que todos os humanos têm direito à integridade física, 17% excluíram os criminosos e 12% relativizaram.

68% afirmaram que todos os humanos têm direitos reprodutivos, 10% excluíram os criminosos e 22% relativizaram.

Apenas 3% afirmaram que animais não têm direitos, 83% afirmaram que eles têm direito a vida, 73% afirmaram que eles têm direito a integridade física, 68% afirmaram que eles têm direito a liberdade, 57% afirmaram que eles têm direito a uma morte digna.

78% creem que Direitos Animais significa Proteção dos Animais, 23% a Abolição do uso dos animais, 5% uma ideologia ou movimento radical ou extremista, 15% afirmaram outras coisas.

32% não sabem o que é especismo, 4% afirmaram que é da natureza humana ser especista, 13% se consideraram especistas, mas acreditaram que as outras espécies devem ter alguma dignidade, 21% afirmaram que são especistas, com algumas espécies. 31% se afirmaram anti-especistas.

66% dos entrevistados eram creófilos, 15% ovo-lacto-vegetarianos, 3% lacto-vegetarianos, 14% estritamente vegetarianos.

9% não conhecem pessoalmente nenhum vegetariano, exceto veganos, 50% conhecem de um a cinco, 25% de seis a dez, 8% de onze a vinte, 9% de vinte um ou mais.

22% não conhecem pessoalmente nenhum vegano, 61% conhecem de um a cinco veganos, 8% conhecem de onze a vinte veganos, 4% conhecem vinte e um ou mais.

73% dos entrevistados consideram preço um critério relevante na aquisição de um produto, 90% a qualidade, 38% as relações trabalhistas envolvidas, 45% a exploração de animais não-humanos, 67% a sustentabilidade ambiental, 4% possuem outros critérios.

80% dos entrevistados nasceram no nordeste, 14% no sudeste, 6% no sul.

2% moraram no Norte, 88% no Nordeste, 2% no Centro-Oeste, 23% no Sudeste, 9% no Sul, 5% Fora do Brasil.

7% eram menores de 18 anos, 89% tinham entre 18 e 29 anos, 4% entre 29 e 40 anos.

19% eram ateus, 23% agnósticos, 13% espíritas, 19% católicos, 8% protestantes, desses 3% adventistas, e 14% tinham outras convicções ou nenhuma.

A maioria eram estudantes.

Apenas um pai ou mãe respondeu a entrevista.

Creofilia: uma imposição aos animais

segunda-feira, 22 de março de 2010

Já dizia um certo Logan, no Arauto da Consciência que:

Quer comer seu mato, coma. Mas à partir do momento em que tentas IMPÔR tua condição alimentícia aos outros, te tornas o reacionário que tanto condenas. (Grifo meu)

Um colega meu, quando fui fazer meu seminário sobre Direitos Animais na Faculdade de Direito da Bahia (FDUFBa), também expôs uma opinião um tanto similar, apesar de forma um tanto mais acadêmica do que Logan (a citação não é perfeita, pois já faz tempo que o seminário aconteceu):

Não se pode impor às pessoas o vegetarianismo.

Apesar de discordar a princípio sobre a opinião deles (pois não vejo imposição alguma), eu discordo ainda mais: pode-se sim impor o vegetarianismo às pessoas, e mais, é um dever moral fazê-lo quando você reconhece os Direitos Animais.

Obviamente, eu não quero dizer que devemos sair aí coagindo as pessoas a serem vegetarianas. Não é o caso, nem temos poder e legitimidade jurídica para fazê-lo. O que temos que fazer é veganizar o Estado que, para quem não é anarquista, possui legitimidade de impor as pessoas (quando democrático). Isso só se dará quando a maior parte da população de uma nação se tornar vegana e utilizar dos meios estatais para criar leis que verdadeiramente respeitam os animais  como seres sencientes e sujeitos-de-uma-vida que o são.

Deixando as considerações inciais e partindo ao assunto do artigo:

Os creófilos acusam os veganos de quererem impor suas opções alimentícias, além de outras questões morais inerentes aos veganos, aos creófilos. Isso se daria através de uma intransigente pregação. (Onde entra a coerção, eu não sei… mas pelo visto conversar é bem coercitivo para esses creófilos sensíveis a questionamentos de sua moralidade). As pessoas têm direito a escolherem o que comer, ao que vestir, a de matarem os animais que quiserem (ou não, pois a maioria desses creófilos ficaram chocados com a ideia de matar um cachorro para comê-lo).

Porém, isso tudo é construído a partir de uma premissa um tanto absurda: de que apenas os humanos têm direito à vida. Tanto que nunca vi um bom creófilo aceitando de bom grado canibalismo. Essa premissa desconhece o princípio de igual considerações de interesses e carece de boa fundamentação (veja qualquer bom livro de Ética Animal, como Jaulas Vazias de Regan e Libertação Animal de Singer, ambos tratam sobre isso com maior propriedade do que eu poderia num artigozinho como esse).

Ao considerar que animais sencientes têm direito à vida (sem contar outros tantos que eles possuem por sua natureza sensível), é a creofilia que está de fato fazendo uma imposição. Imposição esta aos animais. A liberdade alimentícia dos humanos começa quando a vida do outro acaba ou é explorada.

Naturalmente, os creófilos têm carência de alteridade. Eles simplesmente não veem que aquele leitinho, aquele cosmético testado no coelho felpudo, tornou a vida de alguém miserável. Eles cobriram uma realidade e não querem vê-lo, por isso, talvez, eles sejam tão agressivos e hostis contra os defensores dos direitos animais e tudo que a eles é associado.

No final, os impositores são eles, que além de imporem suas preferências de consumo (além de caprichos culturais banais, como rodeios e vaquejadas), querem impor uma censura voluntária contra nossas manifestações de opinião. O diálogo não é o forte daquele que impõe, os creófilos são um belo exemplo disso.

(Fora essa questão animalesca, a creofilia também impõe situações perigosos a outros humanos. Quem fala lucidamente sobre o assunto é Allan Menegassi Zocolotto, em artigo publicado na Pensata Animal).

Ecotarianismo, Veganismo e Ecoveganismo

domingo, 7 de março de 2010

Recentemente fiquei sabendo da existência do termo ecotariano. Fiz uma rápida pesquisa e já pude constatar uma definição, que aqui reproduzo:

O ecotarianismo é a palavra do momento no Hemisfério Norte, especialmente na Inglaterra, onde o termo foi cunhado em 2005 por um grupo de universitários de Oxford. Dá nome a um movimento alimentar que visa, antes mesmo da preferência de cada um pelo sabor de uma comida ou outra, à preservação do meio ambiente.

Retirando o tom de religiosidade oriental e de moda que a revista IstoÉ, nos dedos de Claudia Jordão, imprimiu na matéria, é uma definição satisfatória. Portanto, sinteticamente posso afirmar que Ecotariano é um cidadão que possui uma dieta alimentar baseada na ética ambiental em termos ecossistêmicos preservacionista.

Um ecotariano, segundo Cláudia Sílvia, não necessariamente seria um vegetariano estrito (apesar da carne ser extremamente danosa ao meio-ambiente):

Além, é claro, da questão da carne: os ecotarianos não são contra seu consumo, desde que ele seja feito dentro de determinados parâmetros (sem exageros, de produtores locais e a partir de animais criados em condições dignas).

Mais bem-estarista que isso, só com os parâmetros bem estabelecidos e eufêmicos. Porém, não irei adentrar no mérito do Bem-Estarismo agora, pois não é o tema central dessa postagem.

O Ecotariano é apegado ao meio ambiente, a visão ecossistêmica, porém ignora (ou é bem-estarista) na questão individual para com os animais. Veganos, por outro lado, tem uma visão individualista muito mais desenvolvida que os ecotarianos, considerando as implicações do dano causado a um indivíduo isoladamente de forma positiva, e não negativa como uma visão ecossistemática requer.

Dennis Bluwol, em Ampliando a prática vegana: um processo libertário, aponta um alargamento das considerações veganas, atingindo a consideração ecológica. Assim, ele define ecoveganismo e suas considerações, a saber:

[...] É pensar o veganismo não apenas como uma opção de consumo – o que apenas possui poder transformador até certo nível –, mas, principalmente, como a construção de outros modos de viver e se relacionar; a construção de outras culturas, de outra forma de estar inserido no todo, na natureza.

Respeitar os ecossistemas é tão fundamental quanto respeitar os indivíduos. A própria oposição entre os dois já é problemática. Não há respeito a um sem respeito ao outro, pois são a mesma coisa. [...]

É preciso pensar, então, naquilo que é, certamente, altamente prejudicial – ou melhor, destrutivo – aos ecossistemas e toda vida que há nele. [...]

Cabe ao vegano, então, além de não consumir produtos advindos da exploração direta de animais, preocupar-se também com os danos ecológicos e ecossistêmicos de seus atos. [...]

Dennis, de certa forma, consegue suprir teoricamente o distanciamento que os veganos possuem para com a visão ecossistemática, como apontado em Continuidade Humano Animal.

O ecotarianismo é, portanto, um reflexo do ecologismo. Já o veganismo é o mínimo ético que os Direitos Animais pedem. Por sua vez, o ecoveganismo é uma saudável simbiose dos dois, levando em consideração uma visão ecossistemática e uma visão individual da problemática animal e ambiental.

Reflexões sobre o Especismo

terça-feira, 2 de março de 2010

O Especismo é uma forma arbitrária de discriminação, baseada na espécie daquele que sofre a discriminação. O especismo, contudo, pode assumir formas e incidir de forma diferenciada sobre os não-humanos.

Classicamente, há a divisão entre o especismo elitista, aquele que o agente acredita que sua espécie é a elite que possui o direito de explorar as outras espécies, e o especismo seletivo, em que o agente considera que sua espécie possui o direito de explorar determinadas espécies, excluindo outras dessa temível categoria. Para efeitos ilustrativos, o representante do primeiro é o cartesianismo, que colocava que apenas o ser humano, por ser capaz de falar, possui pensamentos e sentimentos, e logo não seria antiético torturá-los (apenas considerando eles per si). Já o representante do segundo é a esquizofrenia moral de Gary Francione, que pode ser simbolizado pela forma a qual o especismo se manifesta nos grupos autodenominados de protetores de animais, compostos por creófilos.

Assim, a divisão clássica trata da questão na forma a qual o agente discrimina. Isto é, não necessariamente nos fatos, mas sim no pensar do especismo.

O interessante é que os especistas não são reflexivos na maioria dos casos. Ou seja, eles não refletem muito antes de tomar como verdade os seus conceitos éticos. Os animais são inferiores pois o são. Não existe fundamento, a princípio. Apenas quando são indagados é que surge argumentos, tais como a eleição do intelecto como critério de seleção, escolha divina e outros chavões incoerentes, ilógicos ou/e nada importantes para a natureza da questão. Mas tudo isso se dá a posteriori, os argumentos surgem depois que se constata que os animais são inferiores aos humanos.

Há, então, de se verificar como se dá o especismo na prática.

Realmente, alguns especistas descriminam todos os animais, tratando cães e gatos tão miseravelmente quanto galinhas e porcos, e outros fazem de forma diferenciada. Porém, essa não é a questão que quero levantar, mas sim a da responsabilidade direta ou indireta dos atos especistas e sua graduação.

Qual seria a diferença entre um tutor de animais creófilo que compra seu bife no supermercado, o abatedor, o vivisseccionista e o caçador?

A diferença é que o tutor é indiretamente responsável pelo ato especista, já o abatedor, o vivisseccionista e o caçador realizam o ato especista pelas próprias mãos, isto é, diretamente. Assim, pode-se vislumbrar dois tipos de especismo de acordo com o grau de envolvimento e de responsabilidade: o especismo direto e o especismo indireto.

Não que um seja melhor que o outro, ambos são igualmente condenáveis. Contudo, o especismo indireto, para aqueles não muito conscientes de seus atos, é imperceptível. Isso é observável nos creófilos antivivisseccionista, anticaça e antipeles. Eles são antiespecistas diretos, porém são especistas indiretamente. Eles acreditam, ou simplesmente não se dão o trabalho de refletir, que o pedaço de cadáver o qual eles comem já foi um animal. Ou até mesmo que o seus silêncios a cerca do especismo em geral é uma forma de especismo.

Agora, o especismo também pode se vislumbrar quanto o posicionamento do agente quanto ao ato. Irei, portanto, considerar apenas os atos novamente.

Imaginemos dois sujeitos, um especista orgulhoso que vai a rodeios e seu amigo antiespecista. O especista financia um ato especista, que é o rodeio. Porém, seu amigo não diz nada a respeito disso. Ele estaria sendo especista? Sim, estaria. Ao não fazer, ele acaba por deixar de condenar o ato covarde, dando a entender que ele nada tem contra, ou que a amizade do sujeito importa mais que a vida do animal no rodeio, ou até mesmo que ele tem coisa melhor a fazer do que condenar o fato. Em todas essa hipóteses, o antiespecista está privilegiando o animal humano (ele ou o amigo dele) em favor do oprimido.

Assim, há de reconhecer dois tipos de especismo a partir dessa análise: o especismo negativo, aquele que deixa de fazer para se ser especista, e o especismo positivo, aquele que faz para ser especismo. Obviamente, há de se considerar a distinção entre fazer e não fazer, para que essa classificação seja percebida. Aquele que vislumbra o não fazer como um tipo de fazer indistinto dos outros fazeres não tem como observar essa classificação.

Sintetizando:

O especismo pode ser dividido quanto a forma que ele se dá quanto quem o agente discrimina, a forma a qual o agente se envolve e, por fim, a forma a qual o agente se posiciona diante do especismo.

1.Segundo o primeiro, pode ser:

a) Elitista – todos os animais são inferiores aos seres humanos.
b) Seletivo – alguns animais merecem mais consideração que outros.

2.Segundo o segundo, pode ser:

a) Indireto – o agente não participa do ato especista, mas o nutre e tira benefício dele (até se o benefício for negativo, isto é, o não confronto).
b) Direto – o agente participa do ato especista.

3.Segundo o terceiro, pode ser:

a) Negativo – o agente ao não fazer nada acaba por ser especista.
b) Positivo – o agente ao fazer algo acaba por ser especista.

Switch to our mobile site