Opinião Vegana

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O mundo sob uma ótica vegana.

O verdadeiro, possível e falso veganismo

26 de agosto de 2010

Provavelmente uma das mais incômodas questões que envolvem a prática dos direitos animais é o grau de veracidade que as pessoas ditas veganas tem para com a ideologia que professam. Não trata de um policialismo ideológico, como algumas pessoas colocam. Trata-se da manutenção de um mínimo ético na práxis, que envolve terceiros (os animais).

Há quem diga que seja 100% vegano. Há quem diga que ser 100% vegano é impossível. Há quem acuse o outro de ser um vegano de borracha (aquele vegano que, por desleixo, acaba consumindo produtos antieticos), e também há quem duvide da sinceridade alheia. Picuinha a parte, esse é um problema real para quem é vegano em sociedade, sendo até tema de conversa com não-veganos que conhecem o conceito.

Quanto ao primeiro caso, devemos nos perguntar: o que é ser 100% vegano? O que seria ser um vegano pela metade? Ser vegano, atualmente, é adotar um estilo de vida em que não envolva a utilização de animais. Então, não daria para ser meio vegano. “Explorar os animais pela metade”, ou metade do que um creófilo faria… não, isso não é veganismo. Mas, realmente é possível viver sem meter nenhum animal na berlinda, atualmente no Brasil? Creio que seja impossível. Até o mais antissocial dentre os veganos acabará tendo que beneficiar um especista (por exemplo, indo até o supermercado, ou comprando sementes, ou vendendo hortaliças, ou alguma outra transação comercial com alguém que é declaradamente não-vegano). E aí é que o veganismo, nessa definição hermética e ahistórica, morre.

De fato, ser vegano atualmente no Brasil, não é simplesmente ter esse estilo de vida. É aspirá-lo e mover-se para que ocorra, e um desses movimentos é aproximar-se ao máximo desse modelo ético. Com efeito, todo vegano acaba sendo ativista, até o mais calado e “conformado” de todos eles. Ser ativista é uma exigência do contexto.

Então, ser verdadeiramente vegano, no seu sentido mais puro e abstrato, é tão possível quanto respeitar os Direitos Humanos no capitalismo (ou no socialismo): não é possível, por conta do contexto. Tem-se de aspirar atingir isso, lutar por isso e se aproximar ao máximo do modelo pretendido. Esse é o veganismo possível.

Mas, então o que seria o falso veganismo? Seria o vegano de borracha, aquele desleixado que não procura se informar sobre as coisas, vá de uma boa-fé questionável e acaba contribuindo para o especismo? Ou seria aquele protovegetariano que se diz vegano? Eu realmente não acho que seja nenhum dos dois. O vegano de borracha é vegano, só é desleixado… e o protovegetariano é um mentiroso. O falso veganismo é algo mais complicado que isso, e mais interno. Também justifica alguns tipos de ex-veganos que surgem por aí.

Considero falso vegano aquele vegetariano estrito que não compra produtos testados, nem couro, lã, seda, mel, etc. Isto é, uma pessoa que na prática é vegana (para nossos padrões éticos atuais). Mas pessoa esta que é especista. Um vegano especista é paradoxal, mas é possível em planos diferentes: ser vegano na prática e especista na mentalidade. Isso que considero um falso vegano, tal como o creófilo antiespecista é paradoxal e um falso creófilo… além de outras coisas mais.

Isso pode soar meio inverossímil, porém ao observar o discurso de alguns supostos veganos, dá para encher um balde de especismo. E não digo especismo nas formas mais bobas dele, tal como aquelas velhas e surradas expressões como pé de porco. Estou me referindo a uma visão antropocêntrica de mundo, mesmo.

Liberdade de expressão à moda baiana

9 de agosto de 2010

Não estranhe o conteúdo deste post. Liberdade de expressão integra Direitos Humanos, que é uma subdivisão especializada de Direitos Animais. Afinal, Homo sapiens sapiens é um animal.

Hoje presenciei uma imagem um tanto corriqueira, mas assim mesmo não menos chocante do que de fato é. Gostaria de relatar o caso para você, leitor.

Estive num prédio do judiciário baiano, e ao sair do mesmo, vi um senhor, provavelmente da classe E, protestando em voz alta. Ele falava algumas verdades inconvenientes sobre a classe dos advogados, juízes, policias e outros operadores do Direito em geral. Mas, apenas gritava lá na praça em que esse prédio fica em frente. Passei por ele, e fui para o ponto de ônibus pois tinha que ir a outro prédio no mesmo dia.

Não demorou muito até que um agente do estado da Bahia (não irei determinar a qual poder ou órgão do mesmo, pois pouco importa) começou a ir em direção ao protestante. O protestante recuou, mas não se calou. E o agente continuou a segui-lo. Logo, ambos estavam próximos a um carrinho de pipoca, no ponto, quando o protestante recuou virando-se de costas para o agente, que, na oportunidade, o agrediu. Continuou agredindo-lhe até que o protestante correu para o outro lado da rua, deixando cair seus óculos e seu boné. Diante dos dois, o agente destruiu o primeiro e colocou o segundo debaixo de um ônibus, que em seguida passou por cima dele.

O agente do estado da Bahia retornou ao prédio, e o protestante foi tentar recuperar seu boné, logo após o incidente.

Não entrarei no mérito de se o protestante era ou não um vadio, um morto civil (que legalmente não existe, mas de fato existe), um estrangeiro, um criminoso (se fosse, deveria ter sido apenas preso e não agredido). Seu direito de expressar-se foi violado na frente do estado da Bahia, que o agrediu no ato. Será que podemos falar de liberdade de expressão no estado da Bahia? Tenho minhas dúvidas.

Sete hipóteses absurdas comuns

7 de agosto de 2010
Editado às 13:00 de 8 de agosto de 2010. No original constava “Oito hipóteses”, o que era falso uma vez que são apenas sete. O erro ocorreu devido a existência de uma oitava hipótese que foi excluída da versão final.

Todo vegano, ou mesmo protovegetariano, já ouviu alguma delas. Elas são as hipóteses absurdas, figuras retóricas que os creófilos usam normalmente de forma recorrente. Em geral, elas necessitam de algum entendimento equivocado sobre direitos animais aliado, muitas vezes, a uma desonestidade intelectual marcante. É uma expressão, de fato, do duplipensar onívoro, falado por Robson Fernando.

Então, salvas para as Hipóteses Absurdas:

1. E as plantas?

Cyn74 CC-BY

A rainha de todas as hipóteses absurdas, e as plantas? é a objeção mais comum aos direitos animais. Todo vegetariano já foi indagado sobre isso. Se não foi, ele não existe ou o é muito recentemente. Muita gente já a rebateu, mas sempre é bom falar sobre essa questão óbvia. O pensamento, em geral, parte da premissa de que toda vida é moralmente relevante, e que mortes são erradas. Portanto, para que sejamos éticos, temos de ser “respiratorianos”. Caso o contrário, matar animais não-humanos sencientes é moralmente correto ou indiferente.

Há uma diversidade de equívocos nesse pensamento: primeiro, poucos veganos pensam que “toda a vida é moralmente relevante”. Algo não é relevante per si, ela é relevante por uma qualidade que a torna valorável. A vida, em si, é moralmente irrelevante. É um fato, um substantivo. Agora, a vida senciente, a vida sapiente, a vida transcedente (se existir) são valoráveis. Veganos senciocêntricos valoram a vida senciente. (O motivo varia, mas em geral está relacionado a faculdade de ter interesses conscientes). Plantas não possuem senciência.

A segunda questão é de que matar é invariavelmente errado. Acabar com a vida de um objeto que é indiferente a ela, isto é, um ser não-senciente, é moralmente indiferente. Isso pois a própria planta não tem interesse em permanecer viva. Já animais possuem.

A partir do esclarecimento dessa ideia, é comum seguir-se com uma outra hipótese absurda.

2. A Vaca Super-Feliz

tercerojista CC-BY

Essa questão só se aplica àqueles que não consomem laticínios.

Argumenta, o lacto/creófilo, que, caso o vegano tenha uma vaca (desconsiderando como é que ele acabou a tendo, podendo ser legado de seu passado especista) seria ético o vegano consumir os laticínios provenientes dessa vaca? Naturalmente, o tratamento dela seria da melhor qualidade possível, uma vez que o vegano é quem a cuidaria.

Sabe-se que, para que a vaca tenha leite, ela tenha que ter cruzado e, portanto, parido um bezerro. Seria ético forçar essa relação sexual? Se é com vegano, ela não foi forçado. Logo foi ético o vegano não ter a castrado? Se houve cruzamento, o vegano pelo menos cuida de um outro macho. De onde veio esse macho? Etc.

A questão, em si, se torna mais complicada do que fazer leite de aveia ou até mesmo aqueles queijos da comunidade Queijo Sem Leite.

Porém, no final das contas, ainda haverá um ponto inaceitável: a vaca é mero instrumento do vegano em adquirir seus laticínios “éticos”. Não, não seria ético.

3. A Carne de Morte Limpa

Lina Waters CC-BY

Muito similar a um problema sério de Direitos Animais, A Questão do Ovo Livre, que divide multidões veganas, essa ainda assim é absurda.

A questão é simples. Vê esse cão na foto? Ele não foi morto para ser consumido, foi acidental. Como vegano, você acha ético o consumir?

A questão não é tão simples quanto a questão da vaca. Depende muito da espécie, do contexto. Mas comer o cadáver, per si, não seria errado. Seria errado causar sofrimento ao grupo que ele pertence, uma vez que alguns animais ficam de luto. Há, contudo, quem discorde de mim. Mas isso são outros 500, e não autoriza 56 bilhões de mortes intencionais ao ano.

4. A ilha deserta

Chi King CC-BY

A clássica situação limite usada como chavão pelos creófilos: você está numa ilha deserta, só tem um animal por perto. Você o mata?

Acho válido mudar “um animal” para a espécie Homo sapiens sapiens. A resposta não muda: tentaria, caso não houvesse outra opção. Quando não há alternativa (e não, sua destruição não é alternativa), não se pode exigir ética.

5. Amamentação

Daniel Lobo CC-BY

Se é contra laticínios, é contra amamentação. Essa hipótese absurda é fruto da ignorância sobre os direitos animais. Nenhum crítico informado e sério deve fazê-lo, a não ser os alfascitas (mas eles não são nem um pouco sérios).

6. A pandemia e o experimento

Esparta Palma CC-BY

Suponha que exista uma pandemia muito grave (algo como AIDs, mas bem pior). Seria ético testar em animais? Não seria, pois você estaria além de infligir danos a alguém que não tem nada ver com a história, está permitindo que haja erro. Se a pandemia é tão grave assim, qualquer desperdício de tempo seria antiético. O mais “ético” seria fazer testes naquele que teve a hipótese da pandemia ou em algum voluntário (que provavelmente irá surgir, pois há muitos querendo ser mártires).

7. Se animais tivessem direitos subjetivos, eles poderão votar

Sheryl CC-BY-ND

Primeiramente, para quem não sabe o que são direitos subjetivos: direito a vida, liberdade, ao voto, etc, são direitos subjetivos. Direito Civil, Direito Penal, etc, são direitos objetivos.

Direito subjetivo, em inglês, é right. Já Direito objetivo é Law. Entendeu?

Então, é um tipo de argumento de ladeira escorregadiça. Um fato irá escorregar até outro, bem absurdo. Por isso, não se pode deixar esse fato acontecer. Alguns juristas entendem que se os animais, para o Direito, deixassem de serem tratados como coisas, semoventes, e sim pessoas, eles teriam direitos anacrónicos, como direito ao voto. Naturalmente, eles estão procurando debochar de seus colegas animalistas. Nenhum abolicionista pediu direito a voto, direito a propriedade, nem nada do tipo, aos animais. Apenas que seus direitos a vida, liberdade, integridade física e psíquica fossem considerados pela juricidade.

A questão humana e o anarquismo

23 de julho de 2010

O símbolo da Veganarquia, de Brian A. Dominick.

O veganismo é uma prática moral que preza pela valorização da subjetividade dos animais não-humanos, evitando assim os abusos inerentes a objetificação dos mesmos. Contudo, tal definição per si seria especista. Por que não incluir nesse discurso a humanidade? Afinal, não existiria diferenças tão relevantes que permitiriam que o ser humano tivesse o ônus de poder ser, para conveniência de outrem, objetificado. Portanto, vejo que um dos maiores problemas teóricos de qualquer concepção que funda o veganismo, é a questão dos seres humanos.

Como exemplo de concepção fundamentadora do veganismo, irei usar a teoria reganiana de Direitos Animais. Logicamente, devido a brevidade deste post, não pretendo nem ouso resumir uma teoria tão extensa quanto a de Tom Regan, mas procurarei fazer o máximo para sintetizar a ideia do filósofo americano no parágrafo a seguir:

O problema do especismo é que os humanos acabam por ver os animais não-humanos como meros meios para atingirem seus fins. Assim, o animal acaba por ser objetificado, sendo tratados como objetos e não como sujeitos-de-uma-vida que são. Por assim serem enxergados pela humanidade, o status moral deles se equivale a de, por exemplo, um relógio ou qualquer outro ente inanimado. Isso conduz a violação sistemática de seus direitos.

Como leitura rápida para compreender a teoria de Regan, recomendo o artigo O caso dos direitos animais. Para uma explicação mais minuciosa, recomendo Jaulas Vazias, do mesmo autor.

Agora, transpondo tal linha de raciocínio para seres humanos, no que daria? Afinal, dentro de diversas relações humanas, outros humanos são encarados meramente como objetos, funcionários (entes que exercem uma função dentro de um sistema) ou números, que possuem como fim serem usados como meio para atingir um objetivo que lhes é estranho. A própria relação trabalhista ilustra muito bem isso: o trabalhador é usado por seu patrão como meio para aumentar seu patrimônio. Essa relação oblitera a subjetividade do ente objetificado, o que permite sua espoliação de forma moral (que, de fato, acontece).

Porém, essa análise carece de duas noções importantes e de grande relevância: enquanto os animais não-humanos, via de regra, são interrogados se consentem serem tratados como meios para fins (fins estes que muitas vezes envolve sua própria aniquilação enquanto ser senciente), o animal humano normalmente é interrogado se o consente (salvo o trabalhador forçado em suas diversas modalidades). O consentimento, então, legitimaria moralmente essa objetificação do animal humano?

Além disso, nas próprias relações de consumo o humano acaba por se tornar um meio: o consumidor é, em geral, para o produtor apenas um meio para seu enriquecimento. Numa visão mais radical, não importa muito que o consumidor é ou não um ser humano, apenas que ele é um número, um bolso, um instrumento para a realização dos interesses do produtor, que é seu próprio enriquecimento. A satisfação do consumidor, então, é meramente acidental.

Ajuntando-se a problemática das relações trabalhistas e, sua semelhante, relações de consumo, pode-se ver que a crítica respinga na legitimidade da organização estatal.

O Estado exerce, por definição, forças coercitivas sobre determinada sociedade. Sua legitimidade, contudo, não é incontestável (apesar de pragmaticamente o ser). Qual é a legitimidade das leis que lhes são impostas sem sua participação em sua elaboração? Ao meu ver, teriam caso houve um deslocamento livre e de sua vontade para o campo de influência normativa desse Estado. Mas, e no caso de você simplesmente nascer lá?

Naturalmente, tais problemas não foram simplesmente deixado de lado. Há quem refletiu acerca deles, antes mesmo do veganismo, encontrando uma diversidade de soluções. Uma dessas soluções foi o endereçamento das três problemática por uma abordagem anárquica, ou seja, anti-coercitiva e libertária. Por sinal, a única escol política vegana é anarquista, o Veganarquismo, que entende que a abolição do especismo faz parte da Revolução Social necessária para a efetivação de um status anárquico. Um lema veganárquico muito difundido é “Libertação Animal e Humana”.

Não é, portanto, a toa que há diversos termos anárquicos e tendências libertárias no Movimento dos Direitos Animais, sobretudo aqui no Brasil. Termos como Ação Direta, Autogestão, a grande fragmentação de organizações, o ativismo independente, etc. Tudo possui uma ligação histórica e conceitual com o anarquismo em suas diversas formulações. Creio que não seja absurdo cogitar dizer que metade dos veganos brasileiros ou são anarquistas ou tendem ao anarquismo e outras formulações libertárias.

Para saber mais sobre anarquismo, recomendo um artigo esclarecedor do blogue do Coletivo Anarquista de Piracicaba e Região (coletivo este que está engajado com a causa antiespecista) sobre o tema.

Protovegetarianismo e vegetusianismo

20 de julho de 2010

O tradicional pão-de-queijo mineiro faz parte da dieta vegetusiana e protovegetariana. Foto de minha autoria.

Nos últimos meses pude acompanhar o desenvolvimento de dois novos termos para denominar os vegetaristas, ou ovo-lacto-vegetarianos: o vegetusiano, de Sônia T. Felipe, e o protovegetariano, da Sociedade Vegana. Apesar de convergir em designar praticamente o mesmo grupo de pessoas, ambos não possuem necessariamente o mesmo valor semântico.

O Vegetusiano felipense tem um vínculo, bem explícito, com a palavra latina vegetus. Para melhor esclarecimento, eu cito a própria eticista que cunhou o termo: “Se fosse verdade que a palavra inglesa vegetarian derivasse do latim, conforme querem os “ovo-lacto-api-vegetarianos” conservadores, a palavra não poderia ter sido escrita desse modo, deveria ser: vegetusian. Em português deveria ser, então, vegetusiano.”. Como ela discute em Ética, dietas e conceitos, é muito propagado pela mídia vegetarista (e mesmo vegana) que a origem do termo vegetariano não é vegetal, mas sim vegetus. Vegetus é vigoroso, saudável, em latim. Assim não há de nada estranhar “vegetarianos” consumirem coisas além de vegetais (tais como leite e ovos). Como a eticista colocou em seu artigo, essa tese é um tanto quanto minada pela própria natureza da língua, que teria conduzido ao termo vegetusiano.

Vegetusiano seria, portanto, o vegetarista cuja motivação pela dieta é a manutenção de sua saúde, nada mais além do que isso.

Já o protovegetariano da Sociedade Vegana trata da mesma problemática. Contudo, como bem explica o artigo homônimo, o novo termo tem uma ligação com o vegetarianismo ético. Trata-se de uma concepção de uma dieta que tende conceitualmente ao vegetarianismo ético e a abordagem abolicionista do animalismo. Portanto, é um termo que concebe o vegetarismo enquanto momento de transição, havendo perspectiva de ser um antecedente para o vegetarianismo de verdade.

O vegetusianismo de Sônia não acabou ganhando popularidade: numa rápida pesquisa no Google, constatei que o termo apenas tinha 149 referências. Enquanto isso, o mais recente protovegetariano já goza de 1,700 achados. Talvez o otimismo semântico do primeiro quanto a abolição do uso dos animais seja o motivo de tal popularidade. Mas apenas o tempo dirá quando protovegetarianismo se tornará o termo corrente para denominar os ovo-lactos, que gozam de quase 70 mil achados no Google (sem contar a palavra “vegetariano” isoladamente).

“Mas você gosta dos animalzinhos!”

11 de julho de 2010

Uma amante de animais. BY-NC-SA Hop-Frog.

Há algo no pensamento especista comum que acho peculiar, e até mesmo uma barreira para a causa: o pensamento de que ter uma afeição para com os animais não-humanos é pré-requisito para adotar-se uma postura anti-especista.

Naturalmente, o especista que crê nisso acredita não ser sua obrigação moral adotar uma postura anti-especista. É mera questão de gosto, de afinidade, sendo uma obrigação moral apenas para os tais amantes de animais, os protetores de animais, etc. Qualquer discurso que não trate sobre essa questão será interpretado como não dirigido a ele, mas sim aos famosos amantes de animais “hipócritas”.

Mas, afinal, quantos anti-especistas foram categorizados como amantes de animais somente por não os danar? Acredito que todos eles já foram, não só pelos especistas mas também por alguns anti-especistas que realmente amam os animais. Eu particularmente sou assim categorizado regularmente, provavelmente pelo menos duas vezes por mês.

Então, qual seria o pensamento atrás desse equívoco de tanta gente?

Creio que seja a ideologia da “Ética do Afeto”. Ética do Afeto, seria, nesse contexto, a ideia de que a moralidade se fundamenta nos laços de afeição entre os sujeitos morais. Em outras palavras: há obrigação de se adotar um atitude ética apenas para com aqueles com quem se tem afeição. Aos outros não há essa obrigação, podendo fazer-se o que quiser sem ser injusto. Afinal, a medida de justiça apenas existe para com os afetos. Há, também, quem diga que a boa ação aos outros é apenas um lucro, não havendo ônus para aquele que causa dano.

Uma boa representação dessa ideologia é a hierarquia moral que algumas pessoas criam, em que elas próprias são o topo da pirâmide e as plantas, animais “de criação” e matéria insensível é a base. Pode variar. Por exemplo, se for um nacionalista, a nação talvez seja o topo da pirâmide. Contudo, a ideia é praticamente a mesma.

Esse pensamento pode ser “justo” em casos extremos, como a alegoria da ilha deserta (“Se você tivesse sozinho numa ilha deserta com X, você mataria e comeria X? Se essa fosse sua única opção para sobreviver?”). Porém, para a situação normal, em que há opções mais justas em uma ótica de uma Ética do Respeito, não é justo de forma alguma fundamentar sua moral na afeição que tem por outrem.

Na teoria, esse pensamento possuiria resultados temíveis: se um especista padrão é indiferente aos animais não-humanos e os obliteram indiretamente, mas conscientemente regularmente, qual seria a previsão de seu comportamento diante de um inimigo? Algumas soluções são a “reserva de afeição” (“Até o pior inimigo humano é afetivamente superior ao mais querido não-humano domesticado.”) e outras tantas soluções demasiadamente especistas que acabam por ainda não solucionar o problema.

Eu não simpatizo de forma alguma com essa linha de raciocínio que, digo mais uma vez, me parece equivocada. Uma ética tem de ser fundamentada na alteridade, no respeito e na consequência de suas ações. Mas isso é assunto para outro post.

Do boicote aos artistas que apresentam em rodeios e às empresas que os patrocinam

8 de julho de 2010

A Minerva patrocina o Rodeio de Barretos. CC-BY Gerardo Lazzari.

Antes de iniciar a discussão, quero deixar claro que quando digo boicote, não estou me referindo a se abster de produtos que diretamente estão relacionados ao especiesmo. Me refiro sim ao boicote aquilo que não tem relação direta ao especismo. Falar de abstinência de produtos relacionados diretamente com o especismo é pleonasmo num post vegano.

Portanto, indo ao que interessa:

Alguns veganos boicotam, por exemplo, algumas marcas de bebidas alcoólicas por patrocinarem rodeios. Outros boicotam artistas que se apresentam nesse tipo de evento. Há quem, inclusive, condene algumas coisas (ex. tabagismo) por não haver opções que não tenham um pé dentro desse tipo de evento.

A lógica para eles é simples: se é pilar de sustentação do especismo, vive dele e logo tem que ser combatido através da não-participação e do boicote.

Creio que esse pensamento seja equivocado. A propósito, normalmente quem faz campanha por esse tipo de boicote é injusto, se não hipócrita. Isso pois raramente essas pessoas não deixam de fazer algumas exceções tácitas. Não vejo campanhas de boicote, nesses termos, dirigidos ao cartão de crédito Visa ou às lojas de departamento Casas Bahia. Ambos patrocinam rodeios.

Outro problema dessa lógica possui uma conclusão que raríssimas vezes vi alguém defendendo (provavelmente por ser impraticável): que nós devemos boicotar os especistas. Exatamente, boicotar todos os especistas! Afinal, todos eles são os pilares do especismo. Sem especistas, não há especismo… (seria essa frase o prólogo de um fascioveganismo?). Obviamente, isso é impossível. Não dá para viver sem especistas… por enquanto.

Agora, explicando o motivo pelo qual entendo que seja um boicote equivocado:

No caso das empresas, o patrocínio possui um conteúdo basicamente financeiro. Não faz parte das atividades delas (quando limita-se a análise apenas do produto o qual você está consumindo, é claro) a prática direta do especismo. Como o fim do boicote é uma representação ou uma efetiva ação contra o especismo, faz tanto sentido boicotar uma patrocinadora de rodeio quanto um advogado creófilo. Não é a mesma coisa que boicotar uma empresa que testa. Vale mais a pena, e faz mais sentido, lutar pela causa abolicionista, por uma educação vegana que possibilite a mudança de paradigma ético-cultural que os Direitos Animais exigem, do que ficar boicotando a Schin por conta disso.

Quanto aos artistas que se apresentam nos eventos, há dois casos: o econômico, que é o mesmo do patrocinadores; e o ideológico. Bandas e artistas especistas, que ganham sua vida propagando a ideologia especista, não merecem ser boicotados por apresentarem num paraíso especista. Esses devem ser boicotados por serem propagadores da ideologia especista, simplesmente por isso.

De sociopata todo creófilo tem um pouco…

22 de junho de 2010
Observação: quando digo “sociopatia” ao falar de creófilos, me refiro ao contexto que coloquei no artigo Creofilia e sociopatia. Qualquer outra consideração que fuja a noção de que o especismo, enquanto desconsideração dos interesses dos seres sencientes, se configura num tipo vulgar de sociopatia, não são pertinentes a esta minha crítica dirigida, sobretudo, a platéia. (Adicionado em 21/07/10)

Me digam uma coisa, especismo a parte, essa não é a descrição de três assassinatos?

Observe a piada alfascista de péssima qualidade do Jô Soares. Eu achei que eles já tinham superado o biocentrismo cômico, mas um dos maiores humoristas do país (sim, estou sendo irônico) não aprendeu ainda.

Querido blogue…

18 de junho de 2010

Querido blogue,

Recentemente, algo muito curioso aconteceu comigo.

Fui almoçar, encontrei um conhecido, que encontrou outro conhecido. Esse meu conhecido me apresentou como vegano, eu disse “oi” e fui comer minha comida (que estava muito boa, por sinal). Logo depois disso, esse conhecido do meu conhecido (que simplesmente chamarei de “ele” para o restante do artigo) confessou algo: deixou de ser protovegetariano. No final das contas, ele descobriu que dá para ser saudável comendo peixe, de vez em quando.

Como ele nunca deu a mínima para os animais, pois é natural que os mate, visto que eles matam uns aos outros. Meu conhecido o rebateu argumentando que se fosse assim, homicídio, estupro, infanticídio (contribuição minha), por ser natural.

Depois ele começou a criticar os vegetarianos por se acharem bons, etc, etc.

No final, os dois entraram num consenso baseado na espiritualidade oriental.

Att.

Samory Santos.

Assim, eu queria compartilhar isso com vocês para apontar alguns problemas que podem ter causado a indignação prévia (pois, aparentemente, ele estava me criticando por associação).

Primeiramente, vemos a questão da saúde: “Seja vegano por você.”

Quem não estudou um pouco mais sobre, por exemplo, taxas de mortalidade de populações vegetarianas e creófilas pode ficar simplesmente colocando veganismo como uma panaceia para os problemas de saúde da contemporaneidade. Não é bem assim. Populações que se alimentam de peixe tendem a ser mais saudáveis do que veganos e outros creófilos. O apelo pela saúde pode funcionar com pessoas que se importam muito com sua saúde, mas não a todos. Prova disso é o tabagismo. Quem não sabe que fumo causa n doenças? Outro exemplo é o sedentarismo. Agora, não entrarei no debate que não buscar pela saúde eticamente viável seja uma obrigação moral do indivíduo para consigo mesmo (um pensamento que eu discordo). Porém, devo confessar que é um tipo de apelo egoísta que não serve de nada para os animais.

A segunda questão é da bondade: “Veganos são bons.”

Eu nunca vi alguém ostentar essa ideia. Talvez seja confusão do próprio argumento ético. que pode ser entendido nesse temo: quem explora os animais é ruim, logo quem não os explora é bom. É um equívoco. Quem não explora os animais não é bom. É indiferente. Mas quem os explora é “ruim”. Ser “bom” é fazer coisas boas, não deixar de fazer coisas ruins.

A terceira questão que vi nesse discurso é o naturismo: “O natural é bom!”

Esse é um argumento velho, surrado, usado para qualquer coisa que você puder imaginar. Homossexuais eram condenados moralmente por agirem contra a natureza. Isto é, o que não é natural é imoral. Esse discurso, se realmente fosse usado de forma sincera, iria inviabilizar a civilização (e a quem o faça), pois a civilização é antinatural. Contudo, o ponto fraco desse discurso é simples: o que natureza tem a ver com moralidade? Não tem nenhuma ligação.

E a quarta, e última, questão é a de agir como terceiros agiriam, e não como você mesmo agiria: “Faço como eles fazem entre si.”

Obviamente, tenho que distinguir em grupos artificias os humanos e os não-humanos, e homogeneizá-los para que isso faça sentido. A lógica é a seguinte: eu mato pois eles matam entre si. Problema desse discurso é que não faz o menor sentido (então vou mutilar as genitálias dos somalianos pois eles mutilam um dos outros?) e, pior, atinge quem não tem nada ver. Se fosse para justificar a matança de animais carnívoros e onívoros, teria uma lógica interna, mas quando se expande para os animais herbívoros (ovinos, galináceos, os mais cobiçados), qual é a lógica interna? O simples fato deles serem membros do grupo amorfo e abstrato chamado “animais”? Não, eles não matam outros de seus semelhantes para comerem.

Não morri

11 de junho de 2010

Não ando postando visto que estou com uma grande quantidade de provas e afins nesse período. Logo que acabarem, voltarei a tratar sobre a PETA e de uma possível “purificação” (teórica) do Veganismo e os perigos de impurezas.