A educação é o caminho para o abolicionismo animal

Cine da Frente de Ações pela Libertação Animal (FALA) do Distrito Federal do Brasil, uma típica atividade pedagógica abolicionista.

Cine da Frente de Ações pela Libertação Animal (FALA) Brasília, uma típica atividade pedagógica abolicionista.

O problema que o movimento abolicionista animal se propõe a enfrentar é gigantesco. Trata-se, só na pecuária, de uma quantidade inimaginável de animais (mais de 150 bilhões) que são destruídos no mundo anualmente. Não se tem ideia de quais são as cifras em outras áreas, como na experimentação animal. Contudo, tem-se certeza que os números são enormes, as implicações e interesses econômicos profundos e, sobretudo, a cristalização do paradigma cultural especista – isto é, que entende que os demais animais são moralmente inferiores aos humanos – uma realidade sórdida.

Como estratégia de luta, o movimento tem empregado especialmente táticas pedagógicas e institucionais. A educação, na forma da literatura abolicionista, documentários sobre a situação animal, além de outras modalidades pedagógicas difusas (como este blogue). Essa tática busca mudar o pensamento da sociedade sobre a situação dos animais, de uma forma mais difusa, porém, nem por isso, menos eficaz. Por outro lado, há também a organização de entidades de lobby, bem como partidos, que tratam de institucionalizar mudanças. Isso pode-se dar através de leis, programas e políticas públicas.

As duas táticas, que não encerram as que são adotadas pelo movimento, tratam de enfrentar o problema em níveis distintos, focando grupos diversos de pessoas com metodologias apropriadas. Todavia, observa-se que existe uma tendência maior dos abolicionistas percorrem o método difuso, social, em vez do institucional, que é praticado pelos bem-estarista (que, na realidade, não fazem parte do movimento em si).

A discrepância de adoção das táticas pode ser explicada de duas formas. A primeira delas é que o bem-estarismo, por ser parte do status quo, possui uma aceitação maior e consegue obter seus objetivos institucionalmente de forma muito mais fácil e rápida do que o movimento abolicionista. Outra explicação, mais próxima ao pensamento de Gary Francione sobre o que realmente consiste o bem-estarismo, é que este movimento em verdade não passa de uma linguagem suavizante da indústria que utiliza dos animais. Desta forma, na verdade quem está por trás do bem-estarismo são os próprios criadores e beneficiários primários da exploração animal. O resultado desta linha de pensamento é previsível: as leis, programas e políticas públicas “pró-animal” do bem-estarismo são, na verdade, pró-exploradores.

Superando qualquer avaliação do que realmente seria o bem-estarismo, pergunta-se: é possível existir uma abordagem institucional para o problema animal na contemporaneidade? Afinal, quando estamos diante de uma abordagem institucional, temos que levar em consideração que as instituições estão inseridas dentro de um contexto social. Este contexto social, atualmente, não é muito favorável para uma visão que inclua os interesses dos demais animais. Logo, não vejo sequer viabilidade de se inserir um discurso institucional forte, genuinamente abolicionista, na atualidade.

Mas, para efeito especulativo, o que consistiria em medidas institucionais abolicionistas? Temos que ter cuidado, nessa hora, de não cair em um discurso especista seletivo ou mesmo elitista, sob pena de não se tratar de abolicionismo e sim de um pensamento antropocêntrico qualquer.

Em matéria legal, o primeiro pensamento que pode surgir é a possibilidade de se proibir algumas “modalidades esportivas” que envolvem animais. Uma lei que diga “Art. 2º. Fica proibido a prática de vaquejada, rodeios ou qualquer outro tipo de atividade voltada a entretenimento que faça uso de animais.” Todavia, seria essa lei realmente abolicionista? Certo que ela veda, não regula nem condiciona, uma atividade tida como exploratória, todavia a sua mera promulgação sem a vedação de outras atividades igualmente maculadas, como a pecuária e a experimentação animal, não seria, de alguma forma, especista? Afinal, os animais que são vitimados nessas atividades são de espécies distintas. A priorização da vedação de uma determinada prática pode se revelar causada pela preferência dos humanos sobre espécies, o que se revela como especismo seletivo. Ou mesmo, a preferência dos humanos por determinado aspecto da vida. Da mesma forma, possíveis programas e políticas públicas teriam que ser abrangentes e profundos demais para poderem ser tidos como abolicionistas.

Ora, numa visão abolicionista devemos ter uma atitude de tudo ou nada. A aceitação de parcela de nossas demandas pode ser pragmática, em determinado contexto, todavia não pode ser vista sem reservas e com contento. Essa postura pode soar radical àqueles que praticam o especismo de forma sistemática – como é o padrão atual –, todavia é a única aceitável dentro de um paradigma que reconhece que outros animais, não só os humanos, possuem dignidade moral por conta de características próprias (como a capacidade de sentir dor e prazer ou de ter consciência de sua vida). Similarmente, não se espera uma flexibilidade por parte de um real defensor dos direitos humanos. Por quê se esperaria algo similar por aquele que defende os direitos animais?

Agora, pergunta-se: abordagens institucionais realmente abolicionistas teriam o efeito desejado? Seriam capazes de tornar a vida dos demais animais menos sofrida? Estou cético em afirmar positivamente. As pessoas fazem e deixam de fazer suas vontades por diversos motivos, mas a lei, um programa ou política social raramente são um deles. Muito pelo contrário, creio que tal medida pode criar um ressentimento e tornar a vida daqueles que se pretende proteger ainda pior, a exemplo do que ocorreu com os galos de rinhas (que não são realmente protegidos, devido à falta de fiscalização e cujos algozes ficam nas sombras).

Mudanças deste tipo demandam tempo e uma mudança de pensamento da sociedade. Não são possíveis através de decreto. E este tipo de mudança ocorre através da educação difusa, assistemática. A tática pedagógica, que já é sistematicamente empregada pelo movimento abolicionista, revela-se a mais adequada para o atual cenário, enquanto que os meios institucionais são capazes de gerar maior ressentimento, prejudicando o avanço da causa.

Como virei vegetariano e, depois, vegano

Cara, como você virou vegetariano?

Esta pergunta me é feita constantemente. E é natural que isso ocorra. Ainda somos minoria e “devemos explicações” para a sociedade. Afinal, o que é normal, isto é, a norma da sociedade é você não ser vegetariano. Tanto que é assim, que o termo atribuída para os não-vegetarianos normalmente ou são neologismos (carnistas, especistas) ou a ressignificação de palavras mais antigas (creófilos, creófagos). Esta, pois, é a minha história de como eu me tornei vegetariano e logo depois vegano.

Eu sou gaúcho, portoalegrense, de nascença e minha família próxima é toda do Rio Grande do Sul. O consumo de carne é um aspecto cultural que marca a ideia de gaúcho (os famosos churrascos gaúchos) que sempre esteve presente na minha criação, desde criança. Desta forma, nunca tinha questionado o ato de comer animais como imoral, antiecológico ou coisa parecida. Fazia parte de minha vida e da ordem natural das coisas.

Minha autoria. CC-BY-SA

Minha autoria. CC-BY-SA

No colégio onde estudei meu ensino médio, havia uma atividade global temática. No meu segundo ano, essa atividade estava vinculada ao tema do Meio Ambiente. Por conta disso, um belo dia, o professor de História, que não era muito popular, resolveu exibir um certo documentário. O documentário era Carne é Fraca, do Instituto Nina Rosa. A apresentação foi feita aleatoriamente e com pouca discussão antes, entre ou depois.

Como era de se esperar, saí na defensiva, correndo para o quiosque mais próximo, para comer a maior coxinha de galinha que podia encontrar. Forma de demonstração que estava pouco me lixando para o que tinha visto e que estava me rebelando ao documentário passado pelo professor (procurava evitar consumir essas coisas feitas em quiosques na época).

Logo após, entrei numa pequena cruzada contra o vegetarianismo, tentando contestar o argumento vegetariano de que a pecuária causa danos ao meio ambiente de forma significativa. Durante uma das palestras no evento do colégio, questionei um ambientalista local sobre esse dado. Felizmente, para mim, na época, ele concordou que os dados não eram contundentes e que era muito complicado ser vegetariano, devendo observar um processo longo e complicado para ser um.

Meu especismo estava são e a salvo, confortável. Bem, confortável até o ano seguinte, quando fui estudar para o vestibular.

AgecomBahia BY

AgecomBahia CC-BY

O último ano do ensino médio da classe média brasileira é um ritual de preparação intensa para o exame de admissão nas universidades. Na minha época (até parece que sou velho, mas é apenas para situar na realidade) se estudava para o vestibular (hoje em dia o ENEM, que já existia, mas era imprestável para a Universidade Federal). E lá fui eu, passar um ano de minha vida estudando e me preparando basicamente para essas duas provas que compunham o vestibular da Universidade Federal da Bahia.

Dentre os diversos assuntos de importância duvidosa para a minha vida profissional, estava o estudo da pecuária e seus impactos ambientais. Paradoxalmente, o professor que lecionava a matéria e preparou a apostila tinha o jeitão de caubói, com um largo cinto, só faltando um chapéu típico para ser a cara do pecuarista. Melhor, pecuarista de hábitos urbanos.

Apesar disso, constava na apostila dele dados que comparavam o impacto da pecuária na disponibilidade da água, sua participação nas emissões de poluentes atmosféricos e a quantidade de dejetos produzidos pelo setor. Eu fiquei, em verdade abismado. Não era um vegetariano chato inventando dado e jogando na minha cara. Era meu professor, um cara que orgulhava por estar para fazer uma granja industrial, que estava me informando esses dados.

Na época, a ideia que nos era transmitida era de absorver a maior quantidade de informação possível. Qualquer coisa podia ser tema de uma redação, de uma questão aberta, logo sempre é bom dar uma olhada na informação mais detalhada possível. Aprendê-la e dominá-la. E fiz isso com esses dados, procurei confirmá-los. Afinal, não era possível… eram tão… altos. Algo tinha que estar errado. Podia-se economizar tanto de água utilizada num banho longo ao deixar de consumir algumas gramas de carne.

Para meu tormento, os dados estavam corretos. E mais: consegui dados de vegetais, com direito a comparação de caloria ou nutriente por litro d’água ou grama de gás carbônico / gás metano. Os valores eram alarmantes e resolvi mudar. Mudar pois eu queria um mundo melhor e bom para as próximas gerações. Resolvi diminuir drasticamente meu consumo de carne. De três a quatro vezes por diai, para apenas uma refeição (almoço).

Por causa dessa mudança, tive que mudar também algumas das minhas refeições. Minha vida alimentar girava em torno de animais, e portanto conhecia poucas receitas sem eles. De primeira a soja foi a tábua de salvação. Contudo, como bom (futuro) ovolactovegetariano de início de carreira, abusava do queijo. Tudo ia queijo.

Ludmilla Tavares CC-BY-NC-ND

Ludmilla Tavares CC-BY-NC-ND

Devido ao contato com as receitas, inevitavelmente me ocorreu de encontrar argumentos favoráveis aos animais, que inicialmente e prontamente ignorava. Ignorava sabendo que havia coisa lá que me convenceria, mas não estava a fim de me influenciar. Afinal, se importar com os animaizinhos não é lá das coisas mais viris que se tem notícia, né?

Esse dilema todo durou, no máximo, três semanas. Até que resolvi analisar muito bem o Carne é Fraca. E achei, no final das contas, o documentário bem… fraco. Achei que não abordava uma série de questões sobre os maus tratos (que era o que eu não havia estudado até então, concentrando-me na questão do meio ambiente e vagamente com a questão da saúde (mais no sentido da viabilidade, não dos benefícios).

Diante dessa situação, resolvi assistir Terráqueos, que me foi propagandeado como a verdadeira face do ser humano, dos abatedouros, e que era extremamente terrível e aterrorizante. Que pese pessoas de sensibilidade divergente, consegui assistir ao filme do início ao fim, com uma pausa, mas várias lágrimas nos olhos. Terminei o filme exausto e me sentido culpado por participar de algo tão atroz. Foi então que decidi que aquele esquema de menos carne não funcionava. Que tinha que acabar, por um ponto final de minha contribuição ao que vi no vídeo.

Foi nesse dia em agosto de 2008 que virei ovolactovegetariano.

E como um bom ovolactovegetariano, eu achei que aquilo era o suficiente. Afinal, ser um ovolactovegetariano, para quem acabou de se tornar um, é uma enorme privação e mudança de visualização do mundo. Você acabou de deixar de comer animais… e daí, para se tornar um ovolactovegetariano meio ativista, é um passo.

Nesse período fui bem influenciado por Fábio Chaves. Tinha uma galeria na minha página do orkut apenas com as imagens da Passeata Vegetariana, uma coleção de imagens criadas por ele. Como era de se esperar, isso criou um certo atrito com meus conhecidos, e como minha extensa força de vontade e falta de conhecimento da causa (e de causa), eu me metia em flame wars.

Foi nessa época que conheci o Ativeg e a comunidade vegetariana aqui em Salvador/BA. Porém, como ovolactovegetariano que era, eu me sentia mal com os tais veganos. Afinal, eles se sentiam melhores que eu, que fazia já um bocado de coisa. Metia-me em pequenas confusões em algumas comunidades do orkut (em especial um Vegetarianos, moderado por uma gaúcha que demorava uma vida para liberar os usuários).

CEFET-MG CC-BY-NC

CEFET-MG CC-BY-NC

Quando finalmente acabou o período de vestibulares e exames, acabei me encontrando com muito tempo na frente e pouca coisa para fazer. Tive a sorte de não ter ido tão bem na prova para iniciar meus estudos em Direito na UFBa no segundo semestre de 2009. Juntando o fato que eu tinha plena consciência de ter que adquirir um hábito de leitura para fazer meu curso com tranquilidade, resolvi montar um programa de leitura durante esse tempo.

Dos livros que escolhi ler, eu peguei justamente dois que estruturam os Direitos Animais: Libertação Animal e Jaulas Vazias. Li os dois avidamente. No final fiquei convencido que ser vegano seria uma boa… mas no Brasil? Inviável. Sabendo da existência de um projeto de lei que propõe as empresas falarem se os produtos são veganos ou não, resolvi esperar até a promulgação dessa lei para fazer a mudança. Afinal, aí as coisas iam ficar tranquilas e viáveis.

Na época, eu conhecia uns dois ou três ovolactovegetarianos, nenhum vegano. Na verdade eu conhecia mais gente que praticava essa dieta, mas, na real, não sabia que eles eram. O que importa é que eu estava me sentindo sozinho, sem pessoas para partilhar de minhas angústias tipicamente vegetarianas (onde comer, o problema do especismo, essas coisas). Na internet eu pesquisei mais blogues, quando conheci o trabalho de Robson Fernando. Na rede social, encontrei um grupo de vegetarianos da cidade que pretendia fazer um piquenique.

Eventualmente esse piquenique aconteceu e daí descobri que eu, enquanto ovolactovegetariano estava em minoria na ocasião. Para mim aquilo foi um choque. Pelo visto não era tão impossível assim ser vegano em Salvador.

ASCOM - Prefeitura de Votuporanga CC-BY

ASCOM – Prefeitura de Votuporanga CC-BY

Paulatinamente fui me informado dos aspectos nutricionais da dieta estritamente vegetariana, bem como receitas, e fui removendo os produtos de origem animal da minha dieta. Prometi a mim mesmo que depois da páscoa de 2009 deixaria essa vida de exploração para trás. Depois de me esbaldar em ovos de chocolate com leite (fazer meu intestino sofrer por causa disso), cumpri minha promessa.

Até hoje a cumpro.

Eu poderia fazer mais um texto, mais extenso do que este já foi, para dizer o que mudou minha vida com o veganismo. Resolvi fazer um breve resumo:

  • Passei a conhecer o que eu consumo. Quem é vegetariano e, especialmente, vegano, sabe o que vai nos produtos que compra. Ir ao supermercado exige óculos, pois é hábito olhar as letras miúdas dos produtos. Aprendi a olhá-los automaticamente, a saber o que estou colocando para dentro.
  • Sentimento de pertencimento. Um dos pontos negativos do veganismo é um relativo isolamento social. Muitas atividades sociais envolvem o especismo e sua celebração (churrascos, ir para rodeio e afins). Do outro lado, o fato de você ser vegano lhe faz normalmente bem vindo em ambientes veganos. Daí surgem amizades e um senso de comunidade amorfa.
  • Sentimento de estar fazendo a diferença. Não sou das pessoas mais otimistas. Pelo contrário, já demonstrei em alguns momentos (neste, especialmente), uma desilusão em relação aos efeitos prático do que fazemos. Porém, é inevitável concluir que simplesmente por não estar colaborando com o status quo, está fazendo a diferença numa possível mudança da realidade.
  • Deixei de acreditar que, por ser humano, sou especial. Última, mas a mais importante coisa que mudou na minha vida, foi ter retirado a ideia especista que estava na minha cabeça desde então. Essa mudança é paradigmática, passando a afetar sua visão de mundo e sua visão de si. O restante é consequência disso. Até antes dessas reflexões pelas quais passei, eu tinha a firme convicção de ser detentor de uma superioridade sobre qualquer outro ser vivo que já tivesse rastejado pela Terra. Isso mudou com o veganismo. Uma mudança para melhor.

Considerações sobre a Segunda sem Carne

altopower BY-NC-ND

altopower BY-NC-ND

O projeto Segunda sem Carne, promovida pela Sociedade Vegetariana Brasileira, tem como objetivo é “[...] conscientizar as pessoas sobre os impactos que o uso de carne* para alimentação tem sobre o meio ambiente, a saúde humana e os animais, convidando-as a tirar a carne do prato pelo menos uma vez por semana e a descobrir novos sabores.” Trata-se de uma campanha educativa, que busca apresentar o vegetarianismo às pessoas, de forma não radical.

A ênfase, que é evidente, é a abstinência da carne, da alimentação a partir do corpo de outros animais. Apesar de oficialmente a campanha promover o vegetarianismo puro, dentro da motivação que interessa aos animais, inclusive apenas recomendando receitas veganas, a abstração inicial – que é a que fica imprimida na mente -, é a mera abstinência do consumo de carne. Afinal, é o dia sem carne, não o dia sem carne, ovos e leite. Dessa forma, salvo uma leitura criteriosa, essa campanha não promove a abolição do uso dos animais na alimentação, o vegetarianismo puro ou estrito, mas sim, na pior das hipóteses do ovo-lacto-vegetarianismo.

Fica claro que, a princípio, essa campanha esbarra no especismo, que pretensamente tenta combater). Pois, se essa segunda não tem carne, ela pode ter leite, queijos e ovos. Sônia T. Felipe, ao analisar a situação em que se encontram as vacas leiteiras, por exemplo, denuncia

[...] o sofrimento delas não se limita ao momento da ordenha, nem à inflamação do úbere. Ficar de pé, sustentando o peso do corpanzil sobre as patas com os cascos inflamados e deformados não é uma forma agradável de passar dois a quatro anos da vida. Por fim, ser empurrada para um caminhão e seguir até a esteira rolante do abatedouro quando não produz mais os hormônios necessários para gestar e lactar, sofrendo todo o processo do abate industrial, também não é uma mor livre de sofrimento. (FELIPE, Sônia T. Galactolatria. São José: Ecoânima, 2013, p. 245)

Que pese um pensamento exclusivamente bem-estarista animal, não é tolerável que se estimule um comportamento que leve a esse tipo de consequência. Se pode dizer que nem todas as vacas sofrem isso, que existem vacas felizes. Porém, esse argumento é limitado no escopo ideológico do bem-estarismo e no escopo factual das verdadeiras vacas felizes. Não são as vacas felizes que fornecem o leite para o sorvete de baunilha e para a torta da confeitaria da esquina. E é justamente essa questão, da alimentação social ou externa, que tem sido o problema prático levantado contra o veganismo.

Naturalmente, devemos talvez ser menos severos com esse problema. Afinal, “é apenas um começo, um início”. Isso que argumentaria um promotor da Segunda sem Carne. Com todo o respeito a quem entende assim, eu preciso discordar.

Uma segunda sem carne não é o começo para a proposta abolicionista. Uma segunda sem especismo que seria. E, assim mesmo, cai no problema disso ser inadmissível quando substituir o problema animal por um humano, como “segunda sem racismo” ou “segunda sem sexismo”. É mendigagem, com apelo ao pragmatismo.

Todavia, eu não conheço nenhum dado que demonstre a efetividade dessa campanha, sequer conheço alguém que se tornou quiçá ovo-lacto-vegetariano por causa dessa campanha (se você for um deles, comente neste post!)

Muitos dos apoiadores célebres da campanha são vegetarianos (no sentido largo). Peguei, como demonstração, o ex-ministro Gilberto Gil. Coloquei o nome dele e “vegetariano” no Google e as únicas coisas que surgiram foi o apreço dele pela comida, a adesão dele à campanha e referência a um tal de vatapá vegetariano. Parece que ele é macrobiótico, o que não é mesma coisa que qualquer modalidade de vegetarianismo.

Isso revela a falta de contradição entre a prática da creófilia e a própria campanha. E uma campanha que pretende beneficiar os animais sem entrar em atrito com o especismo, é, minimamente, curiosa. Certo, ela pode ter adotado um apelo amistoso junto com os especistas, mas não foi ao ceder e lhes conceder um ponto de conforto?

Se for, ponto de conforto não é uma partida de início, mas sim um local onde se para, onde se senta, pega um gelado suco de mangá (e, para quem bebe, uma cerveja geladíssima) e fica tranquilo, contemplando a vida. Os animais não precisam de mais pontos de conforto, mas sim de mudanças.

Segunda sem Carne em Teresina: olhe o perigo!

Imagem da campanha Segunda sem Carne.

A proliferação da desinformação é um fenômeno consumado na internet. Basta algum ser humano escrever alguma coisa, qualquer coisa, num lugar na internet, para que outros seres humanos compartilhem (para usar o termo do Facebook) até se espalhar por todo canto.

De vez em outra – com uma frequência muito maior do que gostaríamos – há a reprodução de besteiras, equívocos, de coisas que não são necessariamente verdadeiras. E tenha certeza: isso está acontecendo agora mesmo.

E aconteceu quando algum ser humano foi tratar sobre a lei do Segunda sem Carne de Teresina/PI.

Para quem não conhece, a campanha Segunda sem Carne, que, no Brasil, é promovida pela Sociedade Vegetariana Brasileira, tem como objetivo: “[...] conscientizar as pessoas sobre os impactos que o uso de carne* para alimentação tem sobre o meio ambiente, a saúde humana e os animais, convidando-as a tirar a carne do prato pelo menos uma vez por semana e a descobrir novos sabores.” É mais uma daquelas campanhas educativas que compõe a maior parte do ativismo pró-animal brasileiro.

Apesar desse tipo de lei ou medida ter sido tomado por outras unidades da federação, como São Lourenço da Serra/SP, Osasco/SP, Niterói/RJ, Curitiba/PN, Rio de Janeiro/RJ, São Paulo/SP, Distrito Federal e São Paulo, a lei que foi promulgada em Teresina teve uma repercussão muito mais… digamos, curiosa.

Veja, por exemplo, um texto sobre o caso publicado no portal CicloVivo, “[...] um site com o objetivo de informar as mudanças e novidades do mundo da sustentabilidade, além de fomentar atitudes mais positivas e conscientes”. Nele, antes das devidas correções, os autores afirmavam que tal lei proibia a comercialização de carne durante às segundas-feiras. Alguns dias depois, felizmente, o mesmo portal editou a notícia e fez constar uma errata que corrigiu o equívoco – que era, bem, o conteúdo integral da notícia.

Essa notícia foi reproduzida, inclusive na ANDA, e repercutiu em textos de um dos colunistas da VEJA. Curiosamente, Constatino – o colunista em questão – apenas enxerga a saúde humana como importante para a campanha Segunda sem Carne. Pelo visto ele não conhece a campanha que tanto criticou.

Por fim, o texto da lei é o seguinte:

Lei Nº 4.411 de 2013

O PREFEITO MUNICIPAL DE TERESINA, ESTADO DO PIAUÍ Faço saber que a Câmara Municipal de Teresina aprovou e eu sanciono a seguinte Lei:

Art. 1º Fica instituído e incluído, no calendário o? cial de eventos de Teresina, o Dia da “Segunda sem Carne”, a ser comemorado, anualmente, na primeira segunda-feira do mês de outubro, com o objetivo de conscientizar as pessoas sobre os impactos ao meio ambiente, à saúde humana e aos animais do consumo de carne na alimentação.

Art. 2º Na data de que trata esta Lei, serão realizadas palestras, debates, seminários e outros eventos que estimulem as pessoas a mudarem padrões de consumo.

Art. 3º O Poder Executivo Municipal regulamentará a presente Lei, no que couber, no prazo máximo de 120 (cento e vinte) dias, contados da data de sua publicação.

Art. 4º As despesas decorrentes na execução desta Lei correrão por conta de dotação orçamentária própria, suplementada, se necessário.

Art. 5º Esta Lei entra em vigor na data de sua publicação.

Art. 6º Revogando-se as disposições em contrário.

É uma lei simples, de seis artigos. Seis artigos.

Custava pouco consultá-la antes de escrever coisas com tamanha repercussão? Afinal, uma lei que proíbe a venda de carne em algum centro urbano no Brasil, um país especista, é impensável. E uma lei que proíbe a comercialização de qualquer coisa em determinados dias da semana, em especial segunda-feira (pois não possui nenhuma conotação religiosa esse dia), é, no mínimo, bizarra neste país. Ou seja, tratava-se de uma lei impensável e bizarra.

Apesar disso, o filtro dos jornalistas na internet brasileira está meio franco, bem como a vontade deles irem atrás da fonte – a Câmara de Vereadores de Teresina. Pelo visto há uma predisposição no sentido de associar ideias absurdas, reitero, absurdas, à defesa dos direitos animais e ao vegetarianismo. Uma lei que apenas se propõe a conscientizar as pessoas se torna, com um estalar de dedos, uma lei que proíbe a venda de carne durante um dia da semana, sem que isso desperte a atenção de quem a reproduz. Isso revela uma situação de fragilidade política do movimento, perante a sociedade. Talvez uma falta de credibilidade, talvez um compromisso dos agentes replicadores com a desinformação, ou mesmo uma concorrência desses dois fatores sustente essa situação.

Enfim, o cenário político para os animais ora parece estar melhorando (que pese as críticas, o Segunda sem Carne é uma iniciativa que promove melhorias no combate ao especismo) no legislativo, junto ao poder público, ora está recuando nas formas não tão tradicionais de se fazer política. Se revela imperioso o combate à desinformação.

Animais enquanto propriedade e o Especismo

Ricardo Pichler CC-BY-NC-ND

macinete CC-BY

O Especismo, como já tratei neste blogue, é a uma forma arbitrária de discriminação que tem por base a espécie do indivíduo discriminado. Esse fenômeno, que pode ser observado no discurso antropocentrista professado pelas culturas hoje prevalecentes – nossa inclusive –, justifica diversas condutas humanas, tais como o uso de animais como cobaias, a exploração da tração animal, do uso dos animais no entretenimento, em determinados ritos religiosos e, marcadamente, na alimentação humana.

Por ser algo que abrange uma gama ampla de condutas humanas, boa parte da sociedade está imersa no especismo, o vendo de forma acrítica, com naturalidade. Não é a toa, portanto, que haja pessoas que dedicam suas vidas a profissões que existem por causa e em razão do especismo, a exemplo da pecuária. Ainda, aquelas atividades que envolvem animais, mas não necessariamente com um norte antropocêntrico, o adota, como é o caso da medicina veterinária, que está voltada para o aumento da produtividade dos animais perante interesses de seus ditos proprietários.

Que se pese a relevância de todas as relações marcadas pelo especismo, esta ideologia se encontra aperfeiçoada com o ato de compra de animais. Mas o que exatamente quer dizer comprar? Comprar é o exercício de duas autoridades sobre uma coisa. A primeira autoridade é que era dono da coisa, quem comandava esta coisa e ditava seu destino. A segunda autoridade é quem, através do trabalho, seu ou de outro, vai adquirir essa coisa. O ato de comprar é o exercício de soberania do comprador sobre a coisa, e marca uma distinção de gênero: entre aquele que possui e o que é possuído.

A ideia de se comprar animais, e suas consequências morais e jurídicas, são repercussão do aperfeiçoamento da ideologia especismo dentro da realidade capitalista contemporânea. Com a compra, o possuidor adquire não só simbolicamente a coisa (pois, na vida real, ninguém é dono de nada, apenas está usando a coisa no momento ou não; adonar-se é um fato jurídico, moral, econômico, resultado das relações humanas), mas simbolicamente se torna autorizada a exercer uma série de poderes jurídicos, os poderes elementares da propriedade.

Carlos Roberto Gonçalves, desembargador do Tribunal de Justiça de São Paulo, no quinto volume de seu curso de Direito Civil brasileiro, elenca como poderes da propriedade: “[...] usar, gozar e dispor de bens, bem como reavê-los de quem injustamente os possua.” (GONÇALVES, 2010, p. 230) Quando animais estão envolvidos, temos que levar em consideração a consequência prática de cada um desses poderes.

Usar, segundo o supracitado autor, “[...] consiste na faculdade de o dono servir-se da coisa e de utilizá-la da maneira que entender mais conveniente […]. A utilização deve ser feita, porém, dentro dos limites legais e de acordo com a função social da propriedade.” (GONÇALVES, 2010, p. 230) É com base nesse direito que aqueles que compram animais sadios os matam para comercializar ou ingerir seus corpos (vulgo, abate); que os biotérios negociam os animais com destino ao comércio de cobaias.

Gozar, por sua vez, segundo o mesmo magistrado paulista, consiste em “[...] perceber os frutos naturais e civis da coisa e de aproveitar economicamente os seus produtos.” (GONÇALVES, 2010, p. 230) Esse direito, por sua vez, permite a escravização sistemática de galinhas granjeiras (seus ovos são “os frutos naturais” das galinhas) com vista no lucro.

Dispor, ainda com base na obra multicitada, “[...] consiste no poder de transferir a coisa, de gravá-la de ônus e de aliená-la a outrem a qualquer título. […] Nem sempre, portanto, é lícito ao dominus destruir a coisa que lhe pertence, mas somente quando não caracterizar um ato antissocial.” (GONÇALVES, 2010, p. 230 – 231). E, quando se fala de ato social, se fala em respeito ao princípio da função social da propriedade, e não numa ideia de eticidade maior. É com base nesse poder que se comercializa animais e os abandonam, quando inservíveis para os fins dos poderes anteriores.

O último desses poderes é autoexplicativo e demonstra ainda mais a perda de liberdade dos animais sobre seu destino.

Esses poderes fazem sentido quando outorgados a algo que não possui autodeterminação alguma, que não tenha capacidade de promover o uso de seu corpo e gozar de suas habilidades. Não é o caso dos animais sencientes, que possuem pelo menos um objetivo para seu corpo: buscar situações subjetivamente atraentes e afastar aquelas desinteressantes.

Posicionamento dito moderado pode entender que haja a possibilidade de um meio-termo. Este meio-termo, imagino, seria que os animais podem ser sim adonados por alguém, porém o exercício dos poderes elementares da propriedade seriam limitados, com a impossibilidade dos donos matarem esses animais, explorar a condição deles para proveito egoístico ou mesmo vendê-los para quem entender. Uma propriedade responsável, já ouço.

Uma propriedade limitada o suficiente para proteger os animais não é uma propriedade de verdade, é a assunção de responsabilidade de alguém em cuidar do animal que se tornou proprietário. No mais, que propriedade seria essa com tão limitados poderes, sobretudo o poder de disposição (que é considerado o mais importante para o autor já citado)? Aceitar poderes mais amplos coloca os animais em posição de factual coisificação que é inadmissível para seu estado de autodeterminação.

A pessoa que se torna responsável por proteger um animal, gerir sua vida no que for incapaz de fazê-lo, de cuidá-lo e responsabilizar pelos danos que este cause a terceiro, como tende ser a finalidade da manutenção de propriedade parece se aproximar mais dos institutos da tutela e curatela do Direito de Família. O primeiro consiste em “[...] uma medida assistencial, tendente a substituir a autoridade parental, com o escopo de proteger a criança ou adolescente, obstando que a ausência de uma pessoa para exercer o poder familiar possa prejudicá-la” (FARIAS, ROSENLVAD, 2011, p. 888), enquanto a curatela é “[...] o encargo imposto a uma pessoa natural para cuidar e proteger uma pessoa maior de idade que não pode se autodeterminar patrimonialmente por conta de uma incapacidade.” (FARIAS, ROSENLVAD, 2011, p. 926). Daí que surge a ideia de denominar a pessoa responsável por animais de estimação de tutores ou curadores destes animais, algo que prevalece na literatura animalista atual, diante do especismo marcante na locução dono de animal.

Portanto, se revela patente que é no instituto jurídico da propriedade sobre os animais que reside a legitimação do especismo, o ápice de seu aperfeiçoamento. Com ele se nega a natureza autodeterminante dos animais sencientes, se outorga poderes de grande amplitude aos humanos que simbolicamente os adona, legitimando os atos que estes humanos promovem contra os interesses dos animais adonados.

A propriedade, portanto, se revela extremamente incompatível com os animais sencientes. O reconhecimento dela sobre esses animais legitima o especismo na forma que se manifesta na sociedade capitalista contemporânea.

Referências

FARIAS, Cristiano Chaves de; ROSENVALD, Nelson. Direito das Famílias. 3ª. Ed.. Rio de Janeiro, Lumen Juris, 2011.

GONÇALVES, Carlos Roberto. Direito civil brasileiro, volume 5: direito das coisas. 5ª Ed.. São Paulo: Saraiva, 2010.

A questão do Capitalismo Vegano

A comunidade vegana no Brasil é heterogênica. Isso é constatado através quando se vai a eventos de nível nacional ou mesmo ao veganique local. Não é a toa, portanto, que surjam uma diversidade de posicionamentos que mesclam religião com a questão animal; propostas sociais com a questão animal; e, naturalmente, ideologias políticas envolvendo esta questão. Daí que surgem as críticas teológicas ao especismo, a vinculação do veganismo ao feminismo e, por fim, o veganarquismo.

São posições mistas, peculiares, que aumentam a diversidade ideológica dentro do movimento dos Direitos Animais – para seu bem e para o mal.

Dentro deste contexto, existe um conjunto de cruzamentos ideológicos com o veganismo que contesta a hegemonia do capitalismo. Há quem, a exemplos dos veganarquistas, apontam o capitalismo como sustentáculo do especismo como atualmente se encontra. Posicionamentos como esse são de grande relevância prática, uma vez que procuram deslegitimar empreendimentos voltados ao veganismo ou dirigido por veganos, ao entender que são maculados pelo capitalismo, e, por outro lado, procuram dar atenção a outras formas de organização econômicas não-empresariais, como as cooperativas.

Mas qual seria o problema com o capitalismo, dentro do contexto ideológico dos Direitos Animais?

Preliminarmente cabe comentar que a supremacia do capitalismo na atualidade, tanto no ocidente como no oriente, se consolidou. Com o fim da União Soviética, a oposição a esse sistema econômico se ruiu, restando apenas poucos focos de resistência ao capitalismo nos moldes praticados nos Estados Unidos e na Europa. O passar do tempo revelou-se cruel em relação aos países socialistas remanescentes: a República Popular da China tornou-se capitalista, Vietnã idem, enquanto que a Cuba e Coreia (se é se pode afirmar que é socialista) se isolaram.

Apesar dessa supremacia, a permanente crise do capitalismo torna a desilusão pelo sistema constante. Tal desilusão possui como fundamento questões de ordem ética (se o capitalismo é justo ou não, a questão dos pobres, da herança etc.) e prática (se o capitalismo é sustentável). O tema deste post será restrito ao primeiro ponto, e não da forma que normalmente é tratada. Veremos se o capitalismo e o veganismo são incompatíveis.

Para visualizar a compatibilidade entre os dois pensamentos, inicialmente, cabe mencionar a questão da ética voltada a ideia de “valor inerente” dos sujeitos morais permeia todo o discurso animalista, e que não seria apropriado estes sujeitos serem tratados como meio para alcançar o fim de outro. Humanos, como sujeitos morais que são, não poderiam ser utilizados como fim de outro. O capitalista vê na mão-de-obra um insumo para aumentar a o acúmulo de bens para si. Desta forma, o ser humano, enquanto mão-de-obra, seria visto de forma diversa daquela que deveria: como instrumento, sem valor que lhe é inerente.

A primeira vista, esse pensamento parece ser lógico. Porém, com uma análise sobre como se dá o “comércio” de mão-de-obra na sociedade capitalista, se observa que não é exatamente assim que as coisas acontecem. Em verdade, só vende seu trabalho quem quer. E esse trabalho tem de ser remunerada. Quando o capitalista remunera, ele reconhece que a pessoa que está trabalhando para si possui um valor inerente, que é uma pessoa e que não é uma coisa. Quando se permite que o trabalhador tenha a sua vontade, de ficar ou não na empresa, respeitada, se reconhece o seu valor inerente, de pessoa com autodeterminação.

Não obstante, há quem culpe o capitalismo pelo especismo. O capitalismo, ao focar no lucro, estimularia o especismo e só poderia se dar com o especismo, tendo em vista que há diversos ramos econômicos vinculados ao especismo que são caros ao sistema, a exemplo da agropecuária. Não vejo como discordar mais dessa preposição. Basta analisar a história da humanidade.

O capitalismo é uma estrutura recente: data-se, pelo menos, do desenvolvimento do mercantilismo das grandes navegações. O especismo, por outro lado, pode ser observado em textos da antiguidade, a exemplo do Velho Testamento, predatando o capitalismo. Dessa forma, pode-se dizer que existe uma máquina capitalista assentada em cima do especismo, mas não que o especismo seja um filho do capitalismo.

São coisas diferentes e que não possuem ligação senão a outorga moral que o especismo dá ao capital para trata os animais como mercadoria.

O chamado capitalismo vegano, isto é, o capitalismo limitado pelo veganismo é possível e deve ser estimulado na forma das empresas focadas em produtos veganos. Há quem assuma uma posição anticapitalista, aproprística a questão animal. É completamente compreensível, compatível e esperado que aquela pessoa que já é anticapitalista, ao se importar com os Direitos Animais promova as duas questões em conjunto. Porém, negar o capitalismo vegano me parece restringir o potencial do veganismo e dar mais empecilhos para que alcance o seu objeto: se tornar normal.

Adotar, misturar e condicionar o veganismo a outras ideias o torna ainda mais peculiar e levanta uma quantidade de oposições maiores do que ele puro teria.

PS: desculpe-me, leitor, pelo extenso lapso temporal entre este e o último post. O foco de minha atenção desviou-se e, portanto, não pude investir tanto tempo neste projeto.

A Visão Teleológica e os Animais

1. Introdução

A visão teleológica, conforme a lição de Michael Sandel em Justice, é aquela que compreende que tudo que existe possui um fim específico. Está assentada no pensamento aristotélico, possuindo um reflexo moral, no sentido de que o ato moral é aquele que corresponde a otimizar o cumprimento do fim de cada coisa.

Temos por exemplo didático a questão da flauta. A melhor das flautas, dentro dessa visão, não deve ser destinada ao mais rico ou mais virtuoso, mas sim ao melhor flautista, pois este poderá cumprir a finalidade da flauta – que é fazer música – com melhor presteza.

A grande problemática deste pensamento é que ele carece de cientificidade, justificando coisas utilizando argumentos verdadeiramente absurdos: que o fim das coisas é ir para seus devidos lugares, que o lugar do fogo é no céu, que o lugar da terra é abaixo, que o lugar da água é entre esses dois. Em outros tempos, esse tipo de explicação tinha seu espaço, porém hoje sabemos que não é assim que a natureza se comporta.

Apesar de suas marcantes limitações, o pensamento teleológico ainda encontra espaço em nossos sistemas de crenças, especialmente no dito conhecimento popular e no pensamento religioso leigo. Não é, portanto, a toa que o pensamento teleológico procura justificar o atual trato com os animais.

2. A visão teleológica como expressão do especismo

A visão teleológica talvez seja, hoje em dia, uma das obstruções mais comuns ao diálogo quando se trata de Direitos Animais. Apesar disso, não foi tratado de forma sequer superficial nas obras clássicas de Tom Regan e Peter Singer. A conversa tradicionalmente se dá na seguinte forma: “Os animais não devem ser tratados como propriedade”, diria o abolicionista; “Mas então, para que servem os animais, senão para serem propriedade?”, contestaria o especista. Os animais, dentro dessa lógica, teriam um devido fim, qual seja: serem usados para fins maiores, humanos.

Essa finalidade seria determinada pela essência dos animais, por sua falta de racionalidade e por sua composição orgânica. Exemplificando: “Os irracionais devem ser usados pelos racionais” e “os animais são feitos de proteína, logo devem ser servidos de alimento.”

Fora deste cenário, mais próximo ao senso comum e altamente disseminado, há, ainda, uma forma de pensamento teleológico com fundamento na religião e no naturalismo ético (este último já foi tratado por mim, em outro momento).

O pensamento teleológico religioso possui a mesma linha argumentativa justificante: os animais foram feitos para serem tratados como mercadoria; porém essa finalidade se dá através do criador. O criador, pois, que criou os animais para esse fim. Eles não são, por essência, feitos para esse fim, mas por questões mandamentais. A diferença é crucial, pois, dentro desse tipo de pensamento, é inafastável a prescrição. Pode tratar os animais como mercadoria ser algo que tenha consequências nefastas, porém ainda eles deverão ser tratados desta forma. Numa visão teleológica simples não há essa rigidez, posto que as consequências iriam revelar o erro inicial, a falta de correspondência da ideia – que a essência dos animais determinam o trato daquela forma – com a realidade. A dogmática religiosa não permite tal revisão.

Tem-se, pois, o melhor exemplo para ilustrar a síntese do teleologismo e da religiosidade é a infame fala de Sarah Palin, ao defender o consumo de carne: “If God had not intended for us to eat animals, how come He made them out of meat?” (“Se Deus não pretendia que nós comêssemos animais, porquê Ele os fez de carne?”)

Como se vê, no exemplo, na visão teleológica religiosa os animais foram feitos para serem usados pelos seres humanos. Essa finalidade coincide com o pensamento naturalista, por ser derivado da própria composição dos animais, porém possui como lastro a criação divina, que direcionou a finalidade de cada criação através de sua propriedade.

O pensamento teleológico naturalista, por sua vez, procura, através da teleologia, justificar o uso dos animais através da ideia deles terem esse fim, porém não em consequência de sua suposta essência, mas sim devido a natureza das coisas. Sintetizando a ideologia moral naturalista, trata-se de um conjunto de ideias que confundem o que é natural (como a propriedade das coisas e como o estado atual delas) com o que é moral. Logo, tudo que é natural é moral. Não iremos, aqui, criticar essa ideologia – coisa que já fizemos, com exaustão, alhures –, restringido-me a tecer comentários a respeito do pensamento teleológico dentro do naturalismo. É, pois, como evidente, um círculo fechado, que justifica o que está sendo feito com base naquilo que está sendo feito. No final das contas, a visão teleológica naturalista é altamente conservadora, se preservando indefinidamente. Uma visão ética que não permite ver o que não seja o status quo não possui compromisso com a verdade, mas apenas com a realidade constituída.

São, portanto, basicamente essas as dimensões do teleologismo quando o problema são os animais não-humanos.

3. Conclusão

A visão teleológica, apesar de historicamente importante, se revela como um obstáculo à superação do especismo. O pensamento de que os animais possuem necessariamente um fim, normalmente um desfavorável a eles, possui assentamento nesta visão moral, sendo encontrada além na modalidade pura, conjugada com a religiosidade e o naturalismo ético. O senso comum, infelizmente, deve muito a essas modalidades, justificando, carecendo de sentido, o trato de animais como mercadoria.

“Pode conter traços de leite”

Ricardo Pichler CC-BY-NC-ND

A questão dos produtos que possuem, em seus rótulos, o aviso “Pode conter traços de leite”, e suas variações, sempre foi um caso controvertido entre os veganos. A maioria simplesmente consome esses produtos, mas há aqueles que são taxativos: “se pode ter leite, não consumo!” Para aqueles que consomem, esse aviso apenas serviria para os alérgicos, não havendo a necessidade de tamanho francionismo. Contudo, há pouca pesquisa real sobre esses rótulos para justificar esse pensamento.

As autoridade, nem a ANVISA, nem o Ministério da Saúde, não fazem nenhuma menção aos “traços de leite”; não existe lei disciplinando o assunto (ao contrário do glúten), só restando um projeto de lei. A conclusão de que esses termos são usados, de forma uniforme na indústria, para salvaguardarem-se contra possíveis problemas com os alérgicos não passa de especulação. Uma especulação com uma dose de bom senso [1], mas ainda uma especulação.

O oráculo contemporâneo nos revela a repetição de um pensamento, que não sabemos a origem nem procuramos sabê-la. Dos dez primeiros indicados, o primeiro afirma:

Os traços de leite são, na maioria das vezes, uma “contaminação” do produto, que passou por uma máquina onde foram fabricados produtos com leite ou derivados. Assim, eles acabam adquirindo quantidades mínimas desses ingredientes durante a fabricação. – Luciane Baldo.

(Reproduzido por ViSta-se e vegetarianismo.com.br.)

Continua-se repetindo o mesmo argumento:

Para as pessoas alergicas à alimentos existe um termo chamado Traços.
Traços é quando durante a preparação de um alimento ele é “contaminado” com pequenas partes de outro.” – Anne Summers.

Veja-se, pois, que não há menção sobre a referência testemunhal, documental ou oficial fundamentadora destes pensamentos. Ou estão nos ocultando esses dados cruciais ou simplesmente não passa de repetições (ou criação) de especulações.

O último site que consultamos é o Viva Veg Já, que possui como base um texto do orkut apógrafo – confessando que sequer procurou averiguar a veracidade da informação.

Apesar da flagrante ignorância real sobre a natureza dos “traços de leite”, não é lúcida a posição daqueles que afirmam: “Há leite, logo não como!”; isto pois não tange a questão, que é o especismo, a relação de dominação entre os seres humanos e os outros animais (no caso, bovinos). O que realmente está em questão não é se há este ou aquele derivado de animal, mas se se foi necessário o uso (incluso o extermínio) de animais para alcançar a feitura daquele produto.

Concluindo, não é possível afirmar, com a devida segurança, que “traços de leite” seja um fato acidental. A nebulosidade regulamentar exige uma atitude mais cautelosa, impondo uma pesquisa mais competente por parte daqueles que possuem melhor acesso à indústria alimentícia para solucionar a questão de forma apropriada.

 

[1] O bom senso nesse pensamento reside em normas do Código de Defesa do Consumidor, que dispõe que o consumidor deve ter sua saúde zelada (art. 4º, caput; art. 6º, I)  e que lhe deve ser fornecido informações precisas (“pode conter”, ao meu ver, não é nada preciso) sobre seus produtos (art. 31).

Obs.: se alguém tiver informações confiáveis que me contradigam, por favor, me avise nos comentários; sim, voltei mais cedo do que planejado.

Abolicionismo, Bem-Estarismo e Socorrismos: notas sucintas

Quem me conhecia há alguns anos atrás sabe que eu entrei nesse movimento de paraquedas. Lá em 2008, quando comecei minha jornada como vegetariano num mundo creófilo, fiz a coisa mais sensata a se fazer naqueles anos: procurar uma comunidade do orkut de vegetarianismo. O primeiro que achei era “Vegetarianos”, com dezenas de milhares de membros. Na época já existiam as enquetes, e uma das primeiras que me deparei era: “Abolicionista ou Bem-Estarista”. Como neófito no meio, aquilo me era grego… porém com aquela ritmo de vestibulando, que “precisa ter opinião formada de tudo” fiz uma escolha: Bem-Estarista. Afinal, bem estar é algo muito melhor do que abolir, não?

Obviamente, eu fiz a “escolha” de forma equivocada, sem saber o que diabos eu estava escolhendo. Nos comentários da enquete, havia muita gente perguntando, ninguém respondendo. Este texto é dedicado a todos que não tiveram resposta em 2008, com quatro anos de atraso. Por ser um post estritamente conceitual, tentarei ser o mais breve possível.

Obs.: não faço elucidação a Peter Singer por não concluir, pessoalmente, que ele pertença a alguma determinada corrente.

Abolicionismo

O Abolicionismo Animal pode ser definido como uma corrente de pensamento ético que possui como meta a abolição de uso dos animais. É, sem dúvidas, a corrente de pensamento definidora do veganismo, que prescreve o veganismo como meio, pessoalmente possível de ser adotado a nível individual, para atingir a abolição do especismo.

Seus principais pensadores contemporâneos são Tom Regan e Gary Francione; o último tem tido grande influência no pensamento abolicionista não acadêmico atualmente.

Bem-Estarismo

O Bem-Estarismo Animal é um conjunto de pensamentos que buscam promover o bem-estar dos animais quando usados pelos humanos, em benefício dos humanos. É, portanto, uma ideologia que busca legitimar o especismo, revestindo-o de caráter humanitário através de práticas economicamente sustentáveis e/ou uma grossa camada de retórica.

A WSPA é uma organização notoriamente bem-estarista, tendo seu lobby influenciado a pecuária aqui no Brasil e em outras partes do mundo. Deve-se muito a ela o fato de termos conhecimento do abate humanitário.

Gary Francione afirma que existe algo chamado Neo-Bem-Estarismo, que seria um Bem-Estarismo que se “vende” como meio para atingir o Abolicionismo. Creio que esse termo apenas cria confusão. Se é Bem-Estarismo é Bem-Estarismo, apesar de se estar o vendendo como Abolicionismo. Simples assim.

Socorrismo e as Protetoras

Socorrismo, uma palavra nova que não consta na maioria dos “dicionários animalistas”, foi cunhado por Sônia Felipe para designar um conjunto de práticas que visam socorrer animais que foram lesados. A maioria das protetoras (protetoras, em vez de protetor, pois a maioria esmagadora desse pessoal é mulher) de animais são socorristas.

Veja-se, portanto, que o socorrismo não é incompatível com o Abolicionismo ou o Bem-Estarismo.